Expoentes da música barroca trazem o oratório favorito de Händel a São Paulo

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Fonte da notícia: Globo Globo

Uma crítica à intolerância e à polarização ideológica parece mais necessária hoje do que nunca. Mas talvez porque sempre tenha sido.

Prova disso é “Theodora”. Georg Friedrich Händel compôs o oratório, que retrata o martírio de uma virgem sacrificada no século IV em uma Antióquia governada por romanos que não aceitavam a fé cristã, em 1750.

No próximo dia 8, sua força dramática será levada ao palco da Sala São Paulo, para encerrar a temporada de concertos internacionais da Tucca, organização que usa as receitas dos espetáculos no tratamento do câncer em crianças e adolescentes. “Theodora” será executada pelo Coro Monteverdi e pela orquestra English Baroque Soloists, conjuntos que lidaram eles próprios com uma questão de intolerância há alguns anos.

Em 2024, o grupo resolveu se separar de seu fundador, o regente britânico John Eliot Gardiner, que no ano anterior havia agredido um cantor por ele ter saído pelo lado errado do palco. Gardiner fez de coro e orquestra expoentes da interpretação orientada por práticas históricas, mas tinha fama de ser implacável e arrogante.

Desde então, o Coro Monteverdi e as orquestras do grupo (além do English Baroque Soloists há a Orquestra Revolucionária e Romântica, que virá ao Brasil em 2027, pela temporada do Cultura Artística) têm se apresentado com maestros convidados. Na turnê de “Theodora”, a direção é do cravista e regente francês Christophe Rousset.

Não é comum que orquestras que tocam com instrumentos de época continuem ativas depois da saída de seus fundadores, visto que elas costumam operar com músicos freelance e não como corpos artísticos estáveis, o que faz com que suas identidades sejam muito atreladas às de seus diretores.

O próprio Rousset afirma não querer que a orquestra que fundou, Les Talents Lyriques, siga existindo depois dele. Mas ele se diz orgulhoso de ter sido convidado para a turnê do Coro Monteverdi e do English Baroque Soloists, que lhe dá a oportunidade de trabalhar com músicos treinados em uma escola diferente.

Rousset e o grupo acabam de lançar uma nova gravação do “Messias” de Händel. “Muitas pessoas que me conhecem bem dizem que ela não soa como minha orquestra”, diz o maestro francês.

“Isso me deixa contente, porque prova que o Coro Monteverdi e a orquestra têm esse som e identidade muito especiais.” Ele considera que, assim como orquestras sinfônicas modernas desenvolveram identidades sonoras próprias em países ou regiões diferentes, o mesmo acontece com conjuntos que usam instrumentos de época para o repertório barroco ou do classicismo.

No caso da escola britânica, Rousset destaca uma maneira particular de tocar violino. “Theodora” terá assim a combinação de duas escolas interpretativas, mas ambas com longa tradição em Händel.

Rousset já executou e gravou diversas óperas do compositor alemão com seu Les Talents Lyriques. “Theodora” é um oratório, mas é às vezes apresentado sob a forma de ópera.

Na Sala São Paulo, será executado em concerto encenado, com direção cênica de Thomas Guthrie. Rousset não considera a encenação crucial, visto que a mensagem contra a intolerância do oratório é bastante clara, mas diz que sem dúvida ajuda o público a compreender a trama.

Até porque, sendo um oratório, sua linguagem narrativa não é tão direta quanto a de uma ópera. “A ideia de arquitetura é bem diferente”, diz ele.

“Quando Händel escreve para a ópera, ele é decididamente mais italiano [‘Theodora’ é em inglês] e procura ser mais vocal, menos orientado para o contraponto, não usa ou pouco usa coros.” A encenação certamente será útil no Brasil, já que a história de “Theodora”, apesar de seu aspecto cristão, não é conhecida por aqui.

Segundo a lenda, Theodora era uma jovem nobre cristã que se recusou a seguir um decreto em honra aos deuses romanos e por isso foi condenada a se prostituir. Um soldado, Didymus, resolve salvá-la usando suas vestes e ficando em seu lugar enquanto ela foge.

Depois, ao saber que Didymus foi condenado à morte, Theodora decide que não pode deixá-lo morrer sozinho. “Você vê intolerância em todos os lugares, especialmente nos dias atuais, e essa história mostra que o ser humano ainda é o mesmo e ainda continua usando as mesmas armas contra ele mesmo”, diz Rousset.

“Theodora” fez pouco sucesso quando estreou, alguns dias depois de um terremoto em Londres. Mas era o oratório favorito de Händel.

“É uma obra maravilhosa, e tem momentos de incrível intensidade, porque é dramática. É sobre morte, é sobre estupro, é sobre poder que não é exercido da maneira correta, e é também sobre religião”, diz Rousset.

Publicação Original Globo valor.globo.com
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