O revés histórico sofrido por Donald Trump nas eleições de meio de mandato nos Estados Unidos (EUA) tem semelhanças com a onda democrática no Brasil, há quase 10 dias, que deu ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva o quarto mandato após virada inédita no segundo turno contra a ultradireita.
Apesar do declarado apoio de Trump ao clã Bolsonaro, a vitória de Lula, em grande medida, inspirou os eleitores estadunidenses a comparecerem às urnas nesta semana. O Partido Democrata conquistou maioria absoluta no Congresso dos EUA, revertendo de maneira avassaladora o domínio dos republicanos.
Os democratas conseguiram também a maioria dos governos dos estados, incluindo resultados paradigmáticos, a exemplo da governadora eleita do Novo México, Deb Haaland, a primeira mulher indígena a chefiar um dos entes da federação. Para além da resistência à ultradireita, a reposta dos eleitores estadunidenses a Trump encontra explicação no custo de vida alto nos EUA e nas guerras empreendidas pelo republicano.
O fechamento do Estreito de Ormuz, consequência direta do conflito no Irã, resultou no aumento do preço dos combustíveis e, consequentemente, dos alimentos. Promessa de campanha do presidente norte-americano, o retorno das indústrias aos EUA simplesmente fracassou.
O tarifaço desorganizou a economia. O diretor da Fundação Perseu Abramo (FPA), Valter Pomar, ex-secretário nacional de Relações Internacionais do Partido dos Trabalhadores (PT), disse à Rede PT de Comunicação que o momento é propício para impor derrotas a outras figuras da ultradireita internacional, como o presidente da Argentina, Javier Milei, e o premiê de Israel, Benjamin Netanyahu, ambos aliados de Trump que experimentam baixa popularidade em seus países.
“Mas estes monstros não estão sós e é preciso, além de decapitar os monstros, derrotar suas políticas”, ponderou. Pomar argumenta que o Partido Democrata não difere muito do Republicano quando o assunto é a defesa dos interesses estadunidenses na América Latina.
“É preciso comemorar a derrota de Trump, mas sem achar que isso resolve definitivamente o problema, que passa por impor uma derrota ao imperialismo estadunidense. Ter isso claro é importante, entre outros motivos, para calibrar nossa tática onde somos oposição”, argumenta.
Nesse sentido, o diretor da FPA exaltou o crescimento de setores bem mais à esquerda do Partido Democrata nas eleições, especialmente o Democratic Socialists of America (DSA), a maior organização política de orientação socialista e social-democrata dos EUA, fundada em 1982. A secretária-executiva do Foro de São Paulo, Monica Valente, entende que tanto a derrota de Trump quanto a vitória de Lula são fatos eleitorais que, somados, fortalecem a soberania latino-americana.
Durante a campanha de Lula, Valente atuou nas pontes da campanha com partidos progressistas globais e organismos internacionais. Em janeiro deste ano, lembra ela, os EUA depuseram e sequestraram Nicolás Maduro, ex-presidente da Venezuela.
No fim de maio, o governo Trump declarou o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital organizações terroristas, com o objetivo de facilitar operações militares no Brasil. “Uma coisa muito importante para a gente remarcar, nessa derrota do Trump, é que a tal da invasão na América Latina, ela saiu muito enfraquecida, e a doutrina do Trump para a América Latina, com a vitória do Lula no Brasil e essa derrota do Trump nos Estados Unidos, também.
Marca, provavelmente, um ponto de virada nessa política externa em relação à América Latina”, analisa Valente. Segundo ela, é importante destacar, também, o papel do voto latino na derrota de Trump.
Essa fatia do eleitorado, que havia votado maciçamente no republicano em 2024, mudou de lado e aderiu aos democratas, muito por conta da política anti-imigração dos últimos dois anos, simbolizada pela truculência do Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA, ou U.S. Immigration and Customs Enforcement (ICE, sigla em inglês).
“Houve um aumento de 28% do voto da comunidade latina nos candidatos democratas, especialmente nos jovens, homens e mulheres jovens, latinos, quando foi mais de 30% que votou nos candidatos democratas”, destacou Valente. Sonia da Silva integra o núcleo do PT em Nova Iorque.
À Rede PT de Comunicação, ela relatou a sensação de que a vitória de Lula no Brasil era o empurrão que faltava à população dos EUA para rechaçar Trump nas eleições de meio de mandato. Mas também a ascensão do socialista Zohran Mamdani, opositor ferrenho do presidente, à prefeitura da cidade influenciou no resultado, acrescentou.
“A vitória do Zohran mostra que uma campanha sem financiamento, e com uma agenda voltada para baixar o custo de vida, dialoga com a maioria da população”, pontuou Sonia. Já Claudia Tamsky, do núcleo do PT em Boston e no Canadá, entende que o efeito Lula nas eleições estadunidenses se manifesta na percepção dos eleitores em relação à possibilidade de terem as vidas destruídas por políticas econômicas prejudiciais à classe média e à classe trabalhadora.
“É uma comparação clássica com o que poderia ter acontecido aos brasileiros caso Flávio Bolsonaro tivesse vencido as eleições”, lembra. Claudia afirmou que o custo de vida se tornou insustentável nos EUA e atingiu os pequenos produtores rurais, inclusive em estados profundamente conservadores, o que explica a vitória do Partido Democrata em algumas localidades.
“Muitos não conseguiram manter suas atividades, foram à falência ou tiveram que vender suas fazendas e terras”, destaca.
PT