Dupla Jorge e Mateus durante show no Recife (PE), em fevereiro de 2026 Divulgação/Jorge e Mateus
Após onda de ameaça boicote que partiu da classe artística e da militância, as prefeituras do Recife e de Fortaleza cancelaram, quase ao mesmo tempo, os shows da dupla sertaneja Jorge e Mateus que estavam previstos para festas de Réveillon nas cidades. A suspensão dos eventos foi motivada pela repercussão de um vídeo em que o cantor Jorge declara apoio ao então candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL), em outubro.
A prefeitura do Recife é comandada por Victor Marques (PCdoB), que assumiu o cargo após João Campos (PSB) renunciar para concorrer ao governo do Estado nas eleições – ele foi derrotado pela atual governadora Raquel Lyra (PSD). Fortaleza é comandada por Evandro Leitão (PT), aliado do senador Camilo Santana (PT).
“Pode chorar, mas eu não voto no PT”, disse Jorge durante manifestação de apoio a Flávio ao lado de outros artistas em Nerópolis (GO), em outubro. A frase é uma paródia de um trecho da música “Pode Chorar”, de autoria compositor potiguar Dorgival Dantas, um dos maiores sucessos da carreira da dupla.
A Prefeitura de Fortaleza foi a primeira a rescindir o contrato com a dupla para “blindar a festa de desgastes políticos”, segundo comunicado prefeito na noite de terça-feira (3). A administração disse que o distrato ocorreu “de forma amigável e em comum acordo”.
No mesmo dia, Victor Marques também comunicou o cancelamento. Em um primeiro momento, o prefeito do Recife tinha defendido a manutenção do show da dupla e a “convivência democrática”, argumentando que os “palanques eleitorais já haviam sido desmontados”.
Com o crescimento da onda de boicote, Marques recuou. "A virada do ano é um momento de celebração, de união e de renovação da esperança.
Uma festa que deve reunir as pessoas em um ambiente de alegria, respeito e harmonia. Diante das circunstâncias, entendemos que não há mais clima para manter a dupla Jorge e Mateus na programação do Réveillon do Recife”, disse Marques, em nota.
O cachê da dupla sertaneja varia entre R$ 800 mil e R$ 1,5 milhão. As duas prefeituras disseram que o valor seria custeado por patrocinadores.
Jorge também foi acusado de promover xenofobia contra nordestinos. Supostamente, o cantor teria dito que os eleitores da região “votam mal”.
Em comunicado oficial, negou que tenha feito qualquer tipo de ataque ao povo nordestino e que as falas atribuídas a ele não são verdadeiras. O cantor disse ainda ter “gratidão” pelo carinho que recebe dos fãs em seus shows pela região.
“Respeito às diferentes opiniões e acredito que, acima de tudo, devem prevalecer o diálogo, a empatia e o respeito”, acrescentou. A postura dos prefeitos de Recife e Fortaleza foi criticada pelo ex-prefeito de Salvador ACM Neto (União Brasil).
Ele classificou a decisão das prefeituras dessas capitais como atos de "censura, perseguição política e intolerância”. "Já imaginaram se Salvador decidisse cancelar os shows de Daniela Mercury e BaianaSystem no Réveillon? Seria um escândalo, né? [...] Gente, prefeito não é dono do dinheiro público! Nem do voto de quem sobe no palco.
Me poupe!”, disse ACM, nas redes sociais.
Valor