Uma crise que começou num banco digital, bloqueou as contas de 40% dos paraguaios e levou manifestantes às ruas acabou provocando a renúncia do presidente do país, Santiago Peña. Ele foi sócio do Ueno Bank, que está no centro dessa crise, e caiu em apenas dois dias.
Primeira fila: Banco Central do Paraguai define primeiro grupo de correntistas do Ueno Bank a receber recursos, diz jornal Crise do Ueno Bank: Brasileiros têm dinheiro retido em banco digital que quebrou no Paraguai
Como um problema financeiro cresceu tão rapidamente, a ponto de tirar o cargo da maior autoridade do país? É o que você vai entender agora no texto ou no vídeo a seguir. Como tudo começou?
O Ueno Bank cresceu muito no mandato de Peña. Ele tinha cerca de três milhões de clientes, o equivalente a 40% da população do Paraguai.
Na terça-feira, banco fechou as portas e bloqueou o acesso às contas bancárias e aos investimentos dessas pessoas. Santiago Peña: presidente do Paraguai renuncia
Jeenah Moon/Bloomberg O comércio do país parou.
Muita gente ficou sem poder fazer pagamentos ou receber recursos. Faltou dinheiro para coisas básicas como pagar as compras do mercado ou a mensalidade da escola.
Revoltados, os paraguaios foram protestar nas ruas de Assunção. Por que o banco digital fechou?
O Ueno fechou porque o Banco Central paraguaio descobriu irregularidades e fez uma intervenção. A investigação ainda está em curso, mas ela já apontou que a instituição emprestava dinheiro a companhias que também eram ligadas ao grupo que controla o Ueno, o grupo Vázquez, em quantias acima do permitido.
Letreiro com o logo do banco digital Ueno, que sofreu intervenção do Banco Central do Paraguai Reprodução/Site do Ueno Bank
Esses empréstimos são irregulares porque concentram riscos de crédito dentro de um mesmo grupo. Além disso, o dinheiro circulava entre essas empresas de uma forma que acabava escondendo dívidas e dando a impressão de que os pagamentos estavam em dia.
Quando o Banco Central do Paraguai (BCP) revisou essas operações, descobriu que o Ueno não tinha dinheiro suficiente para continuar funcionando e decretou a intervenção. Carlos Carvallo assinou sua renúncia da presidência do BC do paraguai
Santi Carneri/Bloomberg Quando ficou claro que o banco não tinha capital suficiente para manter suas operações, saques e depósitos foram suspensos.
E oito executivos foram presos. Após a repercussão do caso, o presidente do (BCP) renunciou.
Por que o presidente foi envolvido? Santiago Peña foi sócio desse grupo até março de 2025.
Como 40% da população teve seus recursos retidos e passou a temer pelo futuro de seu patrimônio, o alvo preferencial foi o governo e o próprio presidente. Deputados paraguaios participam de uma sessão extraordinária convocada para decidir sobre o possível impeachment do Presidente Santiago Peña no Congresso Nacional em Assunção.
DANIEL DUARTE / AFP Houve manifestações e muita revolta nas ruas de Assunção, com muita gente sem conseguir fazer pagamentos ou receber recursos.
Clientes e aposentados foram cobrar a devolução do dinheiro depositado. Diante dessa confusão, a oposição acelerou um processo de impeachment no Congresso, e a situação de Santiago Peña se tornou insustentável, a ponto de ele renunciar.
Confira a cronologia da crise Terça-feira: o banco
O Banco Central do Paraguai (BCP) anunciou a intervenção do Ueno Bank. Seu índice de solvência tinha caído abaixo da metade do mínimo exigido.
O banco tinha cerca de três milhões de clientes em um país de 6,4 milhões de habitantes. Também gerenciava fundos do Instituto de Previdência Social e do Ministério da Economia e Finanças.
Entenda: Como o banco digital Ueno, do Paraguai, foi à lona O Ministério Público ordenou a detenção de oito diretores do banco.
No mesmo dia, a pedido de Peña, o presidente do Banco Central, Carlos Carvallo, renunciou. Ele tinha presidido a financeira Ueno antes de assumir o cargo no organismo regulador.
Peña, que chegou à Presidência em 2023 com mandato até 2028, foi acionista até março do ano passado do Grupo Vázquez, controlador do Ueno Bank. Quarta-feira: protestos e acusação
Com os depósitos bloqueados, Peña promulgou, na quarta-feira, uma lei para devolver a maior parte do dinheiro em menos de uma semana. Na mesma quarta-feira, 35 deputados, entre opositores e dissidentes do governo, apresentaram uma acusação para submeter o presidente e seu vice, Pedro Alliana, a um julgamento político.
Manifestantes tomam as ruas em protesto contra crise do banco digital Ueno DANIEL DUARTE / AFP
Atribui-se a Peña um conflito de interesses e ele foi acusado de favorecer o banco com decisões regulatórias e depósitos de fundos previdenciários. À noite, centenas de pessoas protestaram em Assunção pelo segundo dia consecutivo.
Os poupadores exigiam a retirada de seu dinheiro e alguns exibiam cartazes com o lema "Julgamento político contra Santi Peña". "Devolvam nossa grana", repetiam em coro.
Houve confrontos com a polícia, que usou bombas de gás lacrimogêneo e caminhões hidrantes para dispersar os manifestantes. Escândalo financeiro: Quebra do banco Ueno paralisa comércio no Paraguai
Quinta-feira: Peña perde o apoio de seu partido Na manhã de quinta-feira, o ex-presidente Horacio Cartes (2013-2018), titular do governista Partido Colorado, anunciou que apoiava o julgamento político de Peña.
Passadas as 10h30 locais (mesmo horário em Brasília), a Câmara dos Deputados abriu a sessão para tratar da acusação. Em meio ao debate, Peña anunciou sua renúncia em um vídeo postado no X.
"Tomei a decisão de apresentar minha renúncia à Presidência da República (...) Quero pedir desculpas ao povo se em algum momento eu falhei", disse. Minutos depois, os 78 deputados presentes aprovaram a acusação contra Peña.
Em uma segunda sessão, a Câmara rejeitou o pedido de julgamento político contra Alliana por 48 votos a 30. Após quebra do banco: Executivos do Ueno Bank são presos no Paraguai; veja quem são e os crimes de que são suspeitos
Cabe às duas câmaras do Congresso aceitar ou não a renúncia de Peña. Se a rejeitarem, o Senado terá que julgá-lo e decidir se o destitui.
Se a Presidência ficar vacante, Alliana deverá completar o mandato até 2028. *Estagiária sob supervisão de Alexandre Rodrigues e Danielle Nogueira
(Com cronologia da AFP)
O Globo