Composição de reunião de Lula reforça tese de ajuste fiscal gradual, com ataque a privilégios e aumento de receitas

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

A composição da reunião do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com ministros, ex-ministros e economistas de corte heterodoxo nessa quinta-feira oferece indícios sobre qual o caminho o governo poderá trilhar para melhorar a situação das contas públicas. O grupo de 11 pessoas que conversou com Lula, a despeito das nuances e variedade de opiniões, tem em comum uma leitura de que é possível melhorar a situação fiscal sem sacrificar de forma relevante gastos sociais e sem dar um "cavalo de pau" no tom da campanha eleitoral.

Nesse sentido, alguns dos personagens já verbalizaram pública ou reservadamente ideias como cortar gastos em emendas parlamentares, penduricalhos e supersalários do Judiciário, melhorar a eficiência de programas sociais para evitar desperdícios. Mas também defendem ações do lado da receita, como avançar em progressividade da tributação sobre a renda e patrimônio e diminuir os gastos tributários, agenda já encampada no atual mandato de Lula, mas que ainda teria bastante espaço para avançar.

Outro traço do time "desenvolvimentista" que Lula escalou para essa reunião é o olhar altamente político sobre a economia. Não só porque havia ministros e ex-ministros, posições naturalmente políticas, mas também porque os economistas de fora do governo que participaram do encontro, Laura Carvalho e Eduardo Moreira, são conhecidos pelo seu engajamento nas pautas da esquerda, questionam as teses centrais do mercado financeiro e foram bastante atuantes no período eleitoral no apoio à reeleição de Lula.

Essa característica em comum acaba sendo uma forma de, simbolicamente, se contrapor às pressões da "Faria Lima" por um choque fiscal no lado do gasto e redução do estado, reforçando a opção política evidenciada na campanha eleitoral, de gradualismo na gestão das contas públicas e de um projeto de estado forte e indutor do desenvolvimento.

Não foi à toa que o mercado não só ficou curioso com o desfecho da reunião, mas também mostrou incômodo com a sua composição, evidenciado com ironias nos bastidores e em redes sociais, além de piora nos preços de ativos. Outra "coincidência" na escolha das pessoas que participaram da reunião é o incômodo com o nível de taxa de juros praticado pelo Banco Central.

A realização dela no dia seguinte à decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de manter a taxa Selic em 13,75% é daquelas coincidências que se sabe que não existem em Brasília. Lula pediu que os participantes de sua versão improvisada do "conselho de assessores econômicos" (colegiado que aconselha o presidente dos EUA) evitassem contar os bastidores do encontro no Palácio da Alvorada.

No mais relevante gesto de empoderamento do atual ministro da Fazenda, Dario Durigan, desde o fechamento das urnas, Lula determinou que só ele falasse sobre o assunto com a imprensa. O atual chefe da economia disse que não há fórmula mágica para resolver o quadro das contas do governo e reforçou a mensagem de manutenção dos compromissos fiscais – expressos na trajetória prevista no projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), com resultados primários positivos e crescentes ao longo do próximo mandato.

Durigan falou explicitamente de manutenção e reforço das regras fiscais atuais e a busca por um caminho que contemple melhoria das contas públicas junto com indicadores sociais e políticas públicas. O ministro não aprofundou os detalhes das discussões de hoje, mas afirmou que não foram debatidas medidas.

Reconheceu, porém, que estão sendo elaboradas propostas que serão apresentadas para decisão de Lula na volta das viagens internacionais do presidente na próxima semana. Os técnicos do governo aceleram os trabalhos para apresentar um plano que ajude a acalmar as coisas no mundo das finanças.

Mas terão que se empenhar também para evitar que Lula não repita o roteiro de 2024, quando reuniu conselheiros, discutiu economia, topou medidas fiscais não desprezíveis, mas desidratou o pacote e causou furor no mercado financeiro ao incluir a desoneração do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil.

O custo disso está sendo pago até hoje na forma de juros elevadíssimos e na desconfiança permanente dos investidores, sobretudo locais.

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
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