Um vendedor sem escrúpulos e esperto sabe muito bem como usar o nosso cérebro contra nós mesmos, fazendo com que compremos os produtos que está vendendo. Essa sinalização foi dada pelo linguista George Lakoff, professor emérito de Ciência Cognitiva e Linguística na Universidade da Califórnia em Berkeley, em vários artigos sobre o presidente norte-americano Donald Trump.
Atores políticos igualmente inescrupulosos e muito espertos sabem agir para nos convencer a aderir sem pensar às ideias (estapafúrdias) que estão sendo difundidas. Mas, para além de “aderir” àquela ideia, esses mecanismos do discurso também nos levam a engajar determinados conteúdos pela raiva que despertam em nós.
A raiva, a indignação, a revolta, todos esses são elementos fortíssimos de mobilização. Nós somos seres mobilizados pelas paixões – nem sempre positivas.
E assim, a vontade de retrucar, de fazer frente àquele personagem que nos desafiou, que tentou até coletivamente nos humilhar, é mais forte do que nós. E aí escorregamos em todas as cascas de banana que esses atores políticos inescrupulosos e desprovidos de caráter lançam aos montes.
Os recursos para gerar essa mobilização – pela adesão ao que foi dito ou pela raiva – são os mais criativos. Desde cartas aparentemente estapafúrdias, com erros grosseiros de propósito e temas controversos, até vídeos recheados de fake news e números fictícios para desviar do que realmente interessa.
E lá vamos nós manifestar nossa indignação, nossa revolta, e gerar engajamento e adesão. É exatamente isso que os inescrupulosos querem.
Neste momento em que o domínio da extrema direita nas redes e nas ruas foi rompido, é muito relevante olharmos para essas cascas de banana discursivas, aprendermos a identificá-las e a entendermos o que fazer para não mais escorregar. Lakoff (2016) esclarece, em um artigo sobre Trump, que todo pensamento utiliza circuitos neurais; toda ideia é constituída por circuitos neurais.
No entanto, nós não temos acesso consciente a esses circuitos, pois a maior parte do pensamento, cerca de 98%, é inconsciente. E o pensamento inconsciente funciona por meio de certos mecanismos básicos.
“Trump os usa instintivamente para direcionar o cérebro das pessoas para o que ele deseja: autoridade absoluta, dinheiro, poder, fama”, enfatiza Lakoff. Podemos substituir “Trump” por alguns exemplares recentes da política brasileira, que fizeram e fazem da enganação dos cidadãos uma prática cotidiana.
Ao problematizar os discursos e as falas de Trump, Lakoff elenca 10 mecanismos, mas citarei aqui alguns que me parecem bem mais próximos da realidade brasileira: Há ainda outros mecanismos citados por Lakoff, mas esses bastam para nossa discussão, para vermos como eles provocam tanto adesão quanto indignação – e sempre mobilizam.
Aplicando essa lente ao nosso contexto muito recente, da fuga de um candidato derrotado, identificamos alguns pontos: Nesse processo de convencimento, a contranarrativa é fundamental.
E como ela funciona? Com a criação de novas narrativas potentes, novas ideias, com elementos capazes de capturar a atenção e o interesse das pessoas, linguagem propositiva, fatos animadores. Um reframing, como destacou Lakoff (2004), uma nova ideia capaz de substituir aquilo que originalmente e equivocadamente foi dito.
Querem um exemplo bem recente desse uso do reframing? Ocorreu no debate da Band, em outubro, quando o presidente Lula respondeu à provocação do adversário, que falou que os presidiários votavam em Luiz Inácio. O presidente prontamente respondeu “claro, quero todos os votos, até do seu pai.
Bolsonaro, vote em mim”. O reframing neutraliza a ideia original, que é geralmente mentirosa.
A disputa política é também uma disputa narrativa – vimos isso na prática. Por isso é tão essencial entender esses mecanismos e as ações possíveis, para que nunca mais tenhamos nossa atenção e nossa energia criativa capturadas por idiotas.
(*) Jornalista, com pós-doutorado em estudos da desinformação pelo Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência (CLE) da Unicamp, doutora e mestre em Linguística e Língua Portuguesa. É pesquisadora do Observatório das Eleições.
Sua tese de doutorado sobre o Jornal Nacional discute as estratégias de construção da narrativa do telejornal do impeachment de Dilma Rousseff à eleição de Jair Bolsonaro. Organizou e coordenou, com Leonardo Avritzer, o livro “Eleições 2022 e a reconstrução da democracia no Brasil” (Autêntica).
Em 2024, com Avritzer e Marisa Von Büllow, organizou o livro “Democracy Under Attack” (Editora Springer).
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