Clã Bolsonaro: duas fugas, uma mesma recusa à democracia

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Fonte da notícia: Carta Capital Carta Capital

Iniciativa do professor titular aposentado Leonardo Avritzer, da UFMG e do IEPI. Monitora grandes questões e elementos relativos às eleições e aos processos eleitorais.

Contempla destacada produção acadêmica e jornalística desde 2018, tendo tido diversos parceiros no financiamento e na divulgação As partidas de pai e filho expõem a resistência à derrota eleitoral e os limites da liderança familiar sobre seus aliados

Quando Jair Bolsonaro deixou o Brasil, em 30 de dezembro de 2022, ainda ocupava a Presidência da República. Flávio Bolsonaro partiu em 27 de outubro de 2026, dois dias após perder a eleição e ser proibido de deixar o País pelo Supremo Tribunal Federal.

O destino norte-americano aproxima as duas fugas, mas o vínculo entre os dois episódios se manifesta, sobretudo, na tentativa de preservar a liderança política, enquanto se afastam das responsabilidades impostas pela derrota eleitoral e pelos inquéritos em que estavam envolvidos.

Cada um procurou administrar essa contradição a partir de uma posição estratégica de poder distinta. Jair Bolsonaro viajou em avião oficial, amparado pela estrutura do cargo que estava prestes a deixar.

Ausentou-se deliberadamente do ato que simbolizaria a passagem do governo para Lula e a continuidade do Estado. A transmissão da faixa daria forma pública a um limite explícito, imposto pelo fim do poder exercido durante quatro anos, que deveria ser devolvido à vontade dos eleitores e das eleitoras.

Sua ausência nesta passagem recusava esse reconhecimento, embora a partida ainda utilizasse os recursos da Presidência. O Estado oferecia proteção ao governante que se abstinha de cumprir sua obrigação político-institucional de reconhecer seu sucessor.

A dimensão golpista dessa retirada evidenciou-se com maior nitidez à medida que as investigações avançavam. A Polícia Federal concluiu que Jair saíra para evitar uma eventual prisão e aguardar o desfecho dos atos de 8 de janeiro, ao adaptar um plano de fuga concebido em 2021.

A apuração da trama levou à condenação de seu núcleo principal. Embora a viagem não descumprisse uma proibição judicial de saída, a investigação a insere numa estratégia de proteção que visava preservar a expectativa de reverter a derrota por meio de um golpe.

Flávio Bolsonaro não encerrava, no momento de sua fuga, um ciclo de governo federal. Para alguns, cabia-lhe assumir a liderança da oposição, com a força política dos votos que recebera e os limites definidos pela vitória do adversário, em particular quando se consideram os resultados eleitorais para a Câmara dos Deputados e o Senado Federal.

Entretanto, em 26 de outubro, logo após o resultado das eleições, a Polícia Federal o intimou a entregar os passaportes, após decisão do STF que também vedava sua saída, em razão do risco objetivo de fuga manifestado pelo irmão, Eduardo Bolsonaro. No dia seguinte, em uma operação complexa já arquitetada antes do segundo turno das eleições, ele deixou o Brasil de forma sorrateira, atravessou a fronteira com a Argentina e embarcou em um voo privado que fez escala em Guayaquil, no Equador, antes de seguir aos EUA.

O país de acolhimento de mais um integrante da família Bolsonaro e de parceiros políticos também havia passado por mudanças políticas. Jair Bolsonaro chegou aos EUA durante o governo de Joe Biden, que reconheceu de imediato a eleição de Lula.

Flávio Bolsonaro agradeceu publicamente o apoio de Trump e o de Milei no processo de fuga. O destino comum entre pai e filho abrigava condições distintas de proteção e interlocução.

A carta de Flávio Bolsonaro, em suas múltiplas versões, tornou explícita uma pretensão golpista. Apresentou-se primeiro como presidente eleito, depois adotou a expressão “líder do Brasil”.

O candidato procurava transformar a proteção no exterior em condição para comandar diretamente a oposição, alegando perseguição e desqualificando o resultado reconhecido pelo TSE. Representava também uma estratégia relevante no Brasil para manter sob controle da família Bolsonaro o espólio das eleições, bloqueando movimentos de ocupação de espaços por outras lideranças do mesmo espectro político.

Em 2022, Jair se ausentou do ato de transmissão presidencial, enquanto em 2026, o filho tentou constituir uma liderança que dispensasse a aceitação da evidente derrota eleitoral. Os aliados que ficaram no Brasil não acompanharam esse movimento, apesar de o terem apoiado, inclusive justificando sua atitude.

Entretanto, tinham mandatos, negociações e posições institucionais a preservar, o que levou a um certo distanciamento. O PL, partido com o maior número de cadeiras na próxima legislatura do Congresso Nacional, reconheceu por meio de seu presidente, Valdemar de Alcântara, o resultado, enquanto Rogério Marinho, vendo seu sonho de presidir o Senado escorrer pelo ralo, afirmou que não havia provas que sustentassem a acusação de fraude.

A eleição cuja legitimidade Flávio Bolsonaro atacava era também a que havia distribuído grande poder entre seus apoiadores. A fuga expunha essa diferença de interesses: a família procurava preservar a primazia do comando, enquanto seus parceiros precisavam decidir até que ponto subordinariam a própria atuação à recusa do candidato.

Nesta perspectiva, a família Bolsonaro talvez aprenda que não leva consigo automaticamente a obediência das coalizões formadas nas eleições presidenciais de 2022 e 2026. O fato é que as duas saídas do País revelam uma concepção de poder que resiste a separar o dirigente da autoridade que exerce.

O pai se afastou da passagem constitucional de um governo. O filho tentou dirigir a oposição sem se submeter ao resultado e à restrição judicial.

Em comum, inquéritos diversos que demonstram possível desvio de recursos públicos e movimentos golpistas sob diferentes espectros do caleidoscópio contextual em que o país vive. Suas circunstâncias tornam visível a mesma resistência às consequências da derrota e às regras democráticas.

Diante da resposta do povo brasileiro e da repercussão da vitória de Lula como exemplo de resistência à extrema-direita, o bolsonarismo parece voltar ao rés do chão: repete o espetáculo de 2022, mas já não encontra a mesma plateia. *Carmem Leitão é doutora em Ciência Política, professora permanente do Programa de Pós-Graduação em Saúde Pública da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará e vice-presidente da da Associação Brasileira de Saúde Coletiva.

Leonardo Avritzer é professor titular aposentado da UFMG. A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

Observatório das Eleições Iniciativa do professor titular aposentado Leonardo Avritzer, da UFMG e do IEPI. Monitora grandes questões e elementos relativos às eleições e aos processos eleitorais.

Contempla destacada produção acadêmica e jornalística desde 2018, tendo tido diversos parceiros no financiamento e na divulgação Muita gente esqueceu o que escreveu, disse ou defendeu.

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