O primeiro turno da eleição deste ano consolidou 495 municípios do país como pendulares, abertos a mudar de voto a cada quatro anos. Neles, a maioria optou por Jair Bolsonaro em 2018, migrou para Luiz Inácio Lula da Silva na disputa seguinte e agora foi de Flávio Bolsonaro no primeiro turno.
Numa eleição tão apertada, as variações em locais como esses podem ser decisivas. As cidades somam 9,2 milhões de eleitores no total.
Pesquisa Datafolha: Flávio marca 47%, e Lula tem 46%; distância diminui a três dias da eleição O município enquadrado no levantamento com maior eleitorado é Osasco, na Região Metropolitana de São Paulo.
Com 583 mil pessoas aptas a votar, a cidade deu boas votações ao PT no passado, mas o cenário começou a mudar a partir de 2014. Na disputa de 2018, Bolsonaro despontou por lá com ampla margem — mais que o dobro de Fernando Haddad no primeiro turno.
Quando Lula venceu em 2022, a diferença foi pequena, de quatro pontos. Flávio conseguiu, na atual, ser majoritário por diferença ainda menor, com dois a mais que o presidente.
Capilaridade mineira Embora Goiás seja o estado com o maior percentual de seus municípios considerados pendulares por essa ótica, com um em cada cinco, Minas Gerais, notório “estado-espelho” das eleições presidenciais, aparece em segundo com 19% e se destaca pelo montante de cidades com a característica.
São 162. No primeiro turno, aliás, a distância de Flávio para Lula em solo mineiro — cerca de 600 mil votos — acabou sendo decisiva para o resultado nacional.
Entre os municípios pendulares mineiros, há exemplos de diferentes regiões. Os maiores são Betim, na Região Metropolitana, e Montes Claros, no Norte do estado.
Também do entorno metropolitano de Belo Horizonte, aparecem na sequência Ribeirão das Neves e Santa Luzia. Analistas costumam apontar esse cinturão em volta da capital mineira como uma das áreas mais decisivas do país para a eleição presidencial.
Professor da Fundação Dom Cabral e diretor do Instituto Ver, o cientista político Malco Camargos pondera, porém, que as maiores perdas de voto de Lula de uma eleição para a outra no estado se deram em municípios pequenos, aos quais “a comunicação não chegou” no primeiro turno. — O resultado em Minas já vinha apontando a possibilidade de Flávio acabar na frente.
Como o que acontece em Minas acontece no Brasil, recuperar Minas é fundamental para Lula — diz. — Movimentos estão acontecendo, ele gravou vídeos para cada uma das regiões no segundo turno, e os atos presenciais dele têm dado muita gente.
Mais uma vez, Minas é o estado que pode definir a eleição. Desde 2002
O cientista político e jornalista Fábio Vasconcellos, professor da Uerj e da PUC-Rio, fez recentemente um recorte detalhado de cidades pendulares desde 2002, ano da primeira vitória de Lula, com foco nos segundos turnos. Classificou assim os municípios que trocaram de lado mais de duas vezes desde então.
Ele identificou 1.091 cidades no total, quase uma em cada cinco do país. — Essas cidades têm um PIB per capita relativamente maior que a média do Brasil, o que mostra que não são necessariamente pobres.
Têm também, no Ideb, uma média relativamente maior que as demais cidades. E são cidades onde a mediana da faixa etária é acima da média nacional, com contingente de idosos um pouco maior — elenca.
A maior parte dos municípios listados por Vasconcellos, 75%, é de pequeno porte, com até 20 mil habitantes. O principal, no entanto, é saber onde se encontra o estoque mais robusto de votos: 68% estão em 65 dessas cidades, geralmente localizadas em grandes regiões metropolitanas.
— Por isso, quando fazem alguma movimentação, elas atraem uma movimentação de votos muito pesada. Numa eleição apertada, é uma transferência grande — pontua.
Na quarta-feira, na pesquisa Quaest, dobrou o número de eleitores que se dizem indecisos na modalidade espontânea, aquela em que o entrevistado não é apresentado aos candidatos disponíveis. Agora, 14% se dizem em dúvida.
(*Estagiário sob supervisão de Marlen Couto)
O Globo