Ronaldo Caiado (PSD) terminou o primeiro turno em terceiro lugar em Goiás, com 472.041 votos, 12,33% dos válidos no estado que governou por sete anos. Dois dias depois, em 6 de outubro, ele recebeu Flávio Bolsonaro (PL) em Goiânia e declarou apoio ao senador, dizendo que estaria com ele “de corpo inteiro”.
No domingo (25), Flávio venceu em Goiás com 59,66%, mas a aritmética do segundo turno mostra que o eleitorado que estava livre no estado não acompanhou o ex-governador em bloco. Entre um turno e outro, Lula (PT) ganhou 396.471 votos em Goiás.
Flávio ganhou 293.209. Somados, os dois cresceram 689.680 votos, e o petista ficou com 57,5% desse acréscimo, mesmo tendo perdido o estado por quase 760 mil votos.
De onde vieram esses votos? No primeiro turno, 472.041 goianos escolheram Caiado e outros 115 mil votaram em Renan Santos (Missão), Augusto Cury (Avante) e nos demais candidatos. São cerca de 587 mil votos que precisavam encontrar um destino no segundo turno.
Além disso, o estado registrou cerca de 102 mil votos válidos a mais do que em 4 de outubro, por conta da queda de abstenção e de brancos e nulos. Os números não permitem dizer exatamente qual eleitor migrou para onde, mas o saldo final é claro: a cada dez votos que entraram na conta dos dois candidatos no estado, quase seis foram para Lula.
O Portal 6 refez a conta nas cinco cidades mais populosas de Goiás, comparando a votação de Caiado no primeiro turno com os votos novos de cada candidato no segundo. Em quatro delas, Lula captou mais votos novos do que Flávio.
Fonte: TSE. “Votos novos” é a diferença entre a votação do candidato no 2º e no 1º turno.
Total do estado no 1º turno soma capital e interior. Goiânia, onde Caiado teve seu maior volume de votos no estado, 106.965 (13,52%), é a cidade em que a divisão foi mais equilibrada.
Lula ganhou 77.538 votos novos; Flávio, 71.673. Somados, os dois cresceram 149.211 votos, mais do que Caiado, Renan Santos e Augusto Cury tinham juntos na capital no primeiro turno (133.094).
Ou seja, além de dividir o eleitorado do ex-governador, os dois também buscaram votos entre quem não compareceu ou anulou em 4 de outubro. Em Aparecida de Goiânia, Caiado teve 37.105 votos (14,37%).
Lula ficou com 57,1% dos votos novos na cidade: 31.263 contra 23.459 de Flávio. Em Luziânia, onde o ex-governador teve seu melhor percentual entre as cinco cidades (14,91%, 15.300 votos), o petista levou 59,1% do acréscimo, com 12.945 votos a mais contra 8.961.
Anápolis é a exceção. Caiado teve 24.777 votos na cidade (11,50%), e foi Flávio quem recebeu mais votos novos, por uma diferença pequena: 19.434 contra 18.635 de Lula.
Mesmo ali, com 70,28% para o senador, o petista ficou com 49% do que entrou na conta dos dois. Rio Verde mostra que a explicação não passa só por Caiado.
No sudoeste goiano, reduto do agronegócio, o ex-governador teve apenas 6.222 votos (5,32%), o pior desempenho entre as cinco cidades. Ainda assim, Lula ficou com 64,6% dos votos novos no município, 9.919 contra 5.424 de Flávio.
Como o eleitorado de Caiado era pequeno ali, boa parte desse crescimento veio de quem votou em outros candidatos ou de quem não votou no primeiro turno. O apoio de Caiado não impediu que Flávio perdesse 3,65 pontos percentuais em Goiás entre os dois turnos, de 63,31% para 59,66% na comparação direta com Lula.
O senador manteve o estado com folga e ganhou quase 300 mil votos, mas o ex-governador, que construiu a candidatura presidencial em torno da rejeição ao PT, viu parte do próprio eleitorado escolher Lula na hora de decidir entre os dois. O desempenho reforça o perfil do voto em Caiado no primeiro turno: um eleitor goiano que preferia o ex-governador tanto a Flávio quanto a Lula, e que, sem essa opção, se dividiu.
O resultado nacional foi decidido pela virada de Lula em outros estados, mas em Goiás a conta mostra que o principal cabo eleitoral de Flávio no estado entregou menos votos do que o tamanho da sua votação sugeria.
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