Lula quer novo pacto com Centrão para governar com partidos na Esplanada

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

Após uma vitória histórica de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), reeleito no domingo para um quarto mandato, o governo terá que alterar sua relação com o Congresso para negociar as condições de governabilidade. Apesar do forte recado das urnas, o Centrão continuará a dar as cartas no Legislativo, em um cenário de fortalecimento da direita e da centro-direita.

Aliados do petista reconhecem que a correlação de forças no Parlamento exigirá essa aproximação com os partidos do Centrão, mas defendem uma mudança na postura dessas siglas, que têm espaço na Esplanada, mas não votam no Congresso necessariamente seguindo orientações do Palácio do Planalto.

Eles defendem que os partidos assumam maior compromisso com as pautas do governo. O ministro José Guimarães (Secretaria de Relações Institucionais), responsável pela articulação do governo com o Congresso, afirma que será preciso sentar e “estabelecer o limite de quem é ou não é governo”.

— No Congresso, temos que sentar, estabelecer o limite de quem é ou não é governo. Se os partidos do Centrão vão para o governo, precisam ser leais e fiéis, jamais continuar do jeito que está.

Os partidos da coalizão governista que forem para o governo precisam ser 100% governo, não essa relação tênue de ser governo e não ser. Ou é ou não é — disse Guimarães.

O próprio Lula falou da relação com o Congresso no primeiro discurso após ser reeleito, falando das dificuldades que ele deverá entrar com uma base da esquerda como minoria. — Já tem gente falando “o Lula vai ter muita dificuldade para governar porque o Congresso está mais conservador”.

Eu não escolhi o Congresso. Foi o povo que escolheu.

E é com ele que eu vou votar, vou trabalhar e vou aprovar as coisas— disse o presidente. A avaliação de aliados do presidente é que ele buscará manter ativa a base social que ocupou as ruas no segundo turno, sendo apontado como fator importante para a vitória do petista.

Lula citou em live na semana passada que será preciso pensar num novo jeito de governar o país para incluir maior participação social na sua gestão. Neste terceiro mandato, Lula distribuiu partidos para União Brasil, PP e Republicanos, além do PSD e do MDB.

Todos eles, no entanto, se declaravam independentes, sem votar alinhado com o governo federal. No segundo turno, MDB e PSD liberaram seus diretórios para apoiar Lula ou Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que foi derrotado.

As outras três siglas apoiaram o senador. Segundo relatos de um governista que acompanhou as conversas com os partidos, o presidente de uma dessas siglas chegou a dizer a interlocutores do governo que “a eleição já estava resolvida” e que por isso apoiaria o adversário de Lula.

O Palácio do Planalto ficou incomodado com a rapidez com que as legendas endossaram a candidatura adversária no segundo turno, e alguns indicados de políticos desses partidos foram exonerados de cargos da máquina federal, entre eles um aliado do ex-presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL).

A expectativa no entorno de Lula é que os presidentes da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), que buscam a recondução no comando do Congresso a partir de fevereiro, tenham influência na escolha de aliados para integrar a Esplanada de Lula. As duas autoridades apoiaram o presidente, ajudaram a destravar propostas do pacote eleitoral elaborado pelo Planalto e foram rápidos em reconhecer a vitória de Lula no domingo após o resultado.

Interlocutores do presidente dizem apostar na boa relação com os dois congressistas para conseguir montar uma base para aprovar propostas de interesse. Também deverão ser privilegiados políticos de partidos do centro que, diferentemente de suas legendas, apoiaram Lula na segunda rodada.

No próximo ano, a maior bancada continuará a ser do PL, mas agora ocupando 121 cadeiras, ou 24 a mais do que agora. Enquanto isso, o PT teve um leve crescimento de 68 para 70 deputados.

Para a esquerda, o caminho é tentar isolar o bolsonarismo com a retomada da relação com o Centrão. A federação União Brasil-PP, que tinha a expectativa de ser o maior grupo, saiu de 105 para 87.

Enquanto isso, PSD e Republicanos mantiveram o patamar de bancadas de 40 deputados na Câmara. Já o MBD, passou de 41 para 36 cadeiras.

Esse bloco garante força para a negociação de espaços no governo e de pautas consideradas importantes para o novo presidente. Esse cenário se mantém mesmo com o fortalecimento do bolsonarismo no Legislativo.

No Senado, União-PP e Republicanos alcançaram bancadas similares às que já tinham. O primeiro passo para buscar essa governabilidade, dizem aliados de Lula, será garantir a recondução de Motta e Alcolumbre no comando do Congresso.

As eleições ocorrem em fevereiro, em votação secreta. Líderes tratam a permanência de Alcolumbre como "mais difícil" do que a de Motta.

As cúpulas do União Brasil e do Republicanos levaram a Flávio o desejo da permanência dos atuais chefes do Congresso como contrapartida por apoiar o então candidato no segundo turno. Mas agora a negociação será com Lula.

Motta, que preside uma Casa onde a correlação de forças é mais pulverizada, tem conseguido adiantar acordos para se preparar para a pressão do PL de Flávio de fazer o próximo presidente da Câmara. O presidente da Casa já tem um aceno para manter o apoio do PP, União Brasil, Republicanos, PSD, MDB, PSDB, Cidadania, Podemos, Solidariedade, PRD e Avante.

Na quarta-feira da semana passada, também recebeu apoio de PDT e PSB. Nos bastidores, parlamentares do PT reconhecem que o partido também deverá defender a recondução do presidente da Casa em anúncio nesta semana.

Motta também conta com a expectativa de apoio de siglas da esquerda que estiveram na coligação de Lula. A ideia é tentar mostrar que a possibilidade de vitória do deputado é um fato consumado e isolar o PL, que é a maior bancada individualmente, mas que não teria forças para concorrer com o conjunto dos outros partidos.

A preocupação de Motta é não dividir o seu grupo de apoio dentro do Centrão e manter essa unidade até o dia da eleição para presidência da Câmara. Para isso, ele buscou neutralizar um movimento de candidatura própria do PSD e obteve o apoio do líder da sigla, Antonio Brito, que era apontado como um possível candidato a comandar a Casa.

O presidente do Senado, por sua vez, enfrenta uma situação mais adversa. Ele vai precisar domar uma bancada do PL com 28 senadores, mais de um terço da Casa.

Diversos senadores eleitos de direita, como Guilherme Derrite (PP-SP), André do Prado (PL-SP), Marcel Van Hattem (Novo-RS), Deltan Dallagnol (Novo-PR) e Evair de Melo (Republicanos-ES) descartam qualquer acordo para apoiá-lo. Diferente de Motta, o presidente do Senado ainda não avançou na conversa com os partidos para se manterem na sua base, mas há uma expectativa de que ele use a força institucional que um presidente do Senado tem para ter competitividade na disputa.

Ele tem usado a prerrogativa de distribuir apartamentos funcionais, gabinetes do senado e outros direitos dos senadores para se aproximar dos novos congressistas eleitos. Do lado do bolsonarismo, o senador Rogério Marinho (PL-RN) é o nome que hoje tem mais força para disputar o Senado, mas a senadora Tereza Cristina (PP-MS) também tem se apresentado como pré-candidata à vaga.

Com a reeleição de Lula, Motta, tem, de acordo com líderes partidários, uma campanha tranquila para se manter no comando da Casa. Motta fez campanha para o petista durante as eleições e o diretório do seu estado, a Paraíba, foi liberado para não seguir a recomendação nacional do Republicanos de apoiar Flávio.

Por outro lado, mesmo com a vitória do petista nas urnas, o cenário da sucessão no Senado é considerado adverso para Alcolumbre. Há um temor que o PL e outros senadores de oposição consigam alcançar maioria para eleger um presidente do Senado aliado de Flávio.

Ainda assim, dirigentes do União Brasil veem Alcolumbre com força para tentar a reeleição e que, a aproximação com o governo na aprovação da PEC do fim da 6 por 1, na MP do fim da taxa de blusinhas, e outras demandas que o Senado atendeu o Executivo durante as eleições, fortalecerão o presidente da Casa junto a gestão petista.

Além do cargo de presidente do Senado que ocupa, Alcolumbre deve usar a máquina do governo federal para tentar atrair senadores.

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
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