A reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) representa uma ruptura com duas ondas que têm marcado a política sul-americana. Uma delas, presente sobretudo desde a pandemia, é a tendência de vitórias de candidatos de oposição, na esteira da chamada “maldição do incumbente”.
A outra é o triunfo eleitoral de uma direita mais radical em todas as maiores economias do continente. Ao superá-las, o petista mantém o Brasil pintado de vermelho no mapa, embora cercado por uma ampla faixa azul.
Eleições: TSE rebate Flávio e diz que é 'falsa' informação de que fiscais do PL foram expulsos de sala-cofre De 19 eleições pós-pandemia compiladas por Bruno Imaizumi, economista da 4intelligence, só cinco tiveram vitórias de candidatos de continuidade.
Além da de ontem, duas delas aconteceram no Equador, uma no Paraguai e outra na Guiana. O próprio Lula integra a lista de opositores bem-sucedidos, já que em 2022 fez Jair Bolsonaro ser o primeiro presidente da Nova República a não conseguir se reeleger.
Poder de compra Analistas têm apontado diferentes causas para o fenômeno, e uma delas é econômica.
O período pandêmico desencadeou uma inflação elevada, que fez os preços subirem para um patamar que até hoje é sentido, mesmo com o indicador sob controle. É o que levou Flávio Bolsonaro (PL), apesar de a inflação ter sido uma marca do governo do pai, a usar isso contra Lula, que teve a taxa dentro da meta.
No segundo turno, contudo, o presidente conseguiu ampliar a rejeição ao adversário e fazer o medo da volta do bolsonarismo falar mais alto. — Temos hoje uma taxa de inflação menor do que tínhamos antes, mas a taxa em si não conta o que está acontecendo.
O nível de preços ainda é alto. Ou seja, não é que os preços estão caindo, e sim subindo mais devagar.
Ainda não retornamos ao patamar do poder de compra pré-pandemia — afirma Imaizumi. Nas últimas semanas, o GLOBO publicou a série “Brasil visto de fora”, que reuniu seis entrevistas com estrategistas internacionais.
A maioria avaliou que o continente vive muito mais uma onda antissistema do que de direita, o que também é alimentado pela lógica acelerada das redes sociais, um motor da indignação. É fato, no entanto, que a direita tem conseguido incorporar melhor a ideia.
Professor da Florida International University e coordenador do Observatório da Extrema Direita, o cientista político Guilherme Casarões recorda que o continente viveu no início do século a “onda rosa”, em que houve a confluência de governos de esquerda na região. Quando veio a crise de 2008, a América do Sul segurou as pontas por um tempo, mas os efeitos chegaram com força por volta de 2015.
Hoje, diz Casarões, aquele modelo de prosperidade social que foi a marca das gestões progressistas é menos factível, o que dificulta presidentes de ambos os lados. — Os de esquerda porque não vão conseguir mais entregar como entregavam, e os de direita, que chegam muitas vezes propondo corte de gastos e política de austeridade, porque têm muita dificuldade de entregar alguma coisa que de fato melhore a vida das pessoas — aponta.
— É um perde-perde desde 2015 e foi intensificado pela pandemia, que agravou problemas estruturais que estavam dados. Ser presidente de um país latino-americano atualmente, observa Casarões, virou um desafio enorme, dado que o fenômeno da maldição do incumbente, embora seja global, tem mostrado especial força por aqui.
— O interessante desse fenômeno é que essas trocas e instabilidades acontecem independentemente dos resultados econômicos numéricos — pontua. — O mesmo vale para o tema da segurança.
Muitas vezes é algo que já está agravado nos países por fenômenos que têm pouco ou nada a ver com quem está chegando ao governo, mas a incapacidade de entregar soluções, seja para a questão econômica ou de segurança, torna ser presidente de um país latino-americano o pior emprego do mundo hoje.
No momento, junto com o Brasil, apenas as três nações sul-americanas menos populosas estão nas mãos da esquerda — Suriname, Guiana e Uruguai. Quando Lula assumiu este mandato, em 2023, o mapa era diferente.
Gustavo Petro havia acabado de ser o primeiro esquerdista eleito na História colombiana, o peronista Alberto Fernández ainda comandava a Argentina e Gabriel Boric estava à frente do Chile. Na Bolívia, Luis Arce mantinha o campo progressista no poder.
Além da mera divisão entre os campos, a tendência tem sido de vitórias de direitistas radicais. A família Bolsonaro é o exemplo no Brasil.
O argentino Javier Milei, o colombiano Abelardo de la Espriella e o chileno José Antonio Kast estão mais à direita do que outros presidentes que seus países elegeram nas últimas décadas. No Peru, quem se saiu vitoriosa foi Keiko Fujimori, filha do ex-ditador Alberto Fujimori, que deu um autogolpe na década de 1990.
Eleitores impacientes A despeito do desejo de mudança que vem se manifestando nas urnas, o eleitorado sul-americano não tem sido paciente com seus presidentes, o que corrobora o movimento “anti-incumbência”.
No Chile, Kast, em sete meses de governo, vê a desaprovação superar os 60%. Milei também enfrentou recentemente uma queda para o menor patamar de aprovação desde o início da gestão, em 2024.
Espriella, na Colômbia, que assumiu em agosto, já encara em algumas pesquisas um cenário meio a meio, com a sociedade dividida sobre o governo. No Peru, pior ainda: Keiko Fujimori está com o indicador negativo bem acima do positivo, apesar de ter tomado posse há meros três meses.
Essas novas direitas sul-americanas demonstram não só simpatia pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, como uma forte integração entre si. Milei participou do lançamento da candidatura de Flávio, o que chegou a causar, por causa dos ataques do argentino a Lula, uma crise diplomática entre os países — a Argentina é o terceiro maior parceiro comercial do país, atrás apenas de China e EUA.
Ao longo do segundo turno, o petista passou inclusive a usar a Argentina de Milei como exemplo negativo do que Flávio faria no Brasil com o “tesouraço” nas contas públicas se fosse eleito.
O Globo