Em pouco mais de uma década, o ESG (boas práticas ambientais, sociais e de governança) saiu do vocabulário de gestores de fundos e práticas corporativas e entrou de vez na academia. Atualmente, é uma temática consistente em linhas de pesquisa, disciplinas, palestras e, cada vez mais, vem estreitando sua interface com o conceito de sustentabilidade, ajudando a compreender os temas ESG que se consolidaram e os que estão se projetando no futuro.
Um estudo publicado em 2025 (Uma Análise de Tendência de Pesquisa sobre Desempenho Ambiental, Social e de Governança (ESG): uma Análise Bibliométrica), na revista “Social Sciences & Humanities Open”, da Elsevier, importante editora holandesa de conteúdo científico, ajuda a entender esse movimento.
Os pesquisadores Ummu Salma Al Azizah e Razali Haron, respectivamente da Universidade Muhammadiyah (Indonésia) e Universidade Islâmica Internacional (Malásia), referências pouco usuais no Ocidente, mapearam a produção científica de 225 documentos de 112 periódicos acadêmicos na base de dados Scopus, sobre o desempenho ESG, entre 2013 e 2023.¹
A análise bibliométrica que realizaram emerge como um campo em expansão, com temas que estão consolidados e em ascensão no ESG, ao examinar um conjunto de publicações ao longo de uma década, identificando quais assuntos crescem e quais perdem força. Certamente, são relevantes para abordar os desafios na evolução do ESG, seja em relação ao papel das metodologias de estudo ou das estruturas de tomada de decisão organizacional.
A pesquisa aponta como temas consolidados, “abordagem de governança”, “desenvolvimento sustentável” e “investimento responsável”, indicando áreas de pesquisa bem estabelecidas na última década. Esses temas estão alinhados às prioridades globais importantes e podem ser somados à materialidade dupla, diversidade e inclusão, segurança de dados, direitos humanos, trabalho digno, descarbonização das cadeias de valor, neutralidade climática, economia circular etc.
O estudo também identifica temas emergentes, de menor frequência, que apontam para novas direções do ESG. Por exemplo, impacto ambiental, processos de tomada de decisão e análise qualitativa.
Já é possível apontar nessa linha para o crescente interesse voltado aos temas emergentes da equidade algorítmica, resiliência climática, due diligence socioambiental, créditos de biodiversidade, métricas de impacto, entre outros. A diferença entre temas consolidados e emergentes é mensurada pela análise temporal.
Ao analisar quantos temas ligados ao ESG surgiram e seu subsequente crescimento ou declínio, o estudo identifica tendências que refletem a maturidade e o desgaste dos mesmos. Enquanto temas como governança e sustentabilidade são consistentes ao longo do tempo, temas mais recentes, voltados às métricas ambientais e desdobramentos das questões energéticas e geopolíticas somente ganharam força mais recentemente.
Outra análise bibliométrica, mais abrangente, “Audit in ESG Research: a Bibliometric Analysis”, também traz dados sobre temário e desafios². Foi elaborada por uma rede de coautores composta por equipes de pesquisadores de diferentes universidades, incluindo China, Índia, Malásia, Inglaterra, Austrália, Itália, Egito e Estados Unidos, que utilizou como universo 369 documentos em inglês relacionados ao ESG da Web of Science Core Collection, PubMed e Scopus, no período entre 2015 e 2025, e utilizou a ferramenta de visualização científica CiteSpace.
De acordo com o estudo, o volume de artigos sobre o ESG cresceu por volta de 2020, provavelmente, pela aceleração global do desenvolvimento sustentável e regulamentações ESG. Os temas mais recorrentes não surpreenderam, ficaram centrados em sustentabilidade, responsabilidade social corporativa e gestão ambiental.
E, nas conclusões do estudo, os pesquisadores destacaram os desafios da governança das informações ESG, pelo fato de serem multidimensionais e multicamadas. No Brasil, a academia também tem desenvolvido análises bibliométricas sobre o ESG, embora em número reduzido.
Uma delas, da Universidade Federal de Juiz de Fora, utilizou a base da Scopus e a BDTD (Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações), detectando como temas principais governança, desenvolvimento sustentável e sustentabilidade. O estudo de 2023 observa: “No contexto brasileiro, há potencial para expansão das pesquisas em nível global, contribuindo para a discussão internacional sobre ESG.
O Brasil se destaca entre os países emergentes da América Latina, demonstrando uma presença relevante nas pesquisas relacionadas ao tema. No entanto, quando observado o ESG atrelado ao desempenho, o Brasil apresenta uma proporção menor de estudos, indicando uma área potencial para aprofundamento”.³
Na prática, o ESG costuma ser multidisciplinar: as áreas de estudo contribuem lado a lado, mas nem sempre conseguem se integrar, seja do Direito, Economia e Finanças, Contabilidade, Administração, Ciências Ambientais, Ciências Sociais, Comunicação ou Tecnologia de Dados. Essa realidade gera obstáculos de ordem epistemológica, organizacional e institucional.
Sem um vocabulário comum, as pessoas podem conversar sem se entender, e isso pode ocorrer com os temas do ESG, sejam consolidados ou emergentes em decorrência da dimensão de seus três pilares (ambiental, social e de governança). É fato que o conhecimento ultrapassa as disciplinas e incorpora saberes não acadêmicos.
O filósofo e sociólogo francês, Edgar Morin, foi um dos críticos mais consistentes da fragmentação do conhecimento e aprofundou essa visão em seu paradigma da complexidade. Para ele, o saber compartimentado é incapaz de apreender problemas multidimensionais, nos quais as partes só podem ser compreendidas em relação ao todo.
Os desafios socioambientais contemporâneos são exemplos típicos desse tipo de problema, uma vez que tudo está interconectado. De acordo com Morin, “a sociedade é mais do que um contexto; é um todo organizador do qual fazemos parte.
O planeta Terra é mais do que um contexto; é um todo, ao mesmo tempo organizador e desorganizador, do qual fazemos parte. O todo possui qualidades ou propriedades que não estariam presentes nas partes se estas fossem isoladas umas das outras, e certas qualidades ou propriedades das partes podem ser inibidas por restrições exercidas pelo todo”.4
A perspectiva de Morin alia-se ao ESG, uma vez que problemas complexos pedem um pensamento capaz de religar saberes. O ESG é um dos terrenos em que essa exigência se torna mais concreta.
E, quando a academia assume o papel de produzir evidências confiáveis, ela ajuda a separar o compromisso real do discurso — e talvez este seja um de seus impactos mais relevantes e positivos sobre o ESG. [1] Disponível em:
[2] Disponível em: [3] Disponível em:
[4] MORIN, Edgar. Seven complex lessons in education for the future.
Paris: UNESCO, 1999. Disponível em:
Portal Jota