A eleição de 2026 colocou os partidos tradicionais diante de um problema que a reforma eleitoral em discussão talvez não alcance. Levantamento publicado pelo jornal O Estado de S.
Paulo em 22 de outubro, a partir de um ranking da Zeeng que mede o engajamento médio por publicação no Instagram, mostra que, dos políticos mais influentes na plataforma que disputaram o pleito, 64 foram eleitos e dois seguem para o segundo turno, contra 17 que ficaram sem cargo, um índice próximo de 80%, com mais de 87 milhões de votos, o equivalente a 16% dos votos para o Legislativo.
O critério de engajamento é um recorte, e o número não autoriza concluir que a presença nas redes tenha sido, por si só, a causa do resultado, mas ele basta para explicar por que lideranças do centrão passaram a discutir mudanças no sistema de eleição dos deputados, com o voto distrital misto entre as alternativas, e por que uma das preocupações declaradas é reduzir o efeito dos puxadores de votos, aqueles candidatos de votação extraordinária que arrastam para a Câmara outros nomes de seus partidos e federações.
Conheça o JOTA PRO Poder, plataforma de monitoramento que oferece transparência e previsibilidade para empresas O diagnóstico aponta para um fenômeno real, mas a solução mira a etapa errada do processo.
O sistema eleitoral define como os votos se convertem em cadeiras, ao passo que os algoritmos das plataformas atuam numa fase anterior, a da distribuição da informação e da formação das preferências, de modo que alterar a primeira dimensão não significa controlar a segunda, e a ascensão dos políticos influenciadores não revela apenas uma mudança no perfil dos eleitos, mas uma transformação na maneira como a sociedade forma suas opiniões e escolhe quem a representa.
A organização eleitoral brasileira sempre dependeu de estruturas territoriais, com prefeitos, vereadores e lideranças comunitárias funcionando como intermediários entre o candidato e o eleitor. As plataformas alteraram essa relação ao permitir que o conteúdo chegue às pessoas a partir de seus interesses e comportamentos, sem perguntar onde elas votam, e a segmentação publicitária também admite direcionamento geográfico, nos limites das ferramentas disponíveis e das restrições legais.
O algoritmo, portanto, não elimina o território, e pode até tornar a comunicação territorial mais precisa. É nesse ponto que a reforma corre o risco de produzir o contrário do que pretende.
Num sistema distrital, um candidato com grande audiência digital poderia concentrar sua mobilização numa circunscrição específica, combinando o reconhecimento que já tem com uma comunicação segmentada para aquele território, e embora a vitória dependa sempre da competição concreta, a existência de distritos em nada impediria que influenciadores continuassem a conquistar eleitores por meio das plataformas.
Há ainda uma inversão na lógica tradicional de construção do poder, porque o candidato antes precisava conquistar lideranças locais para chegar ao eleitor, e agora pode chegar diretamente ao eleitor e, a partir dessa audiência, montar sua própria rede de lideranças. Essa política tampouco começa com a campanha, já que a presença permanente nas redes permite acumular reconhecimento durante anos, de maneira que, quando a disputa se abre, parte do capital político já está constituída e a fórmula eleitoral, que só opera na última etapa, não toca em nenhuma das anteriores.
A dificuldade de lidar com esse fenômeno ficou evidente em estudo divulgado pelo Instituto Democracia em Xeque em 21 de outubro, que acompanhou publicações de candidatos e de outros perfis em cinco plataformas entre fevereiro e outubro de 2026, com grupos de controle. Durante a campanha, as visualizações de candidatos no TikTok tiveram redução relativa estimada em 95%, enquanto no Instagram a estimativa principal apontou aumento de 8%, resultado que varia conforme o período de referência.
A pesquisa não permite afirmar que o Instagram tenha favorecido candidatos ou descumprido a legislação, mas demonstra o quanto é difícil avaliar a efetividade das regras eleitorais sobre sistemas de recomendação operados por empresas privadas. O Tribunal Superior Eleitoral já restringe a recomendação algorítmica de perfis de candidatos registrados, e a questão não é apenas criar novas regras, mas verificar se as existentes estão sendo aplicadas.
Uma reforma consistente teria de enfrentar quatro problemas. O primeiro é a falta de transparência sobre os mecanismos de distribuição de conteúdo político, que exigiria das plataformas informações auditáveis, com proteção dos dados pessoais, capazes de revelar assimetrias indevidas de visibilidade.
O segundo é o microdirecionamento baseado em dados sensíveis ou em perfis comportamentais, porque a comunicação eleitoral deve poder alcançar públicos determinados, mas o uso de informações individuais para explorar vulnerabilidades políticas merece limites claros. O terceiro é a opacidade do financiamento e da amplificação, o que pede publicidade política rastreável e fiscalização das redes artificiais de engajamento, sem confundir atuação fraudulenta com mobilização espontânea.
O quarto é o desenho da representação, em que o distrital misto compensatório pode ser discutido como forma de aproximar representantes e eleitores, desde que preserve a proporcionalidade global e não seja apresentado como instrumento capaz de neutralizar a influência digital. Há, nesse último ponto, uma dificuldade constitucional que o debate tem tratado como detalhe.
O artigo 45 da Constituição determina que os deputados federais sejam eleitos pelo sistema proporcional, e a adoção de distritos majoritários, isolada ou dentro de um modelo misto, exige emenda aprovada por três quintos de cada Casa, em dois turnos, enquanto a anterioridade eleitoral impede que a mudança se aplique a eleições realizadas dentro de um ano de sua vigência.
Uma reforma que precisa de maioria qualificada para enfrentar um problema que ela não enfrenta merece mais ceticismo do que vem recebendo. Existe ainda uma alternativa que a reforma eleitoral praticamente ignora, a desalgoritmização.
Não se trata de eliminar algoritmos ou de restringir a expressão política, mas de reduzir a imposição de critérios opacos de recomendação e devolver ao cidadão o controle sobre a maneira como recebe informação, oferecendo-lhe, ao lado do feed que a plataforma monta a partir do seu comportamento, a possibilidade de acompanhar contas e temas de sua escolha, em ordem cronológica, sem perfilamento.
A ideia não é teórica, porque o artigo 38 do Digital Services Act já obriga as grandes plataformas europeias a oferecer ao menos uma opção de recomendação que não se baseie em perfilamento, e no Brasil o próprio TSE informou, em setembro, que o X passou a excluir das recomendações a não seguidores os perfis oficiais de candidatos.
A diferença é que a experiência brasileira é restritiva e limitada à campanha, enquanto a europeia é permanente e orientada à autonomia do usuário, e é dessa segunda que o debate precisa se aproximar, com a ressalva de que ninguém demonstrou que um feed sem perfilamento reduza, por si só, a votação dos políticos influenciadores, o que tampouco é o objetivo, já que o que se busca é autonomia informacional e competição transparente.
A Austrália já discute um modelo intitulado My Feed My Way justamente para dar liberdade de escolha sobre como receber as informações. Muitos feeds enviesados eliminam o contraditório tão essencial à democracia.
Sem isso resta apenas embate público e jamais debate. Se os partidos pretendem mudar as regras pelas quais os votos se transformam em cadeiras, também é preciso discutir as regras pelas quais as plataformas transformam atenção em influência política.
Duas abordagens merecem atenção: a desalgoritmização eleitoral restritiva para limitar determinadas recomendações durante a campanha e a desalgoritmização orientada à autonomia que oferece permanentemente ao cidadão o direito de escolher sistemas de distribuição que não dependam de seu perfil comportamental e infiram o que ele pensa politicamente.
A primeira interfere em uma modalidade específica de circulação de conteúdo. A segunda modifica a relação de poder entre plataforma e usuário.
A resposta democrática não deve ser restringir a capacidade legítima dos candidatos de convencer eleitores, e sim assegurar que as plataformas não se tornem árbitras invisíveis da competição política. O centrão pode alterar a maneira como os votos se transformam em cadeiras, mas não conseguirá, apenas com isso, recuperar o controle sobre a formação da opinião pública, porque a política algorítmica não nasceu do sistema proporcional e não desaparecerá com a sua substituição.
O distrital muda quem ocupa a cadeira, e a desalgoritmização muda as condições em que a informação circula até o eleitor, e são instrumentos distintos que podem conviver numa reforma mais ampla, desde que ninguém confunda um com o outro, porque o distrital pode acabar com o puxador de votos sem acabar com o puxador de eleitores.
Portal Jota