Qual o futuro da direita? Novo revés da família Bolsonaro diante de Lula põe em dúvida o protagonismo do clã

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

A segunda derrota eleitoral consecutiva do bolsonarismo para a esquerda no domingo deve reabrir a discussão sobre o futuro da direita brasileira e a capacidade da família Bolsonaro de manter o protagonismo político até 2030. Escolhido pelo pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, para representar o campo na disputa, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) surpreendeu as expectativas iniciais de aliados e adversários ao se mostrar competitivo e terminar o primeiro turno da disputa à frente.

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O resultado final das urnas, entretanto, representa um revés para a estratégia do ex-presidente, principal líder da direita no país, mesmo preso há mais de um ano após condenação por tentativa de golpe de Estado. Inelegível, Bolsonaro apostou na candidatura do primogênito para preservar a influência da família sobre a direita, reprimindo outros cotados para exercer essa liderança, como o governador reeleito de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos).

A decisão contrariou parte dos aliados, que defendiam alguém com maior capacidade de atrair eleitores fora do bolsonarismo. A candidatura de Flávio enfrentou resistências desde o início.

Ex-governadores como Romeu Zema (Novo) e Ronaldo Caiado (PSD) mantiveram suas pretensões presidenciais, e partidos do Centrão evitaram aderir imediatamente ao senador. O cenário começou a mudar com o avanço de Flávio nas pesquisas e, sobretudo, depois do primeiro turno, quando o candidato do PL conseguiu reunir apoios de antigos adversários para enfrentar Lula.

A formação dessa aliança demonstrou que a família Bolsonaro ainda conserva capacidade de mobilização e influência sobre o campo conservador. Ao mesmo tempo, a derrota recoloca uma questão que havia sido temporariamente deixada de lado durante a campanha: quem deverá liderar a direita na próxima eleição presidencial, quando Lula não poderá disputar um novo mandato?

Mesmo depois de deixar o Senado, Flávio deverá se manter como um dos principais nomes do grupo, pelo seu desempenho na campanha, avaliam pessoas próximas ao candidato derrotado. O desafio, de acordo com esses interlocutores, será preservar a articulação construída ao longo da disputa sem ocupar um cargo eletivo e diante de aliados que também têm ambições presidenciais.

Clã no poder Eleito deputado estadual pela primeira vez em 2002, Flávio cumpriu quatro mandatos consecutivos na Assembleia Legislativa do Rio antes de chegar ao Senado, em 2019.

Com o fim do mandato, em fevereiro, ficará sem cargo eletivo pela primeira vez em 24 anos. A família, entretanto, manterá representantes no Congresso, com Jair Renan (PL-SC), que assumirá uma cadeira na Câmara, os senadores eleitos Carlos Bolsonaro (PL-SC), irmão de Flávio, e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL-DF), que também é vista como um nome forte para assumir a liderança do bolsonarismo a partir dos próximos anos.

Michelle chega ao Senado com oito anos de mandato pela frente, capital eleitoral próprio e uma rede de aliados construída durante a campanha. Sua atuação na eleição presidencial reforçou a autonomia em relação ao núcleo político de Flávio — assim como as críticas públicas que fez ao enteado ainda no início da corrida eleitoral.

Fora da família, Tarcísio surge como uma das principais alternativas para liderar a direita. Reeleito no primeiro turno, o governador de São Paulo apoiou Flávio e participou da mobilização de eleitores na reta final.

Mas preservou sua própria base política e o comando do maior colégio eleitoral do país. A relação com Jair Bolsonaro foi decisiva para a trajetória de Tarcísio, que ganhou projeção nacional como ministro da Infraestrutura do governo anterior.

Desde que chegou ao Palácio dos Bandeirantes, porém, o governador ampliou a interlocução com empresarios e partidos de centro, construindo uma identidade política que não depende exclusivamente da família do ex-presidente. Esse perfil poderá ganhar importância nas discussões sobre 2030.

Parte da direita defende a manutenção de uma candidatura diretamente vinculada ao bolsonarismo, mas outros setores avaliam que o campo conservador precisará ampliar sua capacidade de diálogo com eleitores que rejeitam Lula mas também resistem à família Bolsonaro. Tarcísio terá a vantagem de permanecer à frente do governo paulista durante quatro anos, com uma estrutura que lhe permitirá participar das articulações nacionais.

Sua eventual candidatura, no entanto, dependerá também da relação que estabelecerá com Jair Bolsonaro e seus aliados. Nova geração

Outro nome que ganhou projeção foi o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG). Reeleito com a maior votação do país, Nikolas ampliou sua influência ao apoiar candidaturas fora de Minas Gerais e participar da mobilização nacional por Flávio.

Nikolas representa uma geração de políticos que construiu sua base principalmente nas redes sociais e mantém forte identificação com o bolsonarismo. Sua atuação durante a campanha reforçou sua capacidade de mobilização, mas também evidenciou que parte das novas lideranças conservadoras já dispõe de influência política própria, embora continuem vinculada à imagem do ex-presidente.

A idade, entretanto, impede que Nikolas dispute a Presidência em 2030, quando ainda não terá completado os 35 anos exigidos pela Constituição. Isso não o exclui das articulações nacionais: o deputado poderá exercer influência na escolha do candidato da direita, ampliar seu grupo político no Congresso ou buscar outros cargos.

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
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