Em suas memórias, o ex-secretário de Estado Henry Kissinger, dos Estados Unidos, conta que se encontrou com o líder revolucionário Mao Tsé-Tung em sua primeira visita oficial à China, em 1975. Ele já havia aparecido por lá, em 1971, como assessor de Segurança Nacional, em missão secreta.
Naquele segundo momento, as relações diplomáticas e comerciais entre o gigante asiático e os EUA estavam na etapa inicial da reaproximação que surpreendeu o mundo, durante o governo do republicano Richard Nixon. Recebido por Mao e altos funcionários do governo chinês na residência oficial, em Pequim, a certa altura da conversa Kissinger procurou obter do ‘Grande Timoneiro’ uma posição sobre quais segmentos econômicos poderiam ser incrementados nas correntes de exportação e importação que iriam ser formadas entre os dois países.
“Sobre detalhes operacionais como este fale com Chu En-Lai”, respondeu o líder indicando o primeiro-ministro chinês, que acompanhava o diálogo. “Mao só cuida das grandes linhas de governo”, arrematou na terceira pessoa.
Kissinger entendeu de imediato que Mao já havia dado a autorização para a reaproximação com os EUA, mas que toda a implementação do acordo seria feita por seus auxiliares. Está aí um conselho relevante para o presidente Lula.
Não parece um bom negócio para ele, que a está altura acirra as conversas com aliados para definir quem será seu ministro da Fazenda, assumir o papel de cuidar dos detalhes da política econômica. Ao presidente cabe, segundo a ótica de Mao, que sabia das coisas, nomear bons auxiliares, preparados e confiáveis.
Eles tocam o governo, cabendo ao líder supremo cobrar resultados. A dica é válida para o momento de Lula.
Já há uma interpretação na praça de que o futuro ministro da Fazenda será ele próprio. Não em pessoa, mas dando as ordens para um nomeado que atenda a todos e a cada um de seus pedidos.
Alguém que não tenha delegação ou autonomia, mas que seja instalado no cargo para agir exatamente de acordo com as determinações do líder. Não se trata apenas de o mercado financeiro já demonstrar que esse modelo de presidente-ministro causaria estresse e ruídos em sequência.
Também para Lula os desgastes que sem dúvida surgiriam em seguidas intervenções no trabalho do titular da economia seriam insalubres. Em seu quarto mandato, que ele mesmo diz ser o último, o presidente pode se dar ao luxo de ser um grande coordenador de ações.
Isso é bem mais do que tornar-se uma figura meramente decorativa, e muito menos do que se meter a dar as palavras inicial e final sobre todos os assuntos. A onipresença e a superexposição tendem a grudar no presidente problemas de difícil solução, com alto potencial para causar danos em sua imagem.
Ao nomear ministros capazes e confiáveis, o ideal é que presidente lhes dê um mandato, ou seja, um tempo e espaço de ação previamente combinados, dentro dos quais os escolhidos tenham liberdade de ação, respeitadas as grandes linhas do governo. Esse modelo só funciona à medida em que a equipe conte com nomes, técnicos ou políticos, de alta qualificação para o exercício das funções determinadas.
Não faz sentido o presidente ficar pajeando seus escolhidos. Quando isso acontece, a leitura do mercado, especialmente no caso da escolha a ser feita para a Fazenda, é a de que o auxiliar é fraco – e a partir desse ponto a fritura externa começa.
Brasil 247