Ideias e memórias e de um jornalista apaixonado pelos vinhos e a gastronomia Em ‘Uma infância alemã’, o crepúsculo do Terceiro Reich é visto pelos olhos de um menino em busca de pão numa distante ilha próxima da Dinamarca
Em 30 de abril de 1945, as rádios alemãs interromperam a programação para anunciar a morte de Adolf Hitler. Em Amrum, uma distante ilha perto da fronteira com a Dinamarca, uma mulher grávida do quarto filho ouve a notícia.
Mal o locutor termina a notícia, a bolsa se rompe no chão da cozinha. É amparada pela irmã, que pede para que o filho mais velho leve seus outros irmãos para outro quarto para não verem o nascimento.
Nanning é o mais velho. Tem 12 anos.
É integrante da Juventude Hitlerista. O pai, oficial da SS, a tropa de elite nazista, está longe, no continente, em uma das batalhas travadas pelos alemães contra os Aliados.
A guerra está próxima do fim. Os soviéticos estão perto de chegar a Berlim.
A família fugiu dos bombardeios de Hamburgo para a ilha, onde o menino colhe batatas, junta madeira trazida pelo mar e aprende a caçar e estripar coelhos para pôr comida na mesa. Na ilha, ele é tratado como refugiado, como os poloneses alemães que chegam por lá.
Os meninos mais velhos que nasceram na ilha dizem que ele não é um deles. Já os poloneses zombam dele.
Depois do parto, a mãe se afunda numa depressão e para de comer. Em um momento com a chegada do novo filho, ela se questiona: “que tipo de mundo é esse para criar uma criança?” Quando Nanning pede que a mãe coma, ela diz que não.
Quer mesmo é uma fatia de pão branco. É uma encomenda de luxo em tempos de guerra.
Trigo não há na ilha, a não ser, talvez, no consultório do médico, onde se guarda farinha porque se diz que ela ajuda a tratar ferimentos de soldados. O doutor dá ao menino um punhado.
Ele vai até o padeiro, que perdeu um braço na guerra. Ele olha a farinha e comenta que, no caso dele, o trigo não adiantou nada.
Diz que assa um pão pequeno se Nanning trouxer ovos para ele fazer um bolo. O mel depende do açúcar.
As abelhas são alimentadas com água açucarada, e açúcar não se acha com facilidade. A manteiga tem de ser obtida pelo escambo: linguado defumado, a moeda local, com mais valor que os marcos alemães, em descrédito com o fim próximo da guerra.
Nanning obtém o peixe de um peixeiro, depois de atrair uma foca para a morte na praia. O dinheiro oficial já não vale.
Quando vai ao açougue com os filhos, Hille, a mãe, ouve do açougueiro que ele só aceita dólares americanos. Ela não os tem.
Sai com uma peça de carne embaixo do casaco. É desmascarada na rua.
Tem de devolver a peça, antes que o açougueiro a denuncie. O filme estreou em Cannes em maio de 2025.
No mesmo festival, o drama iraquiano O Bolo do Presidente, ganhou a Caméra d’Or. As duas histórias têm semelhanças, ambas marcam a passagem da infância para o mundo adulto em momentos em que o autoritarismo deixou sequelas.
No Iraque, o culto a Saddam Husseim exige o bolo. Em Amrum, o fantasma de Hitler e do nazismo deixam cicatrizes profundas e criam obstáculos para se conseguir um pão de trigo.
Uma infância alemã é baseado nas memórias de Hark Bohm, nascido em Hamburgo em 1939. O roteiro era dele, e ele pretendia dirigi-lo.
Durante a preparação, a saúde piorou, e Bohm passou o projeto a Akin, seu ex-aluno e amigo. O filme chegou aos cinemas alemães em 9 de outubro de 2025.
Bohm morreu em 14 de novembro, em Hamburgo, aos 86 anos. Aparece em cena, no papel do velho à beira-mar.
Há um tio de Nanning que não aparece no filme, mas cuja história coloca em dúvida a vida dos pais. O tio ficou preso nos Estados Unidos por causa dos nazistas, que mataram sua noiva.
O menino descobre a história aos pedaços. Num sonho, o tio diz a Nanning que não tem culpa, mas está envolvido.
Em uma entrevista ao lançar o filme, Akin resumiu o sentimento: “A Alemanha vive traumatizada pela culpa.” O caderno de Lamia, em O Bolo do Presidente, anotava o que cada ingrediente significava: os ovos, a fertilidade; a farinha, a vida; o açúcar, a doçura; o fermento, a maciez.
Nanning não faz lista. Busca os ingredientes para dar um pouco de vida à sua mãe ter algum sentido na vida.
Às vezes é o que resta. Roberto Rockmann Jornalista especializado em energia.
Apaixonado por vinho e gastronomia, área em que teve Mino Carta como mentor, mantém os sites pisandoemuvas.com e vinhosemsegredo.com Muita gente esqueceu o que escreveu, disse ou defendeu.
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