Chico Chico tem “horror à conversa”, como avisa em “Farsa”, canção do disco “Let it burn/Deixa arder” (DeckDisc), indicado ao Grammy Latino 2026, que ganha turnê internacional no mês que vem. Mas aguentou o tranco e, mesmo sem parar quieto na cadeira, sustentou com desenvoltura uma hora de papo no “Conversa vai, conversa vem”, videocast do GLOBO que vai ao ar hoje, 18h, no Youtube e Spotify.
Na entrevista, o cantor e compositor de 33 anos deixa claro que a consolidação da própria trajetória musical, que completou uma década, tem sido fundamental para ir acomodando melhor o legado da mãe, Cássia Eller. Também revela que vai incluir o sobrenome da outra mãe, Maria Eugênia (Vieira Martins), na certidão de nascimento.
Ele — que faz show sexta-feira, em Porto Alegre; dia 7, em Belo Horizonte; e em 19 de dezembro, em São Paulo — fala ainda do “nervoso” que sentiu ao ver a namorada, Luisa Arraes, caracterizada como Cássia para a cinebiografia da cantora e compartilha detalhes da batalha para ficar limpo e lidar com as dores de quem sofreu perdas demais.
Chico Chico Ana Branco
O show da turnê de "Lei it burn/Deixa arder" chega nessa sua primeira turnê internacional diferente da estreia, quase um ano atrás? Sim, mudou muito.
E essa é a parte mais legal, porque show é uma coisa viva. Você vai fazendo e a coisa vai tomando outra forma.
Vão acontecendo coisas no show e você vai incorporando, o que é bom. Às vezes, dá ruim, mas mesmo quando dá ruim, dá certo (risos).
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O disco tem 20 músicas e mais de uma hora de duração, algo raro de a sua geração fazer. Havia essa proposta por mais calma, por ouvir um disco inteiro?
Queria um disco longo e não foi difícil convencer a galera, que comprou o barulho. Tem muita coisa que fiz pra ele, mas também um resgate de canções que não sabia onde utilizar em outros trabalhos e consegui amarrar nesse.
Por uma questão estética mesmo. Adorei o resultado.
Mas isso é redundante porque uma vez que laço, é porque gostei, né? Nem sempre.
Às vezes, tem que largar a mão porque, se não, nunca acha que está bom... Isso sempre.
E é por isso que a gente faz mais. Se acha que não precisa de mais nada na sua vida, para com tudo.
Estou sempre querendo fazer alguma outra coisa. Sempre quero lançar tudo, acho que é um mal de quem compõe.
Chico Chico e Maria Fortuna na redação de OGLOBO Ana Branco
'Isso tem um peso na minha vida para além de eu querer ou não. Mas era questão de me sentir mais seguro mesmo sobre o porquê de fazer o que faço.
Não sei se encontrei esse balanço, mas me sinto um pouco mais confortável', sobre legado de Cássia Eller. Tem mostrado mais seu leque amplo de influências e cantado com mais domínio.
Sente-se mais confortável para deixar o publico entrar em seu universo interno? Esse sempre foi o objetivo.
Compondo está sempre mostrando uma coisa sua que não dá de graça, para os outros. A composição é uma coisa íntima, apesar de querer que todo mundo escute e se identifique em algum nível.
Sempre senti isso, mas a gente vai amadurecendo. Cantar com mais domínio é uma coisa de tempo, vai lapidando.
Mas não sou um estudioso, da minha própria voz. Aprendo na marra cantando e vendo o que estou fazendo de errado, passando vergonha mesmo (risos).
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Hoje, com a carreira mais estabilizada e o público conhecendo sua música, lida melhor com o legado que carrega? Enxergo ainda da mesma forma.
Era uma questão comigo mesmo, de estar preparado para entrar nessa seara sem me sentir me aproveitando de alguma coisa da qual eu já me aproveito independentemente do que estou fazendo. Isso tem um peso na minha vida para além de eu querer ou não.
Mas era questão de me sentir mais seguro mesmo sobre o porquê de fazer o que faço. Nunca foi no sentido de negar nem de me aproveitar.
Não sei se encontrei esse balanço, mas me sinto um pouco mais confortável, lidando com isso. Inclusive, de cantar hits da sua mãe, além de canções de outras pessoas, o que evitava, né? Gravou “Vila do Sossego” (Zé Ramalho), “Menino bonito” (Rita Lee), fez show com Nando Reis...
Aprendi a tocar violão e a cantar cantando música dos outros. Isso nunca foi um problema, é mais uma questão de teimosia do meu lado compositor.
Não que ache que tenha me estabelecido. Mas quis insistir muito nessa tecla.
Até porque não sei cantar, não tenho estudo. Meu primeiro contato criativo com a música veio através da escrita.
Sempre gostei de escrever e falar o que tenho para falar. Queria ter a segurança de que já me sinto um compositor.
Ainda não me sinto, mas fico cada vez mais seguro disso. Uma vez que entendi isso, comecei a me arriscar mais, me permitir gravar algo de outra pessoa que admire.
Mas sinto com uma responsabilidade maior fazendo isso do que gravando as minhas coisas. Minhas coisas eu sei o que e como quero dizer.
É mais desafiador para mim ser um intérprete de outros do que de mim mesmo. 'Sou filho de quem eu sou e tenho muito orgulho.
Tenho consciência de que isso foi um privilégio enorme' Errar a música dos outros é pior do que errar a própria música.
Você não erra a sua coisa, vira performance. Fora as coisas da minha mãe e do Nando...
Isso eu sempre recusei com muita certeza. Não me arrependo.
Acho que fiz na hora certa. Nunca por uma questão de desdém, mas porque é impossível desatrelar.
Nem quero que separe. Sou filho de quem eu sou e tenho muito orgulho.
Tenho consciência de que isso foi um privilégio enorme. Tenho uma entrada, posso dizer muitos não graças a isso.
Me valho desse privilégio. Nego coisas porque não são a minha praia.
E cantar coisas da minha mãe é um pouco essa coisa... Não quero me apoiar muito nisso.
Mas esse show com o Nando foi muito especial, foi uma sessão de terapia. Por que?
Foi na hora certa e muito emocionante. Me pegou em muitos lugares.
São músicas que cresci ouvindo e vendo a vida da minha mãe acontecer. Tocar com aquelas pessoas, todos muito amigos.
É uma coisa bonita da vida, um carinho que não se perde e que, talvez, seja acentuado pela morte da minha mãe. Isso que parece uma coisa trágica, cria um laço muito firme.
A morte vai gerando laços durante a vida que são mais fortes. 'O palco é uma droga boa, que faz bem'
Você canta o que sente, encontros, desencontros, afeto, saudade e diz: "Tanto para dizer, mas é difícil". Nesse sentido, o palco te liberta?
Sim. O palco é o momento mais legal de todos.
Amo compor, só que é mais sofrível, porque você está tá tentando espremer alguma coisa ali de dentro de você. O palco tem mais a ver com cuspir.
E é uma coisa que aprendi vendo, algo que trago da minha mãe, de viver muito em camarim, de ir muito a show dela: a amizade entre as pessoas e o quanto aquilo facilita o trabalho de todo mundo. É legal estar reunido com pessoas que você ama, fazendo o que elas amam.
O senso de coletividade me encanta muito. Maria Rita.
'Não ouço minha mãe por que dói', diz cantora sobre Elis Regina O palco cura sua timidez e ansiedade, te tira do passado, da ligação familiar que a música tem pra você, e te joga num estado de presença absoluto.
Isso é uma coisa meio mágica. É uma droga boa, que faz bem.
É uma coisa que você só encontra ali e gera um certo vício. Quero viver disso até morrer.
De onde vem a profundidade que chegou a assustar sua mãe Eugênia, quando mostrou as primeiras músicas que compôs para ela? Não sei de onde vem.
A vida propõe coisas que marcam a gente, gosto de falar disso. Minha mãe Eugênia estudou letras, sempre teve muitas coletâneas de poesia lá em casa.
Não sou um grande conhecedor, mas sempre folheei. Isso aliado ao que a gente escutava, Luiz Melodia, Macalé, Waly Salomão.
O que esses caras falam também e não é brincadeira. Isso pega a gente.
Você tem influência da música dos anos 1970, como Sérgio Sampaio, e da vanguarda paulistana, Itamar Assumpção, Arrigo Barnabé... Ao mesmo tempo, sua música está ligada no século XXI.
Como conecta a regionalidade do seu estilo com uma roupagem mais moderna? Parcerias são fundamentais para isso? Fundamentais.
O Fonça (Pedro Fonseca, parceiro e produtor do disco) é meu maior parceiro. Essa parte da sonoridade a gente discute muito, e ele sempre consegue pensar de uma maneira mais lógica sobre arranjo.
Eu permito e os outros se permitem meter o dedo no meu som. Isso é essencial, obrigatório para mim.
Se não fizer isso, não consigo fazer algo que seja meu, por mais paradoxal que pareça ser. 'Show, para mim, é como uma partida de futebol'
Entendo, a força dos encontros que se retroalimentam... E daí surge uma coisa que é sua e do outro também.
Se fizesse só o que acho que é meu, penso que estaria imitando alguém. O quanto tem de futebol nesse jogo da parceria?
Total, bicho. Esse é o maior paralelo que existe.
Show, para mim, é como uma partida de futebol, um time. Está todo mundo ali com o mesmo objetivo.
Você tem que cobrir o outro. Vai, volta para marcar , perde a bola, o outro sobe...
Adoro isso. Melhor ainda é que, na música, ninguém ganha.
Não é uma competição, o objetivo final não é ser campeão. 'Já que a vida é coletiva, qual é a minha parte?'
Em 2021, você me disse que tinha medo de não corresponder, não estar à altura. Na canção "Farsa", brinca com essa ideia.
Tem conseguido ser quem você é? Está mais em paz com você? Em paz eu não sei, mas nunca deixei de ser quem eu sou.
Me sinto uma farsa. Os números (de ouvintes e seguidores) me fazem sentir uma farsa.
A gente quer ser escutado, ter números bons. Mais que ser escutado, quero dizer algo que, antes, sirva a mim mesmo.
Tem um pouco dessa onda do ego. Você é a sua primeira plateia, antes de tudo, está se agradando.
Por mais que seja uma coisa sofrida, seria pior se não fizesse primeiro para mim. Tenho que estar bom para mim.
Enquanto não trair isso, consigo ter equilíbrio comigo mesmo. Sou sempre eu mesmo...
Talvez, né, porque quando a gente sobe no palco performa alguma coisa (risos). Aqui, nessa conversa, estamos performando...
Estou aqui fingindo que sei falar, por exemplo (risos). 'O mundo ao redor adoece a gente.
Nosso processo de cura é poder atuar nesse mundo doente de uma maneira que seja positiva. Seja lá o que isso for'
Em "Heal me", diz: "Cure-me agora, cure-me de mim mesmo', em tradução livre. Nosso maior inimigo é a gente?
Ela é muito específica de uma fase que estava vivendo, mas acho que sim. Se bem que, antes disso, é o capitalismo (risos).
A gente também não pode se martirizar tanto. O mundo ao redor adoece a gente.
Não quero entrar na onda do autoflagelo, apesar de ter um pouco disso. O nosso processo de cura é poder atuar nesse mundo doente de uma maneira que seja positiva.
Seja lá o que isso for. Mas você precisou se cuidar...
O que foi procurar? Fui procurar ajuda mesmo, porque estava mal.
Terapia em grupo, individual para tentar deixar de morrer aos pouquinhos. Não estou curado de nada, mas é importante a gente entender alguns processos internos nossos.
Estou melhor. Um aspecto importante foi diminuir a bebida.
Procurou um centro de terapia para dependentes químicos? Sim, de adictos.
Fiquei sem beber ano passado, sem fazer mais nada. Foi importante, porque isso tomou uma proporção muito maior na minha vida.
Tomei muito mais do que eu devia, vamos dizer assim. 'Já que a vida é coletiva, qual é minha parte nesse coletivo? O que estou fazendo aqui, além só de ser um problema para os outros, assim?'
Chegou num ponto em que o negócio ficou muito feio? Já estava muito feio.
Chegou num ponto que ficou insustentável para eu ter qualquer relação sincera ou substancial que perdurasse. É muito fácil ir se matando.
Mas também é muito egoísta. E esse é o lado das coisas que mais me pega.
Odeio me sentir não pensando nos outros. Não é para deixar de pensar em mim, mas gosto de pensar nos outros, me faz bem.
Já que a vida é coletiva, qual é minha parte nesse coletivo? O que estou fazendo aqui, além só de ser um problema para os outros, assim? Isso, talvez, seja o que mais me move. Usava a bebida para mascarar o que sentia?
Não só a bebida, tudo que já usei. É porque é muito bom, não vou mentir.
Eu adoro. Só que tem uma hora que a parte da diversão, da social, que é a que me interessa, se perde.
Demorei para perceber e tomar alguma atitude sobre isso. E foi muito importante, recomendo.
O que a lucidez te trouxe de melhor? Não aprendi nada de novo, já sabia.
É uma mudança de hábito que, talvez, seja a parte mais difícil. A coisa do cotidiano.
Ter um objetivo diário de cuidado é muito importante. E difícil, pelo menos para mim, que sempre fui muito aéreo e...
muita droga... Mas, aos poucos, você vai conquistando e dá uma mudança muito legal.
Você aproveita melhor os outros, as amizades, as pessoas que ama. A voz melhor, o processo criativo muda...
O processo criativo é a parte mais difícil, porque atrelei muito à droga. Ajuda mesmo, é um atalho.
Você entra num modo em que nada mais importa. Ainda estou nessa batalha para achar outros caminhos.
A voz melhorou muito. Ainda sou jovem e sempre consegui entregar o mínimo.
Mas, nossa senhora, como melhora... 'A droga entrou na minha vida não na questão artística...
Quando descobri que podia não pensar e não lidar com as coisas, me encantei pelo lance' Durante muito tempo, cultivou-se essa imagem do artista que bebe, se droga, vive perigosamente.
Confundiu autodestruição com liberdade? Com certeza.
Em algum momento, romantizei. Acho que foi quando entendi que, talvez, tivesse que parar e me deu medo.
Falei: "Não mesmo!". Sempre tive minhas questões e nunca trabalhei muito.
A droga entrou na minha vida não na questão artística... Quando descobri que podia não pensar e não lidar com as coisas, me encantei pelo lance.
E agora você está lidando com as coisas que você não queria lidar? Impossível não lidar.
Só que agora consigo enfrentar. E perder, se for o caso.
A morte, presente na sua vida e na sua música, é uma dessas questões? Cantar é um jeito de exorcizá-la? Exorcizar a morte é impossível.
É mais no sentido de companheira. Sempre foi uma questão na minha vida.
Tanto pelo meu pai (o músico Tavinho Fialho morreu num acidente antes de Chico nascer), da minha mãe, de tantos amigos que já foram. 'Entender que que sua tristeza, sua dor não é a maior do mundo, é só mais uma, e que isso também não diminui nada, foi uma coisa legal que aprendi ano passado.
Porque você também se liberta, sai um pouco de si' Tudo sempre muito perto de você...
Eu achava: "Caramba, é tudo ao meu redor, nunca comigo". Já tive situações em que gostaria de ter ido.
Nunca tive a coragem, e isso vai fazendo você se sentir ainda menor. Porque nem o seu desejo consegue realizar.
E aí, na sua doideira, vai buscando essas coisas aos poucos, sem nunca alcançar. O que só vira mais uma tortura.
Mas isso não é uma situação minha, todo mundo passa por isso. Uns mais, outros menos, mas é universal.
Entender que que sua tristeza, sua dor não é a maior do mundo, é só mais uma, e que isso também não diminui nada, foi uma coisa legal que aprendi ano passado. Porque você também se liberta, sai um pouco de si.
Perdeu recentemente a sua madrinha... Cada morte é um gatilho novo?
Claro, sim. Mas sinto que agora tenho mais armas para lidar.
As coisas foram muito de repente, nesse sentido, na minha vida. Hoje, o que mais me machuca é a dor que fica, ver meus amigos sofrendo.
Quando você nasceu, seu pai tinha filhos e era casado. Conheceu sua família paterna.
Conseguiram estabelecer uma relação? Sim.
Minha irmã, Maria, conheci esse ano. O João, outro irmão, foi com 18.
Foram muito carinhosos comigo. Fico até envergonhado, porque eles me receberam com muito carinho.
São pessoas, maravilhosas. Os dois são a cara do meu pai, têm filhinhos.
Outra sorte na minha vida. A gente fala muito de morte, mas sempre tem tanta vida em volta.
Isso nunca me faltou.
O Globo