Laure Calamy venceu os mais prestigiosos prêmios do teatro (Molière) e do cinema (César) de seu país, protagonizou sucessos de público e crítica e hoje é uma presença constante no audiovisual francês. Aqui no Brasil, porém, a parisiense de 52 anos é reconhecida principalmente por um papel: a assistente Noémie Leclerc de “Dix pour cent”, a popular série exibida na Netflix que ganhou em setembro um longa-metragem na mesma plataforma.
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Na semana passada, Calamy esteve no Rio para apresentar um de seus últimos trabalhos, “O que é o amor?”, longa de Fabien Gorgeart exibido dentro da programação do Festival do Cinema Francês no Brasil, em cartaz até 11 de novembro. Ela interpreta Marguerite, uma gerente de lojas que precisa anular a união religiosa com o ex-marido (Vincent Macaigne) para que ele possa se casar novamente na igreja.
Ela se dispõe a participar do jogo, mas logo percebe que o processo é mais complicado do que parece. Além de ressuscitar traumas antigos, acaba impactando as suas duas filhas e o seu companheiro atual.
— Muita gente não sabe que, para conseguir a anulação religiosa do casamento, é preciso demonstrar que não havia amor quando o casal se conheceu — explicou a atriz, em entrevista ao GLOBO em um hotel de Copacabana. — Evidentemente, isso faz ressurgir algumas perguntas.
O que uniu aquelas duas pessoas? O que fez com que se apaixonassem? Como algo tão importante na nossa vida pode não desaparecer completamente, mas se transformar em outra coisa? O amor continua existindo de outra maneira. Era uma história bonita de contar.
Como o título indica, “O que é o amor?” se interroga sobre o que leva as pessoas a se juntarem — e a se separarem. Mas a simpática comédia de “descasamento” também brinca com a burocracia um tanto absurda das anulações de casamento.
Sem conseguir convencer as autoridades eclesiásticas, Marguerite acaba viajando para o Vaticano com sua família, o ex e a atual dele (Mélanie Thierry). Nessa teia de confusões, que começa em um shopping de Rouen e termina na cidade do Papa, brilha o timing cômico de Calamy e sua sintonia com Vicent Macaigne.
Além de diversas colaborações nos palcos, a dupla já havia protagonizado o filme “Um mundo sem mulheres” (2011), de Guillaume Brac. Os dois se cruzam também em "Dix pour cent: O filme".
— Como Vincent e eu já tínhamos uma história de parceria profissional no teatro, existe algo entre nós que funciona como (se fôssemos) um velho casal — define Calamy. — Temos um passado em comum, uma matéria preexistente.
Não precisamos fazer muito esforço para que essa intimidade apareça na tela. Acho que era justamente isso que interessava ao diretor.
Formada no exigente Conservatório Nacional Superior de Arte Dramática de Paris, a atriz é especialista em representar mulheres comuns e imperfeitas, apostando na energia física e a expressividade sem nunca cair na caricatura. Personagens vulneráveis
Calamy dá uma dignidade única a personagens vulneráveis, sejam elas a insegura Noémie de “Dix pour cent” ou a excêntrica e bordeline Antoinette de “Minhas férias com Patrick”. A atriz passa a imagem de uma pessoa normal, com a qual os fãs podem se identificar.
Casada com um guia de montanhas colombiano, ela vive longe da agitação da mídia e mantém uma casa na região do Cévennes, região no Sul da França que abriga um parque natural. O lugar, por sinal, é cenário do “Minhas férias com Patrick”, que rendeu a Calamy o César de melhor atriz em 2020.
Laure Calamy (ao centro) em cena de "Dix pour cent: O Filme" Divulgação
— Adoro minha profissão, sou apaixonada por ela, mas existem momentos em que nos perguntamos se não seria melhor fazer outra coisa — pondera ela. — Há tantos problemas no mundo.
Mas, ao mesmo tempo, essa é justamente uma das funções fundamentais da arte: oferecer algum alívio. Existe algo de catártico nisso que considero primordial.
Às vezes, alguém me diz simplesmente: “Não mude, você me faz bem”. Para mim, receber uma frase assim é um diamante.
De repente, penso que tudo aquilo serve para alguma coisa. A fama de Calamy chegou tardiamente.
Embora emendasse trabalhos nos palcos, demorou para engrenar no cinema. Entre 2001 e 2011, acumulou papeis pequenos e muitas negativas nos testes de elenco.
— Eu imaginava que faria teatro a vida inteira, e exclusivamente teatro — lembra ela. — E não considero isso algo negativo ou inferior.
Era exatamente a vida de atriz que eu sonhava ter. Já estava muito feliz.
Quando era jovem, e mesmo depois dos 30 anos, praticamente não fazia testes. Tentava um teste de elenco por ano, e quase sempre fracassava.
Para mim, o cinema simplesmente não era uma possibilidade. Produção de baixo orçamento, mas grande sucesso de crítica, “Um mundo sem mulheres” abriu caminho para Calamy no cinema.
Mas foi mesmo o fenômeno global “Dix pour cent” que a tornou conhecida do grande público. Sátira da indústria do entretenimento, a série acompanha os funcionários de uma agência de talentos parisiense, que precisam administrar os egos e crises de clientes.
As quatro temporadas são recheadas de participações especiais de celebridades francesas, que brincam com sua imagem pública interpretando versões ficcionalizadas de si mesmas. Exibida originalmente pela France 2 entre 2015 e 2020, a produção foi vendida para mais de 60 países e venceu o Emmy Internacional de melhor comédia em 2021.
O filme, que entrou em setembro na Netflix, se passa cinco anos após o fechamento da agência. A personagem principal, Andréa Martel (Camille Cottin) trocou a vida de agente pela de cineasta e está produzindo seu primeiro filme.
Já Noémie agora é produtora de um reality show campeão de audiência. — Eu já estava em uma fase em que comecei a receber convites para papéis coadjuvantes muito bons, e com o sucesso da série surgiu uma vontade dos cineastas de me ver em papéis principais — conta Calamy.
— Tudo foi se acumulando. Naturalmente, o sucesso de “Dix pour cent” deu mais confiança aos produtores.
De repente, eu era mais conhecida, e essas possibilidades se tornaram viáveis.
O Globo