O barulho da água invadindo os quartos, o desespero de tentar escapar e a preocupação de salvar o que fosse possível. Moradores da comunidade Rio do Ouro, em Irajá, na Zona Norte do Rio, foram surpreendidos durante a madrugada de ontem pelo rompimento de uma tubulação de grande porte da concessionária Águas do Rio.
A força da água alagou 12 casas, destruiu imóveis e deixou famílias sem ter para onde ir. O problema aconteceu por volta de 1h30, quando a maioria dos moradores dormia.
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Segundo a aposentada Dagmar dos Santos, de 75 anos, foram momentos de pânico. Ela acordou durante a madrugada para ir ao banheiro e encontrou o chão coberto por uma lama marrom.
A água subiu rapidamente e chegou à altura da cintura. Para piorar, a queda de uma parede da casa vizinha bloqueou a porta de sua residência, deixando-a presa.
— Eu levantei para ir ao banheiro e senti que estava molhado. Quando olhei para o chão, era uma lama marrom.
Pensei: “o que está acontecendo?” Veio o desespero. A parede da menina da frente caiu na minha porta, e eu não podia sair.
Fiquei presa dentro de casa com a água subindo — contou ela, que mora na comunidade há 32 anos. A saída só foi possível com a ajuda de vizinhos.
Um deles conseguiu abrir uma passagem entre os escombros para que Dagmar escapasse. Do lado de fora, outro morador a ajudou a atravessar a água, que ainda corria com força.
Sua casa foi interditada pela Defesa Civil. Ela conseguiu voltar para buscar algumas roupas, mas ainda não sabe o que a espera.
No interior do Rio, duas cidades ficam nos extremos do mapa político Também moradora antiga de Rio do Ouro — são mais de duas décadas vivendo no local —, Regiane Braga da Silva, de 47 anos, escapou depois que uma das paredes de sua casa cedeu com a pressão da água.
Ela estava com o filho de 13 anos quando percebeu que a residência começava a ser invadida. A casa só tem um portão, que ficou obstruído pela força da água.
Imóveis interditados Regiane e o filho só conseguiram sair após o muro da casa cair.
— Quando eu levantei, a água já estava jorrando para dentro do quarto. Não tinha para onde ir.
Fiquei desesperada. Por sorte, a parede caiu e eu pude sair por ali.
Meu portão era a entrada e a saída, e o cano que estourou estava justamente ali. Se eu fosse para lá, talvez não estivesse nem aqui para contar a história — relatou ela, que trabalha com serviços de limpeza.
— Comecei do zero, fui comprando minhas coisas aos poucos, sozinha. E agora perdi tudo.
A comunidade foi construída no entorno do Rio Irajá, que foi canalizado e atravessa a região. Com o rompimento da adutora, sete casas foram interditadas pela Defesa Civil e duas começaram a ser demolidas: uma fica no ponto onde ocorreu a falha da tubulação; a outra deverá dar espaço para a passagem do maquinário necessário à realização das obras.
Além de perder bens, as famílias também terão que proteger o que restou. Há preocupação com a possibilidade de saques durante a noite, já que usuários de drogas circulam pela região.
Uma das moradoras relatou que precisará manter a casa trancada para evitar que os pertences deixados para trás sejam levados. Segundo a Águas do Rio, além de trabalhar para reparar o vazamento na tubulação, a empresa conta com profissionais de Responsabilidade Social, que estão dando suporte aos moradores.
O acidente, na véspera da manutenção do Sistema Guandu, programada pela Cedae para hoje, comprometeu o fornecimento de água em partes de 24 bairros da Zona Norte e na Praça Seca, na Zona Sudoeste. De acordo com a empresa, o fornecimento de água para oito cidades — Rio, Belford Roxo, Duque de Caxias, Mesquita, Nilópolis, Nova Iguaçu, Queimados e São João de Meriti — ficará suspenso pelo menos até as 4h de amanhã, quando está previsto o encerramento do trabalho.
O objetivo do serviço é preparar a estação de tratamento, localizada em Nova Iguaçu, para o verão — que começa em 21 de dezembro —, período de maior consumo de água. A manutenção preventiva do sistema, que abastece nove milhões de pessoas da capital e da Baixada Fluminense, diminui a chance de paralisações emergenciais ou redução da produção de água durante o período de alta demanda, afirma Elisa Silva, diretora de Saneamento e Grande Operação da companhia.
As concessionárias Águas do Rio, Iguá e Rio+Saneamento informam que a normalização do fornecimento pode durar até 72 horas após o fim da manutenção no Guandu.
O Globo