Cronista pós-Dalton Trevisan retrata uma Curitiba de raro otimismo com o ser humano

Cronista pós-Dalton Trevisan retrata uma Curitiba de raro otimismo com o ser humano - Foto
Fonte da notícia: Valor Valor

Num contraponto à Curitiba soturna, fechada e pessimista de Dalton Trevisan, onde mulheres misturam vidro moído na comida do marido traidor, as crônicas do curitibano José Carlos Fernandes, publicadas em jornais durante 20 anos, traziam um raro otimismo a respeito do ser humano. “Na Brasílio com a Ângelo” reúne 40 desses textos, publicados com ilustrações de Felipe Mayerle entre 2007 e 2023.

O título alude à esquina onde o “Zeca” morou boa parte da vida e onde seus pais mantiveram bar e banca de jornal. O apego ao jornalismo vem de berço, gestado nas leituras de gibis e revistas.

A família de origem portuguesa está presente em muitos dos relatos, com detalhes de comentários da mãe, da tia, de uma foto antiga encontrada que permite criar hipóteses sobre o passado. A memória também entra como personagem dos textos, que só parecem leves.

Em segundas e terceiras leituras, revelam questões filosóficas importantes. Atualmente professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), José Carlos Fernandes começou a trabalhar na Gazeta do Povo, de Curitiba, como arquivista, após 13 anos de seminário.

A graduação em filosofia trouxe uma base sólida sobre a qual o autor aplica um humor generoso, numa habilidosa inserção de referências eruditas que nunca parecem soberbas ou pedantes. Em “Sobre a cor do tempo e a minha louça”, publicada em 28 de abril de 2017, são citados ao longo dos 13 parágrafos Mário Quintana, Adélia Prado, Jacques Derrida, Santo Agostinho, Aristóteles, Bergson, Freud, Barlett, Halbwachs, Walter Benjamin.

Tudo em meio ao cotidiano, com percepções do autor que parecem saídas do acaso, ao molho da simplicidade. A resposta dos leitores sempre interessou a Fernandes, atento aos e-mails recebidos na redação.

“Quando ela escreve, ganho o dia”, conta em outra crônica sobre a leitora que curtia conhecer novos anônimos apresentados pelo autor a cada semana. “Eu queria retratar pessoas que tivessem uma rede e que isso trouxesse engajamento dos leitores ao jornal”, diz ao Valor.

Foram cerca de 600 crônicas, que faziam a festa do leitor de sexta-feira. Unanimidade entre colegas e centenas de alunos orientados por meio de conversa abundante nas últimas décadas, Fernandes lançou o livro em dois eventos, na editora Telaranha e no curso de comunicação da UFPR.

Com uma tese de doutorado e recente pesquisa de pós-doutorado sobre o ato de ler, o livro de crônicas é como uma homenagem à leitura e às personagens que ele transforma em literatura. O convite para publicar as crônicas veio da escritora também curitibana Luci Collin, durante a pandemia.

A princípio ele achou que não renderia, “seria como colocar um monte de pessoas muito falantes numa única festa. Mas a leitura em conjunto dos textos mudou essa impressão, apontando a possibilidade de formarem um livro sobre a cidade”, diz Fernandes.

Curitiba é personagem na última parte do livro, que começa com os textos mais universais e tem no miolo aqueles mais soturnos. A capital paranaense tem seus mitos escarafunchados e até contestados, como a grande incidência de chuvas, a antipatia da população e o clássico ato de “convidar sem dar o endereço”.

Já a escolha de perfis de pessoas passa por um olhar de quem se coloca como igualmente humano, falho, mas portador da imagem divina — a transformação pela escuta, enxergar o outro, tornou a crônica de Fernandes um espaço equivalente a uma pastoral. Ele, que deixou o seminário à iminência dos votos perpétuos, voltou ao chão da lida leiga.

Não por acaso, num papo com ele são citadas inúmeras pessoas, algo raro de se achar, alguém que ainda se encanta com os outros. Ao selecionar uma de suas crônicas preferidas, o autor cita “Nossas histórias do Valêncio”, em que relata sua década trabalhando ao lado do escritor Valêncio Xavier, autor de “O mez da grippe”.

Sua visão do texto da crônica parte da tradição norte-americana que pergunta: “Qual a tua história?”. “Nos textos do Ruy Castro, ele é o narrador, está presente ali.

Me influenciou muito também a jornalista paranaense Lorena Klenk: você lê da primeira linha até a última sem parar, ela entende o assunto primeiro e só usa as aspas necessárias”, cita o autor. Agora, José Carlos Fernandes volta a publicar junto a outros cronistas curitibanos com o retorno de espaços disponíveis para o gênero, como o recém-criado portal A Tramela, que agrega crônicas de José Carlos e nomes como Luís Henrique Pellanda, Luci Collin e Marleth Silva, a cargo dos jornalistas Felippe Aníbal e Sandoval Matheus.

Na Brasílio com a Ângelo - José Carlos Fernandes. Telaranha.

192 págs., R$ 76,00

Publicação Original Valor valor.globo.com
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