Como Sylvester Stallone superou adversidades para virar Rocky Balboa

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Fonte da notícia: Valor Valor

Sylvester Stallone tinha 30 anos quando “Rocky, um lutador” venceu três Oscars (melhor filme, direção e edição) em 1977, no entanto passou décadas sem ser levado a sério como ator e diretor por grande parte da crítica. Após o sucesso estrondoso do filme inspirado na sua própria trajetória, Stallone repetiu incansavelmente a fórmula em cinco sequências da história do boxeador, além de engatar outros filmes de ação sem a mesma inspiração e qualidade do longa premiado.

Muitos anos depois, em 2015, após uma carreira marcada por altos e baixos, Stallone, aos 69 anos, venceu o Globo de Ouro de melhor ator coadjuvante interpretando o mesmo personagem Rocky em “Creed: Nascido para lutar”, longa derivado (e com a mesma fórmula) da saga original. No filme, o ator americano assume o papel de treinador do filho de seu antigo rival, Apollo Creed (Carl Weathers), personagem inspirado em Muhammad Ali, o maior boxeador de todos os tempos.

É justamente até o lançamento do primeiro filme “Rocky” o recorte da autobiografia “Os degraus”. Quebrado e sem rumo, Stallone, aos 23 anos, em 1969, desembarcou na rodoviária de Nova York sob o eco de Woodstock, evento do qual sequer tinha notícia.

O cenário é Hell’s Kitchen, o bairro violento onde havia nascido com uma paralisia facial permanente no lado esquerdo do rosto, fruto de um parto negligente com fórceps em um hospital de caridade. A boca torta e a fala arrastada, que a indústria tentaria usar como desculpas para rejeitá-lo, tornaram-se algumas de suas marcas registradas.

Morando em um pequeno quarto no Sutton Hotel, ele lavava as roupas no próprio corpo durante o banho para economizar e sobrevivia com uma dieta de queijo cottage e ovos crus mantidos no peitoril da janela, rotina de escassez que mais tarde inspiraria os hábitos do protagonista de seu filme.

Os traumas de infância são frutos de uma convivência familiar hostil, do bullying nas escolas e das frustrações de seus pais. Convicta de que havia perdido sua chance de brilhar em Hollywood por causa do casamento, sua mãe o agredia verbalmente e o culpava pelo seu fracasso profissional.

Já o seu pai, um barbeiro que sonhava em ser cantor, canalizava seu complexo de inferioridade em ofensas e humilhações públicas. O livro mostra que as memórias de juventude de Stallone funcionaram como laboratório psicológico para sua cinematografia.

A opressão que viveu na prisão pavimentou o terreno para filmes como “Condenação brutal” (1989), assim como uma disputa universitária de queda de braço contra Peter Brown viria a se tornar a faísca para “Falcão: O campeão dos campeões” (1987). Um dos grandes méritos do livro é revelar o peso das decisões e os “acontecimentos guiados” que o transformaram em mito.

Stallone refletiu sobre o “efeito dominó” do destino e a obstinação necessária para segurar seu roteiro sob a exigência de ser o protagonista. O livro ajuda a entender como a mensagem de esperança e redenção de Rocky ofereceu um contraponto diante de obras de boxe focadas na autodestruição, como “Touro indomável” (1980), de Martin Scorsese.

Enquanto a crítica especializada frequentemente prefere o peso trágico de dramas de lutadores como “Menina de ouro” (vencedor de quatro Oscars em 2005), o público consagrou o herói inventado da Filadélfia. Até cinebiografias de personagens do ringue, como “Hurricane: O furacão” (1999) e “A luta pela esperança” (2005), protagonizados por Denzel Washington e Russell Crowe, respectivamente, jamais alcançaram o mesmo apelo de massa ou o impacto cultural da franquia de Stallone.

Em uma época de superexposição com o documentário “Sly” (2023); o reality show “A família Stallone” (2023); a atuação como protagonista ao lado da filha na série dramática “Tulsa King” (2022) e a cinebiografia “Eu sou o Rocky” (que estreia no dia 19 nos cinemas), Stallone relembra no livro a doçura e a vulnerabilidade exigidas por sua primeira esposa, Sasha, na composição de Rocky, personagem que ela criticou pela brutalidade.

O ator também revisita os fracassos, as humilhações e os episódios aparentemente banais que ajudaram a moldar sua visão de mundo. Ao receber o Globo de Ouro por “Creed”, em 2016, Stallone agradeceu ao seu “melhor amigo imaginário”, Rocky Balboa.

A frase resume bem o espírito de “Os degraus”. Há 50 anos, ao subir correndo a escadaria do Museu de Arte da Filadélfia, na clássica cena do filme, Stallone não apenas eternizou o seu personagem mais célebre.

Também consolidou o alter ego que o acompanharia pela vida. Os degraus - Sylvester Stallone.

Trad.: Carolina Simmer. Sextante.

288 págs., R$ 69,90

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