“A festa” faz lembrar uma pintura cubista, com perspectivas múltiplas e simultâneas, sem hierarquia das formas e sem ponto de fuga. A festa do título é uma lacuna narrativa: temos o antes e o depois.
E a própria identificação de gênero literário que consta da apresentação do livro é “Romance: Contos”, uma referência à relativa independência de seus nove capítulos. Clássico da literatura brasileira, esse elaborado jogo de armar chega aos 50 anos com uma edição comemorativa.
Também em 2026 seu autor, Ivan Angelo, completou 90 anos. No ano da publicação, 1976, a ditadura militar não dava sinais da “abertura” que o presidente, general Ernesto Geisel, prometeria depois.
A censura às artes e à imprensa estava em pleno vigor. No entanto, Angelo conseguiu publicar este livro que fala de grande parte dos pesadelos do regime: tortura, estupro, prisão arbitrária, delação, desaparecimento, interrogatório humilhante e abusivo, violência policial e agentes à paisana.
O autor, em trecho de entrevista reproduzido no posfácio do escritor Rodrigo Lacerda, atribui a publicação a uma crise específica do regime: a morte na prisão do operário Manoel Fiel Filho, considerado subversivo. Além disso, diz Angelo, como “A festa” havia sido premiado com o Jabuti, proibi-lo pegaria muito mal.
O escritor é também personagem em “A festa” e verbaliza a questão que enfrenta em seu íntimo, provavelmente sintetizando um dilema também de seus pares: “Imagino histórias que tenho vergonha de escrever porque são alienadas e tenho medo de escrever histórias participantes porque são circunstanciais”.
Angelo foi em frente e montou um espantoso mural que conjuga histórias de teor político com outras da esfera privada (muitas cenas de sexo extremamente bem escritas, o que é raro). “Entre as experiências formais e a literatura politizada, Ivan Angelo ficava com as duas”, escreve Lacerda no posfácio.
A forma escolhida, marcada por variações tipográficas e registros contrastantes de tempos e estilos, permite estabelecer relações com momentos-chave da história brasileira no século XX: cangaço, Canudos, migrações internas, tenentismo, uma breve biografia do torturador e chefe da polícia política de Getúlio Vargas, Filinto Müller; Segunda Guerra Mundial, transição do getulismo para a democracia, Ligas Camponesas.
O primeiro capítulo de “A festa”, intitulado “Documentário”, é uma colagem de notícias de jornais e depoimentos à polícia, todos fictícios, entremeados de trechos de livros de Euclides da Cunha, Gilberto Freyre, Rui Facó e Teodoro Sampaio sobre as secas e as precárias condições de vida nos sertões do Nordeste.
As notícias e os depoimentos tratam de um tumulto na praça da Estação, em Belo Horizonte, no mesmo dia da festa, 30 de março de 1970. O incidente se dá quando uma multidão de migrantes nordestinos chega à capital mineira e é impedida de descer do trem, cercado de policiais.
Surgem quatro focos de incêndio, e as forças de segurança entram em ação. O resultado: 4 mortos, 17 feridos e 216 presos.
Entre os mortos está o jornalista Samuel Fereszin e, entre os presos, o estudante de economia Carlos Bicalho, fichado como agitador. Fereszin inicialmente acompanha os acontecimentos como repórter, mas se envolve com os retirantes liderados pelo ex-cangaceiro Marcionílio de Mattos.
Indignado com a situação deles e com a postura do jornal em que trabalha, abandona a posição de observador e se engaja na revolta. Nos seis capítulos seguintes se entrecruzam personagens sem relações hierárquicas.
Entre eles: Andrea, a bela iniciante em jornalismo que se torna cronista social; Enio, o redator-chefe do jornal onde Fereszin trabalha (Ivan Angelo também é jornalista); Otávio Ernani, tecnocrata da Secretaria do Trabalho e chefe de Bicalho que toma um porre na festa, dá vexame e acorda com amnésia.
Roberto Miranda, artista plástico, é o dono da festa; Jorge, um advogado vaidoso e autocentrado; Juliana e Candinho formam um casal que fez o pacto de se amar até a morte, apesar das infidelidades; o pintor de paredes Ataíde e o burocrata bem-sucedido Fernando saem no braço num botequim (o nome do capítulo é “Luta de classes”).
Ataíde havia sido preso no tumulto da praça da Estação e, na sua ausência, a esposa foi estuprada por policiais. O último capítulo é “Depois da festa”, um índice de personagens e suas circunstâncias.
Como nem tudo se encaixa na arte cubista, aparecem no índice personagens que não estão nos capítulos anteriores. A festa - Ivan Angelo.
Arquipélago. 296 págs., R$ 89,90
Valor