Artistas e feministas transformaram o glitch, nome dado às falhas inesperadas que tiram uma máquina ou um programa do roteiro, num jeito de escapar das regras de gênero e raça. A ideia ajuda a entender também por que tanta gente não é ouvida quando fala da violência que sofre.
Todo mundo já passou por isso. A música que pula no meio do refrão.
O personagem de videogame que atravessa a parede. O aplicativo que trava e devolve uma tela de símbolos sem sentido.
O filtro de beleza que escorrega numa chamada de vídeo e, por um segundo, mostra o rosto que escondia. Em inglês, esse tipo de pane tem nome: glitch.
A palavra, ligada a termos do iídiche e do alemão que significam escorregar, se popularizou nos anos 1960 no jargão de engenheiros para designar falhas breves e imprevisíveis em sistemas eletrônicos. Com o tempo, passou a nomear qualquer momento em que um sistema sai do script e mostra o que normalmente fica escondido.
Para quem projeta máquinas, o glitch é um defeito a ser eliminado. Para muitos artistas, virou matéria-prima.
A artista e pesquisadora holandesa Rosa Menkman cria obras a partir de vídeos corrompidos. E o compositor americano Kim Cascone escreveu, em 2000, sobre uma “estética da falha” na música eletrônica feita de ruídos, chiados e cortes.
Esses artistas fazem uma pergunta simples e incômoda: o que a falha mostra que o funcionamento perfeito esconde? A pergunta ficou mais urgente.
Passamos boa parte do dia diante de telas programadas para não errar: o corretor que termina a frase por nós, a câmera que alisa a pele sem pedir licença, o filtro que afina o nariz e, em casos que viraram escândalo, clareia o rosto. Cada correção traz embutida uma ideia do que é certo, bonito e normal.
O glitch trava essa engrenagem por um instante e deixa ver que alguém decidiu o que conta como acerto. Em 2020, a curadora americana Legacy Russell levou essa pergunta para o terreno do corpo, do gênero e da raça.
No manifesto “Glitch Feminism”, ela conta que, adolescente, negra e queer, sentia o peso de ser vigiada o tempo todo por um olhar branco e heterossexual. Na internet encontrou uma saída: ali podia experimentar outros corpos, outras aparências, outros modos de ser homem ou mulher.
Para Russell, essa experiência foi um glitch, uma pane no sistema que lhe dizia quem ela tinha que ser. O argumento vai além da biografia.
Uma falha técnica revela que o programa não é natural, que alguém o escreveu. Do mesmo modo, os corpos que não cabem no masculino ou no feminino revelam que as normas sociais também foram escritas e podem ser reescritas.
Russell recorre ao poeta Fred Moten para lembrar que o irregular vem primeiro e que a norma é uma resposta posterior a ele A ideia conversa com a da filósofa Judith Butler.
Para ela, o gênero não é uma essência que trazemos de nascença, mas algo que se produz pela repetição de gestos, roupas e modos de falar. Para Russell, o glitch deixa de ser só um acidente da máquina e passa a ser também uma pessoa: o corpo que não cabe no formulário, que o sistema não sabe classificar e que, por isso mesmo, mostra onde o sistema falha.
Russell não idealiza a rede. Sabe que a internet também vigia, classifica e exclui.
Que seus sistemas carregam os preconceitos de quem os construiu. A aposta dela é ocupar as brechas.
Num ambiente que exige perfis coerentes, rostos reconhecíveis e categorias bem definidas, quem não se encaixa é tratado como erro. Russell propõe assumir esse lugar sem pedir desculpas, como recusa.
As normas não ficam na tela. Elas também definem quem merece ser ouvido.
O psicanalista húngaro Sándor Ferenczi descreveu, em 1933, um mecanismo cruel: o que torna uma violência devastadora não é só o que aconteceu, mas a recusa de quem está em volta em reconhecer que aconteceu — a criança abusada que procura um adulto e ouve que está inventando sofre duas vezes.
Ferenczi chamou essa recusa de desmentido. Quando quem desmente é uma sociedade inteira, falamos de desmentido social.
Acontece quando uma pessoa negra conta que foi seguida por um segurança numa loja e ouve que está exagerando. Quando uma pessoa trans descreve a agressão que sofreu e alguém pergunta o que ela fez para provocar.
A violência não deixa de existir por não ser reconhecida. Volta, em quem a sofreu, como sintoma ou como silêncio.
A artista potiguar Jota Mombaça desloca a célebre pergunta da pensadora indiana Gayatri Spivak, “pode o subalterno falar?”. Para Mombaça, o silêncio de quem está à margem é menos falta de fala do que falta de escuta.
Gente marginalizada fala o tempo todo. Quase nunca é levada a sério.
Esse desmentido aparece em delegacias, escolas e hospitais. Aparece também nos consultórios de psicologia e de psicanálise, onde deveria ser mais raro, e é dali que falamos.
Freud construiu seu método escutando tropeços: o nome que escapa, a palavra trocada, o sonho absurdo. Mas a tradição que ele fundou também produziu normas.
E, por muito tempo, tratou a homossexualidade como desvio e a experiência trans como doença. Um terapeuta que se pretende neutro pode repetir o desmentido em voz baixa, por exemplo quando pergunta, diante do relato de uma agressão racista, o que a paciente “tem a ver com isso”.
A filósofa da ciência Donna Haraway mostrou, em 1988, que nenhum saber vem de lugar nenhum: quem se diz neutro apenas esconde de onde fala. Uma clínica atravessada pelo glitch reconhece como reais as violências relatadas, admite de onde escuta e trata os próprios erros como parte do trabalho.
Butler lembra que abolir toda norma é impossível. O que se pode fazer é afrouxar seu aperto para que mais vidas se tornem vivíveis.
No livro “Não vão nos matar agora”, Mombaça conta uma cena banal. Saiu de casa com um vestido preto de florzinhas vermelhas, e uma conhecida, elogiando a roupa, comentou que era preciso ter um sentido muito forte de si para sair assim no mundo.
Mombaça respondeu que talvez fosse o contrário: era preciso ter de si um sentido muito quebrado. A resposta vale para além dela.
Num mundo que cobra rostos sem poros e histórias sem furos, um sentido quebrado de si pode ser a condição para sair de casa como se é. Para quem escuta, a lição é parecida: só ouve de fato quem aceita que sua imagem do mundo falhe por um instante.
O glitch é esse instante. * Monah Winograd é professora associada do Departamento de Psicologia da PUC-Rio
* Este artigo foi republicado de The Conversation sob licença Creative Commons. Leia o artigo original.
O Globo