Contos entram na mira de estúdios e streaming, dispostos a pagar caro pelo direito de adaptar

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

Quando Nicholas Binge terminou de escrever seu conto “Understudy”, ele não o enviou a uma revista nem o publicou em uma coletânea. Em vez disso, enviou-o diretamente para Hollywood.

Binge obteve US$ 1 milhão (R$ 5,4 milhões) em um acordo com a Netflix para transformar “Understudy” em uma série. E é possível que os leitores nunca cheguem a ver essa história no papel.

Binge é um conhecido romancista. Seus thrillers “Ascension” e “Dissolution” foram aclamados pela crítica, e seu próximo romance, “White smoke” — escrito sob pseudônimo — já interessa a Hollywood.

Ele não escrevia contos havia muito tempo. — A maioria das pessoas enfrenta uma enxurrada de rejeições ao tentar publicar contos — disse Binge em entrevista.

— Foi apenas o incentivo para escrever um conto especificamente para a indústria de cinema e televisão que me fez retomar essa prática. “Understudy” — que narra a história de um ator que descobre uma conspiração antiga após aceitar um papel em um drama policial coreano — desencadeou uma disputa acirrada entre estúdios, um fenômeno que faz parte de uma tendência crescente.

Em 2024, a Universal Studios adquiriu “Long lost”, conto do roteirista Colin Bannon, e escalou Steven Spielberg para a produção. No ano passado, o roteirista Harrison Query vendeu seu conto “Code black” para a Amazon MGM Studios.

Segundo o portal Deadline, ambos os acordos envolveram valores na casa dos sete dígitos. E um conto de Ursula Wills serve agora como base para o filme “A pescadora solitária”, estrelado por Olivia Colman e Alexander Skarsgard.

Addison Duffy, agente da United Talent Agency que participou da negociação do contrato de “Understudy”, afirmou que os contos são um formato que “quase todos os agentes do nosso grupo estão promovendo intensamente”. O formato conciso atrai executivos de estúdios, que, com agendas lotadas, precisam lidar com pilhas de roteiros.

A aquisição de histórias inéditas também poupa os produtores do transtorno de negociar os direitos de adaptação de romances. Narrativas curtas deram origem a sucessos de bilheteria e de crítica.

“O Segredo de Brokeback Mountain” foi adaptado de um conto de Annie Proulx; “Em chamas” (“Burning”), um filme de arte premiado, inspirou-se em um conto de Haruki Murakami. “Os pássaros”, “O vingador do futuro” e “Menina de ouro” foram todos baseados em contos.

Jake Gyllenhaal e Heath Ledger em "O segredo de Brokeback Mountain" Divulgação

Mas o mercado para coletâneas, que já foi vigoroso, esfriou. “Desde 2000, representaram, em média, apenas 5,5% dos contratos editoriais de ficção para adultos em qualquer ano”, escreveu Laura B.

McGrath, historiadora literária em “Middlemen”, seu livro sobre agentes literários. Agora, a ideia do “grande conto americano” está passando por uma releitura cinematográfica.

Nicole Weinroth, agente da William Morris Endeavor, reconheceu que as histórias mais propícias para uma adaptação raramente se parecem com aquelas publicadas na revista New Yorker. — Elas podem ser inteligentes, literárias e muito bem escritas, mas precisam ter um enredo e um motor narrativo — afirmou ela.

Detalhe fora do lugar Histórias do gênero costumam atender ao desejo de Hollywood por narrativas intensas e dinâmicas.

Algumas das mais disputadas, diz Weinroth, passam-se em um mundo que espelha o nosso, mas com um detalhe fora do lugar — como a língua alienígena em “A chegada” (“Arrival”), baseada em um conto de Ted Chiang, ou a amnésia do protagonista no suspense “Amnésia” (“Memento”), de Christopher Nolan, adaptado de um conto de seu irmão, Jonathan Nolan.

Essa demanda por ficção especulativa de curta extensão tem aberto caminhos para a descoberta de novos talentos. Joe Cote, professor na Dartmouth High School, em Massachusetts, jamais imaginou que “I pretended to be a missing girl” (“Eu fingi ser uma garota desaparecida”) — uma história policial que ele publicou no Reddit — chegaria a ser lida por alguém, quanto mais viralizar e resultar em um contrato para um filme, com Sydney Sweeney escalada para o papel principal.

Quando recebeu uma mensagem, em 2024, de um produtor de Hollywood, ele “achou que fosse um golpe” — até que ambos conversaram via vídeo: — Quase desmaiei.

Eu já teria ficado feliz com três curtidas no Reddit.

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
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