Voto maciço de eleitores árabes convulsiona a política israelense

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Fonte da notícia: Globo Globo

Os árabes conseguiram abalar Israel sem disparar um único tiro. O instrumento foi o voto.

A maciça participação árabe nas eleições desta semana convulsionou a política israelense, no que poderá ser uma transformação de longo prazo no país. Israel foi às urnas nessa terça-feira para eleger os 120 membros da Knesset (Parlamento).

Numa situação normal, a coalizão que tiver a maioria de 61 formará o futuro governo. O resultado da votação, porém, foi surpreendente.

A comunidade árabe representa cerca de 21% da população de Israel, de pouco mais de 10 milhões de pessoas, e 18% do eleitorado do país, segundo dados oficiais. Alguns grupos ultraconservadores defendem que essa importante minoria árabe é um risco à segurança do país e à manutenção de sua identidade judaica.

A participação política desses eleitores árabes costumava ser baixa: apenas 53% votaram nas eleições anteriores, em 2022, quando das coligações árabes elegeram 10 deputados. Desta vez, porém, a estimativa é de comparecimento de 80%.

Projeções indicam que eles terão 19 deputados, um recorde. Esse aumento expressivo da representação árabe no Parlamento dificulta terrivelmente a formação de um governo funcional e estável em Israel.

Isso porque quase todos os partidos políticos judaicos rejeitaram, antes da eleição, participar de uma coalizão de governo que inclua os partidos árabes. Assim, a maioria de 61 na Knesset precisa ser encontrada dentro de um universo fragmentado de nove partidos ou coligações judaicos, que terão ao todo 101 deputados.

Segundo projeções do jornal Times of Israel, a atual coalizão de governo direitista, liderada pelo premiê Benjamin Netanyahu, deverá ficar com 53 deputados. O bloco oposicionista, com 48.

Os demais 19 serão das coligações árabes. Assim, as opções agora para formar um governo são as seguintes:

A atual coalizão atrai um dos partidos do bloco oposicionista para obter maioria. Nesse caso, Netanyahu poderia continuar no poder.

O problema é que a atual coalizão, formada por cinco partidos e coligações, já tem dificuldade de manter um governo funcional. Trazer mais um membro tornaria ainda mais difícil formar uma administração coerente e coesa do país.

Além disso, os partidos oposicionistas rejeitam a permanência de Netanyahu; Os dois maiores partidos formam um governo de união nacional, junto com partidos menores.

Isso daria maioria no parlamento, mas provavelmente resultaria num governo pouco funcional, com partidos que têm programas bem diferentes, até excludentes em muitos aspectos. Um deles é a permanência de Netanyahu.

Um governo de minoria. A atual coalizão ou o bloco oposicionista poderiam tentar formar um governo sem maioria no Parlamento.

Isso é relativamente comum em sistemas parlamentaristas, mas costuma resultar em governos frágeis, que podem cair a qualquer momento. Trazer o apoio árabe para uma coalizão.

Ainda parece improvável que um número suficiente de partidos judaicos aceite a participação árabe no governo, mas alguma solução criativa, que implique apoio no Parlamento sem atuação no governo, pode ser tentada. Se nada disso funcionar, Israel acabará voltando às urnas em alguns meses.

Mas parece pouco provável que uma nova eleição resulte numa representação árabe menor no Knesset, especialmente agora que essa comunidade percebeu o poder do voto. E eleições repetidas não costumam resultar em alterações importantes na votação entre governo e oposição.

Ou seja, esse novo cenário político possivelmente veio para ficar. A alternativa seria impedir a participação dos partidos árabes nas eleições em Israel.

Houve uma tentativa de barrar esses partidos, mas a medida foi derrubada pela Suprema Corte israelense. Além de ser ilegal, impedir a eleição de representantes árabes na Knesset destruiria a imagem de Israel de ser a única democracia no Oriente Médio.

A dimensão do potencial de transformação que esse fortalecimento político árabe pode causar em Israel foi dada pela reação de Netanyahu aos resultados. O premiê acusou os partidos árabes, que, segundo ele, “apoiam o terrorismo e a destruição do Estado judeu”, de terem “roubado” a eleição, por meio de ações criminais envolvendo “suborno, ameaças, violência, falsificação e o uso de softwares proibidos para mobilizar os eleitores”.

Ele pediu uma investigação criminal, mas não apresentou provas da acusação. Seu partido anunciou que enviará às autoridades testemunhos e evidências das irregularidades.

Publicação Original Globo valor.globo.com
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