Aos 5 anos, o canadense Steven Guilbeault subiu em árvore para impedir que fosse cortada, o que acabou acontecendo apesar do esforço. Aos 31, no Greenpeace, escalou com um colega os 348 metros da CN Tower em Toronto, para protestar contra os retrocessos climáticos do Canadá e dos EUA.
Aos 52, então ministro do Meio Ambiente e Clima do Canadá, foi o arquiteto junto a Huang Runqiu, ministro da Ecologia e Meio Ambiente da China, do mais importante acordo internacional para a natureza, o Marco Global da Biodiversidade de Kunming-Montreal, durante a COP15, a conferência da ONU sobre biodiversidade.
Criado em 2022, o Marco é considerado para a natureza o que o Acordo de Paris é para o clima. Quatro anos depois, passa pelo primeiro balanço.
“Não avançamos na conservação marinha”, diz o político, que critica a queda na cooperação dos países ricos com os em desenvolvimento, e os cerca de US$ 500 bilhões ao ano que o mundo gasta em subsídios danosos à biodiversidade. “A natureza é ativo essencial para a prosperidade e a segurança econômica”, diz.
Há um ano, Guilbeault deixou o gabinete do primeiro-ministro Mark Carney ao discordar do projeto do governo de explorar mais petróleo e construir um oleoduto. “É míope pensar que podemos investir em novas infraestruturas de combustíveis fósseis e que elas ainda serão necessárias daqui a 10 ou 15 anos”, diz em entrevista ao Valor na sede da COP17, em Yerevan, na Armênia:
Valor: O que o senhor achou do resultado das eleições no Brasil? Steven Guilbeault: Ficamos aliviados, nos abraçando e chorando pelos corredores aqui em Yerevan quando saiu o resultado.
Tenho muitos amigos no Brasil, e todos estávamos muito preocupados. É uma boa notícia para a população brasileira.
Epara a democracia, o multilateralismo, para a conservação e proteção ambiental, e também para o combate às mudanças climáticas. Marina Silva é minha amiga, assim como muitas outras pessoas do governo.
Fiquei feliz. Valor: O senhor foi arquiteto do Marco Global da Biodiversidade, com metas para 2030.
Passamos do meio do caminho. Qual o balanço?
Guilbeault: Houve progresso na mobilização de recursos. Havíamos nos comprometido com mobilizar pelo menos US$ 200 bilhões de todas as fontes públicas e privadas.
Estamos perto. Também nos comprometemos a mobilizar pelo menos US$ 30 bilhões para o Sul Global, com meta intermediária de US$ 20 bilhões até 2025.
Análises iniciais indicam que chegamos perto dos US$ 20 bilhões em 2025. Mas ainda faltarão US$ 10 bilhões para chegar à meta de 2030.
Exigirá mais esforços. A conservação terrestre e marinha aumentou desde a COP15 em Montreal - mais em terra do que nos oceanos.
Considerando os compromissos assumidos pelos países, podemos supor que chegaremos a pelo menos 27%, talvez perto de 29%. Ainda precisamos fazer muito para alcançar a meta de 30% em áreas terrestres.
Guilbeault: A situação não é tão boa. Estamos projetando 12% de conservação até 2030, muito longe dos 30%.
Precisamos redobrar esforços. Felizmente, temos uma nova ferramenta para ajudar: o acordo BBNJ.
A primeira COP será em janeiro, nos EUA, e teremos ferramenta adicional para o alto-mar. Guilbeault: Sim, o Acordo sobre Diversidade Biológica Marinha em Áreas além da Jurisdição Nacional, também conhecido como High Seas Treaty [Tratado do Alto Mar].
O acordo de Montreal prevê proteger 30% das terras e dos oceanos. Quando falamos dos oceanos, não vemos muita conservação além do limite territorial de 200 milhas dos países, porque não há regras claras sobre como conservar o alto-mar.
BBNJ significa “biodiversidade além da jurisdição nacional”. Vai ajudar a ampliar a conservação em alto-mar, e é o que precisamos para alcançar a meta de conservar 30% dos oceanos.
Valor: E a primeira COP do tratado do alto-mar será nos EUA? Guilbeault: Na sede da ONU.
Não é o melhor lugar no momento, mas é preciso dizer que os EUA tiveram um papel muito positivo durante o governo Biden, contribuindo para que chegássemos a um acordo sobre o BBNJ em 2023. Não estão tendo agora, mas tiveram no passado e tenho certeza de que voltarão a ter no futuro.
Valor: Os países em desenvolvimento desconfiam dos números sobre o fluxo de recursos para as metas de US$ 200 bilhões e US$ 30 bilhões. Guilbeault: Organizações como a OCDE têm feito muito trabalho sobre clima e natureza.
Precisamos continuar para garantir que o dinheiro chegue onde deve. Parte do problema é que alguns países dizem: “Não estou vendo esse dinheiro que dizem estar sendo mobilizado.” Isso gera desconfiança no processo.
Precisamos trabalhar mais para garantir que o dinheiro chegue ao destino certo o mais rápido possível. Valor: Em recente artigo no Guardian, o senhor descreve três prioridades para reverter a perda de biodiversidade.
Uma delas é a conservação marinha. A outra, eliminar os incentivos prejudiciais à natureza, que ninguém parece resolver.
Guilbeault: Cerca de US$ 500 bilhões ao ano são destinados à destruição da natureza, na forma de subsídios governamentais para diferentes atividades, por exemplo, nos setores agrícola e florestal. O acordo de Montreal previa reformar esses subsídios.
Ouvimos governos do mundo todo dizerem que não têm muito dinheiro, que estão com o orçamento apertado. Mas esse dinheiro já está sendo gasto pelos governos - só que de uma forma que destrói a natureza.
Não estamos dizendo que devemos deixar de apoiar agricultores no Brasil, Canadá ou na Alemanha. Precisamos continuar a apoiá-los, mas de maneira que não incentive a destruição dos ecossistemas.
É verdade que não houve muito progresso porque poucos países realmente tentaram enfrentar o problema. Quero elogiar o trabalho da presidência armênia da COP17 nesse tema porque está colocando a questão no centro das negociações aqui em Yerevan.
Valor: Pode se chegar a algum resultado na Armênia na revisão de subsídios danosos à natureza? Guilbeault: Estão tentando chegar a acordo sobre um programa de trabalho, com diferentes tarefas que os países teriam de cumprir.
Primeiro, é preciso identificar quais são esses subsídios. Depois, avaliar como transformá-los.
Se começarmos a redirecionar apenas uma fração desses US$ 500 bilhões, chegaremos à meta de 2030 com facilidade. E podemos fazer isso nos próximos quatro anos.
Não estou dizendo que seja fácil, mas é possível. Valor: Em seu artigo, o senhor diz que a Assistência Oficial ao Desenvolvimento (ODA, um compromisso dos países ricos de destinarem 0,7% do PIB aos em desenvolvimento) está diminuindo, e foi bastante crítico.
Guilbeault: Sim. Os governos estão gastando centenas de bilhões de dólares com defesa e ignorando os perigos da perda de biodiversidade e das mudanças climáticas.
Tudo isso afeta a segurança de todos os países do mundo. O Reino Unido publicou recentemente um relatório muito interessante sobre o que a biodiversidade significa para a segurança britânica, elaborado por um general aposentado, não por um ambientalista.
Mais governos precisam fazer isso. Precisamos mudar a perspectiva e a forma como os governos encaram essas questões.
Menos ODA significa um mundo menos seguro e mais perigoso. Essa fórmula não funciona.
Valor: O senhor saiu do ministério do governo de Mark Carney em novembro de 2025, em protesto a projetos de exploração de petróleo e construção de oleoduto. Há perspectiva de o mundo se afastar dos combustíveis fósseis?
Guilbeault: Tenho grande respeito pelo primeiro-ministro Mark Carney, mas discordo dessa mudança que fizemos no Canadá em direção a maior produção de combustíveis fósseis. Não era o rumo que estávamos seguindo.
Valor: Ele retomou o projeto de explorar as Tar Sands, as areias betuminosas de Alberta, certo? Guilbeault: Sim, e também gás.
Sob o governo anterior (de Justin Trudeau), tínhamos nos comprometido a estabelecer um limite para as emissões do setor de petróleo e gás, uma regra para obrigar as montadoras a produzir mais veículos elétricos e estabelecemos um preço para a poluição. Eu também havia implementado regulamentações de eletricidade limpa para descarbonizar o setor elétrico.
Perdemos quase tudo isso no último ano e meio no Canadá. Quando deixei o cargo de ministro do Meio Ambiente, o Canadá estava no caminho para reduzir as emissões em pelo menos 36% até 2030.
Nossa meta era uma redução de pelo menos 40%. Estávamos nos aproximando.
Quando assumimos o governo, o Canadá estava a caminho de aumentar as emissões em 10%. Passou de projeção de aumento de 10% para projeção de redução de 36% até 2030.
Agora teremos sorte se alcançarmos redução de 10%, 12%. Perdemos muito do trabalho que estávamos fazendo para combater as mudanças climáticas, e o Canadá é gravemente afetado por elas.
Há secas nas províncias centrais e incêndios florestais enormes. Dezenas de milhares de pessoas foram evacuadas e cidades foram destruídas pelo fogo.
Existe a ideia de que podemos ignorar as mudanças climáticas e não sentir os efeitos, não é verdade. Há 25 anos, o Escritório de Seguros do Canadá estimou que o custo das mudanças climáticas no país era de US$ 300 milhões por ano.
Em 2024, foi de US$ 4 bilhões. Em 2025, US$ 6 bilhões.
Os canadenses já estão pagando pelos impactos das mudanças climáticas. Valor: O que está acontecendo nos outros países?
Guilbeault: Estamos vendo muito mais energia renovável sendo instalada no mundo todo. Há mais veículos elétricos, mais investimentos em transporte público, mais investimentos em eficiência energética.
É míope pensar que podemos investir em novas infraestruturas de combustíveis fósseis e que elas ainda serão necessárias daqui a 10 ou 15 anos. Curiosamente, antes de ser premiê, Mark Carney escreveu sobre ativos encalhados (stranded assets, ou investir em combustíveis fósseis que podem perder valor se o mundo quiser cortar emissões) e o que eles poderiam significar para governos e empresas.
Concordo com o que Mark Carney escreveu naquela época. Respeitosamente, discordo do que o primeiro-ministro está fazendo agora.
Valor: Sobre a crise do multilateralismo: as COPs ainda são úteis? Guilbeault: Seis meses antes da COP15 em Montreal, nem sabíamos se haveria a reunião, muito menos se seria bem-sucedida.
Acabou sendo chamada pelo secretário-geral da ONU de sucesso histórico. A Rússia havia invadido a Ucrânia alguns meses antes.
Às vezes, eu me sentava em reuniões como negociador ao lado de alguém da Ucrânia e de alguém da Rússia, e tínhamos de encontrar formas de chegar a um acordo, apesar de toda a tensão e de todas as atrocidades que estavam acontecendo. Acho que nós, como comunidade de nações, ainda temos a capacidade de nos reunir.
Às vezes, não é fácil. Nunca fui a uma COP em que alguém dissesse: “Vai ser muito tranquilo, vamos chegar a um acordo sem dificuldade.” É verdade que o multilateralismo está sendo desafiado neste momento.
Por isso, temos a responsabilidade de demonstrar que esse processo pode ser uma prova de que ainda funciona - uma forma de mostrar que ainda podemos chegar juntos a acordos difíceis. Valor: Uma das polêmicas desta COP é o desejo dos países ricos de ampliarem a base de doadores, mas os em desenvolvimento não aceitam.
Guilbeault: Há países em desenvolvimento que estão entre os mais ricos do mundo, mas se opõem à ideia de contribuir, como fazem outras nações ricas. Isso prejudica o mundo em desenvolvimento.
Não é o Canadá que está sofrendo com isso, nem a Alemanha. São os países do Sul que poderiam se beneficiar de mais investimentos.
A jornalista viajou à COP17 a convite do Instituto Climainfo
Globo