A eleição de Gina Hinojosa como governadora do Texas abre uma frente de incerteza para um dos maiores polos de construção de data centers de inteligência artificial dos Estados Unidos. A democrata derrotou Greg Abbott depois de defender uma moratória para novos projetos e regras mais duras sobre consumo de água, uso da rede elétrica, incentivos fiscais e custos repassados à população.
Hinojosa será a primeira mulher latina a governar o Texas e a primeira democrata a ocupar o cargo desde Ann Richards, na década de 1990. Segundo a Associated Press, a oposição aos data centers de alto consumo energético tornou-se um dos eixos de sua campanha, ao lado do custo de vida, das escolas públicas e das acusações de favorecimento a grandes empresas.
A mudança ocorre no estado que se tornou um dos principais destinos dos investimentos destinados a sustentar o avanço da IA. Um levantamento do Texas Tribune identificou pelo menos 248 data centers planejados no Texas, incluindo complexos que exigiriam sozinhos mais eletricidade do que algumas das maiores cidades americanas.
Entre os empreendimentos estão o Stargate, construído em Abilene para a OpenAI e operado com infraestrutura da Oracle, e o Project Matador, complexo da Fermi America nos arredores de Amarillo. Também há projetos de Google, Microsoft, Anthropic e outras empresas em diferentes estágios de desenvolvimento.
Água, energia e bilhões em incentivos Durante a campanha, Hinojosa pediu a suspensão de novos data centers até que o Legislativo estadual aprovasse proteções permanentes para as comunidades.
Sua proposta prevê permitir que autoridades locais participem da aprovação dos projetos, obrigar empresas a divulgar o consumo de água e eletricidade e impedir que os gastos com novas linhas de transmissão e geração sejam transferidos às contas residenciais. A governadora eleita também quer retirar os incentivos fiscais concedidos ao setor.
O Texas oferece isenção temporária do imposto estadual sobre equipamentos e outros itens utilizados por data centers que cumpram requisitos de investimento e criação de empregos. Dependendo do tamanho do projeto, o benefício pode durar até 20 anos, segundo a Controladoria do Texas.
O custo desses incentivos aumentou com a corrida pela infraestrutura de IA. O Texas deixará de arrecadar cerca de R$ 17,6 bilhões (US$ 3,2 bilhões) em dois anos por causa da isenção, de acordo com estimativas da Controladoria obtidas pelo Texas Tribune.
A pressão sobre a rede elétrica também passou a pautar a disputa. Em agosto, o órgão responsável pelo sistema texano analisava pedidos de conexão de data centers equivalentes a mais de 474 gigawatts, volume superior a cinco vezes o recorde de demanda de todo o estado.
Hinojosa acusa as empresas de avançarem sobre comunidades sem transparência suficiente. Sua plataforma determina que contratos de fornecimento de água possam ser revistos quando ameaçarem o abastecimento local e propõe proibir acordos de confidencialidade usados para esconder informações sobre consumo e incentivos.
Stargate, Google e um projeto maior que grandes cidades O crescimento dos data centers no Texas ganhou escala com projetos voltados especificamente ao treinamento e à operação de sistemas de IA.
Em Abilene, o Stargate pode alcançar uma demanda de 1,2 gigawatt, equivalente a cerca de um terço da eletricidade consumida pelas residências de Houston, segundo o Texas Tribune. A OpenAI afirma que o complexo utiliza um sistema fechado de refrigeração, no qual a água circula continuamente depois do abastecimento inicial.
A empresa diz que, quando estiver totalmente construído, o consumo anual do sistema de resfriamento será comparável ao de um prédio comercial de porte médio. Perto de Amarillo, o Project Matador foi projetado pela Fermi America para atingir até 17 gigawatts de capacidade energética.
A primeira locação assinada, com a empresa de computação em nuvem TensorWave, prevê uma instalação de 222 megawatts e receita contratada de aproximadamente R$ 35,7 bilhões (US$ 6,5 bilhões) em 15 anos, segundo o comunicado da Fermi. O Google, por sua vez, começou a construir com a Intersect o Meitner Energy Center, nos condados de Gray e Roberts.
O projeto combina um data center com nova capacidade de geração e utiliza resfriamento a ar para reduzir o consumo de água, segundo a empresa. Essas diferenças serão importantes na aplicação de eventuais regras.
Projetos já em operação, obras iniciadas e instalações ainda à espera de licenças ou conexão à rede não necessariamente receberiam o mesmo tratamento. A extensão de uma moratória dependerá das medidas adotadas pelo governo estadual e das leis aprovadas pelos parlamentares.
Abbott já havia determinado em setembro a interrupção de novas licenças ambientais até a conclusão de uma auditoria sobre o impacto dos data centers. Conduzido pelo operador da rede elétrica do Texas, o levantamento reúne informações sobre energia, água, incentivos públicos e efeitos locais dos projetos com demanda igual ou superior a 25 megawatts.
O relatório está previsto para 10 de dezembro. Mais Lidas
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