Há uma regra elementar na política e na guerra: antes de avançar sobre o território do adversário, é preciso assegurar o próprio. Nenhum comandante sensato expõe a retaguarda e deixa desguarnecidas suas trincheiras e linhas de abastecimento para conquistar terras alheias.
Donald Trump parece ter ignorado essa lição. Os clássicos são unânimes.
Maquiavel adverte, em O Príncipe, que conquistar não basta: quem não compreende as forças e os interesses dos povos que pretende dominar transforma a conquista em fonte permanente de instabilidade. É preciso saber conservar, e conservar exige força interna e legitimidade.
Clausewitz ensina que avançar além das próprias capacidades transforma ambição em vulnerabilidade. E Sun Tzu lembra que conhecer a si mesmo é condição para a vitória, porque a segurança das próprias posições precede qualquer ofensiva.
Trump fez exatamente o contrário. Confundiu projeção de poder com demonstração de força e transformou a política externa num espetáculo de intimidação: ameaças tarifárias, pressões diplomáticas, a Groenlândia tratada como imóvel à venda e países vizinhos sob ameaça.
Quis ressuscitar a Doutrina Monroe numa versão ainda mais explícita e agressiva de imperialismo, recolocando Washington como senhor do continente. Enquanto isso, a carestia, a insegurança econômica e a insatisfação com a guerra corroíam o terreno sobre o qual seu projeto deveria se sustentar.
E a resposta veio das urnas. O tsunami azul das eleições de meio de mandato é uma das derrotas mais contundentes já impostas a um presidente norte-americano em exercício.
Os democratas conquistaram o controle da Câmara e do Senado, avançaram nas disputas estaduais e venceram em redutos conservadores, inclusive em estados que haviam dado ampla vitória a Trump em 2024. A partir de agora, ele terá de enfrentar uma oposição capaz de bloquear sua agenda, fiscalizar o governo, abrir investigações e travar indicações.
O que deveria ser demonstração de força virou exibição de fragilidade. O presidente que pretendia redesenhar fronteiras e subordinar governos estrangeiros terá de negociar com adversários fortalecidos dentro de casa.
Há nisso uma ironia histórica: o homem que prometeu fazer a “América grande novamente”, impondo sua vontade aos outros países, recebeu dos próprios americanos um recado sobre os limites de seu poder. Quem não protege a retaguarda acaba surpreendido dentro das próprias fronteiras.
Mas essa derrota vai além de um revés pessoal ou de uma mudança na correlação de forças no Congresso. Somada à vitória de Lula no Brasil, ela impõe um freio ao avanço da extrema direita no mundo.
São dois sinais vindos das maiores democracias do continente de que o autoritarismo, o nacionalismo excludente e a política do ressentimento não são destinos inevitáveis. Talvez estejamos diante do início de uma nova onda democrática.
Uma reação de sociedades que começam a perceber que a promessa de força não substitui a capacidade de governar, que o medo não constrói futuro e que o nacionalismo usado como instrumento de dominação acaba isolando o próprio país. Se Maquiavel ensinou que o poder precisa proteger suas bases para sobreviver, a história talvez esteja prestes a ensinar a Trump e a seus seguidores uma lição ainda maior: nenhum projeto de poder se sustenta indefinidamente contra a vontade do próprio povo.
E a democracia, tantas vezes dada como derrotada, pode estar apenas começando a recuperar terreno.
Brasil 247