Visite seus idosos: um roteiro pelos bares e restaurantes centenários do Rio

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

A reabertura do Lamas, de 1874, na semana passada, me deu uma boa desculpa para organizar um passeio que venho querendo refazer sem muita pressa: visitar os bares, restaurantes, cafés, confeitarias e padarias com mais de 100 anos do Rio. Publiquei no X, o antigo Twitter, a lista com os 16 e fez sucesso.

Há programas para vários sábados, algumas escapadas durante a semana e um número de almoços que prefiro não calcular de barriga cheia. Os centenários são o primeiro resultado de uma pesquisa maior, ainda em andamento, sobre as casas cariocas com mais de 60 anos, numa tentativa quase obsessiva de descobrir os 100 endereços mais antigos do Rio.

Ando atrás de datas, velhos endereços e histórias de balcão, procurando também os velhinhos que não aparecem tanto nas fotografias da família: o restaurante conhecido por todo mundo no bairro e por quase ninguém fora dele. Enquanto o levantamento não termina, temos esses 16 para visitar.

Todos já atravessaram um século servindo comida, e seria falta de educação continuar dizendo que “qualquer dia” a gente passa lá. Comecemos pelo Centro, onde é possível envelhecer acompanhado desde o café da manhã.

A Casa Cavé, de 1860, a mais antiga da turma, oferece pastéis de nata para quem diz que tradição se respeita. A Confeitaria Colombo, de 1894, merece uma visita pelos doces e pelos espelhos, mesmo de quem acha que é coisa de turista: morar no Rio não deveria nos impedir de aproveitar a cidade.

A Padaria Bassil, de 1913, entra com as esfirras; a Leiteria Mineira, de 1907, com o mingau; e o Café Gaúcho, de 1921, com o pão com linguiça e o balcão que dispensa a negociação de uma mesa. Na Casa Paladino, de 1906, peça o triplo, de ovo, presunto e queijo.

É prudente vir sem almoço marcado. Se marcou, porém, há a sopa Leão Veloso do Rio Minho, de 1884, e a cozinha alemã da Casa Urich, de 1913.

O Amarelinho, de 1921, permite sentar diante da Cinelândia e descobrir que ainda sabemos ficar sem fazer nada. O Botequim do Joia, de 1909, tem tradição de paio com feijão; o Armazém do Senado, de 1907, de samba entre prateleiras de madeira.

Na Lapa, o Bar Brasil, também de 1907, e o Nova Capela, com raízes em 1903, ficam tão próximos que a escolha entre o chope de um e o cabrito do outro pode ser resolvida com duas visitas. Não precisamos criar rivalidades onde existe uma solução tão civilizada.

Fora desse circuito, suba a Santa Teresa para visitar o Bar do Gomes, oficialmente Armazém São Thiago, de 1919, com seus bolinhos de feijão-branco com calabresa. No Humaitá, o Aurora, de 1898, recebe também com bolinhos, mas de bacalhau.

E reserve uma fome maior para o filé à francesa do Lamas, nosso senhor de 152 anos, no Flamengo, de volta depois do incêndio. Estão aí os 16, embora cada leitor possa começar por onde a sede mandar.

Há mais gente chegando: a Confeitaria Imperial, em Botafogo, é de 1927. Até 2033, se nenhum deles nos deixar, seremos uma cidade de duas dezenas de centenários.

Convém aproveitar a companhia. O Bar Luiz, de 1887, passou dos 130 antes de fechar; o Restaurante 28, de 1910, chegou aos 105.

Já o Cosmopolita, de 1926, faria cem agora, mas sucumbiu na pandemia. Fica aquela vontade inútil de ter ido mais uma vez, pedido o prato de sempre, demorado um pouco além da conta.

Aceito companhia e indicações nessa pesquisa. Conhece uma casa com mais de 60 anos, sobretudo dessas que o bairro inteiro conhece e o resto da cidade ignora? Mande por e-mail ou pelo meu X (@thalescmachado), com alguma pista da idade.

E vá visitar seus idosos. É sempre melhor pedir a saideira do que descobrir que já tomou.

Nunca se sabe.

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
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