As ações da Alphabet despencaram 13% ontem (29), o que eliminou um recorde de US$ 500 bilhões de seu valor de mercado, depois que a controladora do Google informou que gastou muito dinheiro no último trimestre e revelou que as buscas em “modo IA” ameaçam os lucros de seu principal negócio de publicidade.
A queda das ações teve repercussões em todos os mercados e levou a Nasdaq, que tem forte concentração de empresas de tecnologia, a recuar 1,4%. Esta é a segunda maior perda diária de valor de mercado da história de Wall Street, só atrás da queda de US$ 593 bilhões sofrida pela Nvidia em janeiro de 2025.
O fluxo de caixa do grupo do Vale do Silício afundou ainda mais em território negativo nos três meses encerrados em setembro e chegou a um saldo negativo de US$ 9,1 bilhões, enquanto elevou seus gastos com inteligência artificial para mais de US$ 50 bilhões no trimestre. O número, que superou as previsões dos analistas, marca apenas o segundo trimestre de fluxo de caixa negativo desde que o Google abriu seu capital, em 2004.
E foi divulgado em um momento em que os investidores estão cada vez mais em dúvida sobre se o boom histórico de investimentos em IA valerá a pena. Philipp Schindler, diretor de negócios do Google, admitiu que as consultas em “modo IA” - que fornecem respostas em um texto conversacional em vez de com uma lista de links - reduzem o uso da busca tradicional e levado a uma “menor monetização” por meio de anúncios.
“É nas buscas que reside a preocupação”, disse David Wagner, chefe da área de ações da Aptus Capital Advisors. “Em um mercado temeroso de que os chatbots de IA canibalizem sua principal franquia, os investidores precisam ver uma aceleração dela e não uma desaceleração.”
A mudança para um cenário de uso intensivo de caixa foi causada por gastos de capital sem precedentes em IA, já que a Alphabet aposta todas as suas fichas no potencial transformador dessa tecnologia que ainda está no seu início. O Google revelou que assumiu compromissos futuros para centros de dados, arrendamento, equipamentos, energia e outras obrigações que passam de US$ 1 trilhão.
Para sustentar essa onda de gastos, a Alphabet contraiu dezenas de bilhões de dólares em dívidas e anunciou em junho planos de levantar cerca de US$ 85 bilhões em sua primeira oferta de ações em mais de duas décadas - uma grande reviravolta depois de anos de recompra de suas ações.
A receita da Alphabet no trimestre cresceu 25%, para US$ 127,6 bilhões, e ficou um pouco abaixo da previsão média de analistas compilada pela FactSet. O lucro líquido caiu 25%, para US$ 26,2 bilhões, na comparação com o mesmo período do ano anterior, um valor bem distante das expectativas dos analistas, que era de US$ 37,3 bilhões.
Esse número foi afetado por mudanças no valor dos investimentos da Alphabet, que incluem uma participação na SpaceX. A fabricante de foguetes de Elon Musk teve uma desvalorização de cerca de 4% no período, o que contribuiu para uma perda líquida de US$ 8,7 bilhões em investimentos em ações.
O lucro operacional, que não leva em conta perdas com investimentos, subiu 30%, para US$ 40,6 bilhões, mas ainda assim ficou abaixo das expectativas de Wall Street, que eram de US$ 43,2 bilhões. A empresa informou que um pagamento em dinheiro de US$ 5,2 bilhões, destinado a resolver uma multa regulatória europeia de 2018, contribuiu para o fluxo de caixa ainda mais negativo.
Há pouco tempo, o Google perdeu um recurso contra uma decisão judicial que concluiu que estava envolvido na prática de condutas anticoncorrenciais por meio de seu sistema operacional Android. Para contrabalançar o cenário desanimador na área de buscas, a divisão de nuvem da Alphabet dobrou suas vendas e chegou a US$ 30,7 bilhões.
O Google tem feito propaganda de sua estratégia de inteligência artificial de pilha completa (ou full-stack, que abrange toda a cadeia da tecnologia) como um diferencial estratégico importante, com o desenvolvimento de chips próprios, centros de dados e modelos de IA de ponta que depois são disponibilizados para bilhões de consumidores fiéis por meio de seus aplicativos e serviços já consolidados.
Seu executivo-chefe, Sundar Pichai, tem sido criticado pela lentidão em implementar a inteligência artificial e por permitir que uma empresa do porte do Google fique atrás de startups como a Anthropic e a OpenAI no lucrativo setor empresarial. Pichai afirmou que duas novas versões de seus modelos Gemini mais avançados - Argon e Carbon - reduziram a defasagem nas áreas de programação, finanças e segurança cibernética, e devem ajudar a Alphabet a recuperar sua participação de mercado.
(Tradução Lilian Carmona)
Valor