A “tsunami azul” nas eleições de meio de mandato dos EUA não decretou apenas um revés esmagador para Donald Trump e o Partido Republicano, mas selou uma derrota histórica para o setor de tecnologia, que nos últimos dois anos manteve relação simbiótica com o governo americano e o movimento Maga (sigla em inglês para Torne a América Grande Novamente).
Com a retomada da Câmara e do Senado pelos democratas, além da maioria dos governos estaduais, temas como regulação de inteligência artificial (IA), restrições a data centers e moderação de redes sociais devem ganhar força e colocar um freio no poder de influência e expansão das big techs.
Desde que Trump confirmou a vitória sobre Kamala Harris em 2024, o setor de tecnologia dos EUA se aproximou do líder republicano. Google, Microsoft, Amazon, Meta, Apple, Nvidia e OpenAI doaram cada uma US$ 1 milhão para o comitê de posse — a maioria das grandes figuras do setor, como Elon Musk e Jeff Bezos tiveram lugar de destaque na cerimônia.
Além de reformular o estilo pessoal, Mark Zuckerberg, da Meta, fez um aceno ao movimento Maga ao afirmar que “faltava energia masculina” ao mundo corporativo. O novo alinhamento deixou claro que o setor havia atrelado seus planos de expansão à promessa de restauração da hegemonia norte-americana, que envolvia a proteção contra regulação, o fortalecimento industrial interno e o fechamento de contratos militares.
Em seu primeiro dia na Casa Branca, Trump revogou uma ordem executiva do governo Biden que regulava IA, com exigências como testes de segurança, obrigatoriedade de padrões de proteção, combate à discriminação algorítmica e mitigação de impacto no mercado de trabalho. Para garantir o cenário favorável, Musk gastou nesta campanha US$ 474 milhões para eleger candidatos republicanos — US$ 224 milhões só no Texas.
Greg Brockman, da OpenAI, e sua esposa doaram US$ 50 milhões ao partido de Trump. Valia a pena: em setembro, diante de temores de que sistemas avançados de IA pudessem representar um risco global, Trump rejeitou leis federais rígidas e celebrou acordo de autorregulação com os principais nomes do setor.
Agora, isso pode mudar, com o retorno de discussões no Congresso sobre segurança de modelos, impacto no mercado de trabalho e governança estatal. — A autorregulação caducou.
A bandeira Maga de barrar regulações sob o pretexto de preservar o potencial econômico foi solapada. Talvez, a gente veja florescer uma estratégia de regulação que envolva não apenas o interesse das empresas, mas também os interesses sociais articulados, que vão contra a posição de expansão sem nenhum tipo de regulação dessas empresas — explica Alcides Peron, professor da Faculdade de Ciências Aplicadas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Jon Ossoff, reeleito senador na Geórgia, citou os riscos da IA no seu discurso da vitória, dizendo: “Os titãs do Vale do Silício constroem bunkers para si mesmos enquanto fazem alertas de que a IA cria ameaça de extinção humana.” Em diversos estados, os eleitores escolheram candidatos que prometeram enfrentar bilionários da tecnologia, e frear a expansão de data centers.
Gina Hinojosa, a primeira democrata a se tornar governadora do Texas desde 1991, defendeu uma moratória sobre novas infraestruturas do tipo, o fim dos incentivos fiscais para o setor e a exigência de que as empresas banquem integralmente seus custos de energia. A primeira latina a governar o Texas é a prova de que a chave para o freio nas gigantes não estará apenas na retomada democrata do legislativo federal, mas também na forte presença do partido no executivo estadual:
— Os EUA são o país que mais regula IA no mundo, mas essas leis são basicamente estaduais. Isso é extremamente importante porque governadores e parlamentares estaduais passam a dispor de enorme margem política para reavaliar concessões fiscais e impor limites severos às empresas — explica Gustavo Macedo, professor do Insper.
Um dos principais temas decisivos na campanha foi a rejeição a data centers — em julho de 2025, Trump assinou uma ordem executiva para acelerar o licenciamento de construção dessas infraestruturas. A resposta veio nas urnas: mais de 30 projetos de lei em diferentes estados para restringir os centros de dados foram aprovados.
Na manhã de ontem, o Goldman Sachs alertou os investidores para que esperassem “moratórias de curto prazo para data centers”, o que poderia afetar 45% da expansão da capacidade planejada para o território americano. Musk postou no X: “Os data centers no espaço parecem bastante atraentes no momento”.
A consultoria GLJ Research afirmou em nota para investidores que 13 gigawatts de capacidade de data centers — suficiente para abastecer 10 milhões de residências — estão imediatamente expostos aos riscos decorrentes da vitória de Hinojosa. Segundo os especialistas, o impacto regulatório, a perda de influência das big techs e o gargalo energético podem levar a uma perda generalizada de valor de toda a indústria da IA — o momento é especialmente sensível, pois o mercado começa a questionar se as companhias terão os retornos imaginados após volumes massivos de investimentos.
As avaliações de mercado de Anthropic e OpenAI, que miram ofertas iniciais de ações estimadas em US$ 1,5 trilhão, podem estar ameaçadas. Para alguns, o setor vai passar por uma correção de rota, enquanto outros acreditam em cenários mais extremos:
— O estouro da bolha da IA começou na noite desta terça. A economia dos EUA depende de oito empresas de tecnologia.
O mercado de ações está inflado por causa das empresas de IA. Por outro lado, as big techs necessitam de contratos governamentais bilionários e de uma garantia de ausência de regulação.
A gente sabe o que acontece com qualquer bolha: tudo o que precisa é um dos lados quebrar — avalia Luli Radfahrer, professor da Universidade de São Paulo (USP). Por outro lado, democratas e republicanos têm um inimigo em comum: a China.
O temor de domínio chinês da tecnologia pode levar os democratas, que têm histórico de políticas mais pesadas contra rivais asiáticos, a implementarem regulação pesada contra empresas como DeepSeek e Alibaba, enquanto buscam negociar um caminho menos pesado contra gigantes americanas.
A perda de força das big techs por meio do governo americano pode abrir uma janela de oportunidades para o governo brasileiro implementar sua agenda regulatória. Em seu discurso da vitória, Lula (PT) afirmou que vai regular as plataformas digitais.
Para especialistas, isso não significa apenas regulação de IA, mas também de mercados digitais e de moderação de conteúdo. Saber quando lançar mão disso será fundamental:
— O Brasil precisa esperar a hora certa para fazer qualquer coisa. Neste momento, podemos sofrer uma reação agressiva.
Quando as gigantes começarem a enfrentar um monte de batalhas dentro dos EUA, esse será o momento de apertar — afirma Radfahrer. Já em relação aos data centers, o governo Lula poderá fazer aquilo que prometeu no plano de governo: atração de infraestrutura e investimento com a garantia de salvaguardas ambientais e sociais, garantindo pesquisa e transferência de tecnologia.
Com as gigantes lutando contra a rejeição em casa, o país poderia elevar o poder de negociação.
O Globo