Tombo das bolsas após ‘midterms’ expõe fragilidade e ‘saída estreita’ das apostas em IA

Tombo das bolsas após ‘midterms’ expõe fragilidade e ‘saída estreita’ das apostas em IA - Foto
Fonte da notícia: Valor Valor

Não foi nada surpreendente o tombo sofrido pelas bolsas de Nova York na quinta-feira. Com os mercados globais bastante comprados na tese de inteligência artificial (IA) e com a crença de que os retornos poderiam vir rapidamente, a ampla vitória dos democratas nas “midterms” e a promessa de maior regulamentação da IA e de restrições a data centers jogam baldes de água fria em Wall Street.

O mercado estava atento à possibilidade de uma “onda azul” atingir as big techs desde o fim de setembro, como mostrou o Intraday. Ainda assim, a reação do índice Nasdaq e das ações das empresas de tecnologia, em particular as de semicondutores, às “midterms” não deixou de surpreender.

Na Ásia, os índices Nikkei, da Bolsa de Tóquio, e Taiex, de Taiwan, entraram em “bear market”. E, em Seul, que se tornou a capital do “trade” de semicondutores, a sessão foi amplamente negativa nesta sexta-feira de novo: o índice Kospi caiu mais 6% e, entre as principais ações, Samsung Electronics cedeu 6,35% e SK Hynix perdeu 10,44%.

“Que semana”, brinca, exausto, o chefe de estratégia do Deutsche Bank, Jim Reid, ao comentar o tombo das áreas mais expostas à IA nas bolsas globais. “Esses movimentos ocorrem enquanto os investidores continuam a avaliar a probabilidade de uma regulamentação mais rigorosa da IA após as ‘midterms’, com forte impacto sobre as ações mais expostas.

A queda do índice de semicondutores da Filadélfia o deixa agora mais de 38% abaixo do pico de junho”, observa Reid em nota enviada a clientes na manhã desta sexta-feira, em que mostra preocupação com alguns “cases” que já exibiam algum problema, como o das neoclouds. A CoreWeave viu suas ações caírem quase 10% ontem e o CDS de cinco anos atingiu o nível recorde de 1.289 pontos-base, em sinais ainda mais alarmantes sobre a possibilidade de um default.

“O que chamou atenção nos movimentos de ontem foi a ausência de um catalisador específico. Naturalmente, os resultados das eleições de meio de mandato estavam no centro das atenções, mas já eram conhecidos no dia anterior, quando as bolsas americanas registraram uma forte alta.

Embora algumas áreas mais defensivas tenham resistido melhor inicialmente, no fechamento apenas 73 integrantes do S&P 500 acumulavam ganhos no dia”, observa Reid. Ele nota, inclusive, que esse número é bastante próximo do observado na última vez em que o S&P 500 caiu nessa magnitude, em 10 de abril de 2025, ainda quando os mercados reverberaram os efeitos da guerra tarifária de Donald Trump.

Para Dan Kawa, sócio da We Capital responsável pela área de investimentos, a intensidade da reação dos mercados na sessão de ontem pode ter sido amplificada pelos desequilíbrios técnicos e por um processo de desalavancagem. Durante a sessão de quinta-feira, pipocaram diversos rumores sobre uma desalavancagem forçada de fundos, chamadas de margem e encerramento de algumas estratégias de investimento por parte de gestoras de recursos globais.

Para Kawa, esses fatores podem ter amplificado a piora do mercado. “Em julho, observamos uma dinâmica semelhante, que acabou se estabilizando após a notícia de que um grande fundo alavancado havia sido forçado a encerrar suas posições.

Desta vez, porém, os movimentos parecem mais prolongados e intensos, levantando dúvidas sobre a extensão do processo de desalavancagem e se os desequilíbrios técnicos já foram integralmente absorvidos pelo mercado”, enfatiza o executivo. Para ele, a dinâmica técnica dos mercados ainda é um vetor importante e, desde junho, hedge funds passaram por episódios sucessivos de alavancagem e recomposição de posições ligadas à IA.

“O padrão tem sido de movimentos cada vez mais frequentes e bruscos, refletindo uma combinação de elevada alavancagem, concentração de posições e pouca diversificação fora do complexo de IA.” “Embora a indústria tenha demonstrado resiliência e capacidade de absorver esses choques, começam a surgir sinais de que podemos estar nos aproximando dos limites de alavancagem que o mercado consegue sustentar”, alerta o executivo da We Capital.

“Até o momento, os ‘drawdowns’ da maioria dos fundos permanecem relativamente controlados, sem problemas sistêmicos relevantes. Contudo, a intensidade dos movimentos reforça a importância da disciplina de gestão de risco, do controle de alavancagem e, principalmente, da qualidade dos processos de seleção e monitoramento dos gestores”, diz Kawa.

Como curiosidade, inclusive, ele nota que, desde 1994, o setor de semicondutores registrou quedas de pelo menos 17,5% em cinco dias apenas em outros cinco episódios: a crise asiática; o default da Rússia; o estouro da bolha da internet; a crise financeira de 2008; e a pandemia da covid-19.

Publicação Original Valor valor.globo.com
Acessar no site oficial
Compartilhar: WhatsApp Facebook Telegram X
Curadoria e Apuração Editorial QTU Conteúdo jornalístico publicado em conformidade com os nossos Princípios Editoriais e política de transparência.
Conhecer a Redação →