247 – O papa Leão XIV iniciou nesta sexta-feira (6) sua primeira viagem à América Latina desde que assumiu o comando da Igreja Católica. O pontífice, de 71 anos, embarcou de Roma com destino ao Uruguai, primeira etapa de uma visita de 11 dias que também incluirá Argentina e Peru.
A viagem ocorre em um momento de transformação religiosa no continente, onde a proporção de pessoas que se identificam como católicas vem diminuindo, apesar de a crença em Deus permanecer disseminada entre a população. Segundo reportagem da agência Reuters, Leão XIV percorrerá aproximadamente 31 mil quilômetros em um dos roteiros internacionais mais extensos realizados por um pontífice nas últimas décadas.
A agenda foi mantida pelo Vaticano mesmo após uma cirurgia recente para a retirada de um câncer de pulmão. Além dos compromissos religiosos, a passagem pela região ocorre em meio ao crescimento das igrejas evangélicas e à expansão de formas de espiritualidade menos vinculadas às instituições tradicionais.
O itinerário prevê dois dias no Uruguai, três na Argentina e quase uma semana no Peru. Durante esse período, o papa participará de encontros com autoridades políticas, celebrará missas ao ar livre, terá reuniões com jovens e visitará comunidades isoladas na região dos Andes, com deslocamentos previstos de helicóptero.
A escolha dos destinos reúne países com diferentes características religiosas. O Uruguai é conhecido pela forte tradição secular, enquanto a Argentina é a terra natal do papa Francisco, antecessor de Leão XIV.
Já o Peru ocupa um lugar especial na trajetória do atual pontífice, que viveu no país durante anos, atuou como missionário e bispo e adquiriu a cidadania peruana. Catolicismo perde espaço na América Latina
Embora continue concentrando a maior população católica do planeta, a América Latina passa por uma mudança significativa na composição religiosa. Uma pesquisa realizada em 2024 pelo Pew Research Center, em seis dos países mais populosos da região, identificou redução da proporção de adultos que se declaram católicos em todos os países analisados, na comparação com os resultados de uma década antes.
O levantamento mostrou que aproximadamente um em cada cinco adultos foi criado dentro do catolicismo, mas posteriormente deixou de se identificar com a Igreja. Para Kirsten Lesage, pesquisadora associada do Pew Research Center, a tendência está presente em diferentes sociedades latino-americanas.
“Observamos um declínio em todos os países que pesquisamos em 2024”, afirmou. A especialista ressaltou, entretanto, que o afastamento institucional não significa necessariamente uma diminuição equivalente da religiosidade.
“Há menos pessoas se identificando [como católicas]”, disse. “A região ainda é muito religiosa, e as pessoas são muito religiosas sob diversos critérios.”
Os resultados indicam que a crença em Deus continua forte, inclusive entre pessoas que não se identificam com nenhuma religião organizada. Jovens buscam novas maneiras de exercer a fé
Uma das mudanças mais importantes ocorre entre as gerações mais jovens. Segundo a pesquisa do Pew Research Center, adultos com 50 anos ou mais apresentam maior probabilidade de se identificar como católicos do que pessoas entre 18 e 34 anos nos seis países pesquisados.
O fenômeno acompanha uma transformação na maneira como diferentes grupos sociais se relacionam com a espiritualidade. Na Argentina, o padre Jorge Reinaudo, responsável por uma paróquia em Córdoba, utiliza as redes sociais para alcançar públicos que nem sempre participam regularmente das atividades religiosas presenciais.
Ao longo de quase uma década, o sacerdote reuniu aproximadamente 800 mil seguidores em diferentes plataformas digitais, nas quais publica vídeos que combinam humor, referências bíblicas e assuntos populares na internet. Entre os conteúdos produzidos estão brincadeiras sobre costumes religiosos e superstições associadas à seleção argentina de futebol.
Reinaudo observa que muitos jovens demonstram interesse por retiros espirituais, práticas de silêncio e experiências inspiradas em tradições como o budismo e o hinduísmo. Essas atividades, em alguns casos, são combinadas com elementos do cristianismo, como o uso do rosário e da água benta.
“Não pertencer a uma religião não significa que as pessoas não tenham fé. Significa que vivem a fé à própria maneira”, afirmou o sacerdote.
Desconfiança nas instituições também influencia afastamento Além das mudanças culturais, experiências negativas dentro de comunidades religiosas aparecem entre os fatores que levam algumas pessoas a se distanciar das instituições.
O contador hondurenho Marverick Ruben Mendoza Oseguera, de 31 anos, relatou ter começado a questionar sua vinculação ao catolicismo após presenciar situações problemáticas em ambientes religiosos. Criado na tradição católica, ele afirmou que episódios de violência contra mulheres e a percepção de que integrantes do clero protegiam agressores afetaram sua confiança na instituição.
“Experiências como essas minaram a confiança e a fé de muitos jovens, inclusive a minha”, declarou. Apesar de não se identificar mais como católico, Oseguera continua participando semanalmente de uma adoração eucarística transmitida pela internet.
Segundo ele, a prática proporciona conforto e o ajuda a lidar com a ansiedade. “Parece mais que estou passando um tempo com um amigo próximo”, afirmou.
O caso ilustra como a participação em práticas religiosas pode permanecer presente na vida de pessoas que deixaram de se reconhecer formalmente como integrantes de determinada instituição. Crescimento evangélico altera cenário religioso
A redução da identificação com o catolicismo também ocorre em paralelo à expansão das igrejas evangélicas, especialmente das denominações pentecostais. No Brasil, aproximadamente 27% da população se identifica como evangélica, segundo os dados mencionados na reportagem.
O pentecostalismo chegou à América Latina há cerca de um século, impulsionado pela atuação de missionários norte-americanos. Desde então, expandiu sua presença em bairros urbanos, comunidades populares e cidades de diferentes tamanhos.
Atualmente, igrejas pentecostais fazem parte da paisagem religiosa de grande parte do continente, com cultos, atividades comunitárias e práticas de evangelização. Miguel Pastorino, professor da Universidade Católica do Uruguai e pesquisador de filosofia da religião, considera que a capacidade de estabelecer vínculos pessoais com os fiéis ajuda a explicar parte dessa expansão.
“Eles [os pentecostais] vão direto ao testemunho pessoal, como fazia a Igreja primitiva”, afirmou. O pesquisador também apontou diferenças entre as estratégias adotadas pelas denominações evangélicas e pela Igreja Católica nas comunidades de menor renda.
“Quando a Igreja Católica vai aos bairros pobres, muitas vezes realiza um grande trabalho social, mas faz muito pouca evangelização.” Religiosidade individual desafia instituições tradicionais
As transformações religiosas ocorrem em meio a mudanças sociais mais amplas na América Latina, incluindo a ampliação de direitos relacionados ao aborto, à eutanásia e ao casamento entre pessoas do mesmo sexo em diferentes países. Pastorino, entretanto, considera inadequado atribuir diretamente a redução do número de católicos a essas mudanças.
Para ele, a valorização da autonomia individual e a possibilidade de escolher diferentes práticas espirituais têm alterado a relação das pessoas com as religiões organizadas. “Há uma tendência crescente em direção à religiosidade ‘à la carte’, na qual as pessoas criam o próprio cardápio espiritual, sem sentir a necessidade de se filiar a nenhuma instituição específica”, explicou.
Essa transformação representa um desafio para a Igreja Católica, que precisa lidar não apenas com a concorrência de outras denominações, mas também com o crescimento de uma espiritualidade praticada fora das estruturas religiosas convencionais. Visita do papa desperta expectativa de aproximação com fiéis
Apesar das dificuldades enfrentadas pelo catolicismo, lideranças religiosas latino-americanas acreditam que a visita de Leão XIV pode estimular a participação de pessoas que se afastaram da Igreja. Em Montevidéu, no Uruguai, o padre Pablo Coimbra, responsável pela paróquia Nuestra Señora de Guadalupe, no bairro de Casavalle, relatou mudanças na movimentação da comunidade antes mesmo da chegada do pontífice.
Segundo ele, aumentaram tanto a presença de fiéis nas missas quanto a procura por sacramentos, especialmente batismos e primeiras comunhões. O papa tem uma visita prevista ao bairro durante o segundo dia de sua passagem pelo país.
“A visita do papa talvez tenha despertado uma lembrança, algo profundo no coração das pessoas em relação à fé e ao sentimento de pertencimento à Igreja”, afirmou Coimbra. A expectativa é que a viagem reúna milhões de pessoas nas celebrações previstas para os três países, oferecendo ao pontífice a oportunidade de estabelecer contato direto com comunidades de diferentes tradições e realidades sociais.
A passagem pela América Latina também terá significado particular no Peru, onde Leão XIV desenvolveu parte importante de sua trajetória religiosa antes de assumir o pontificado. Ao longo dos 11 dias de compromissos, o papa encontrará uma região que permanece profundamente religiosa, mas na qual a identificação com o catolicismo, especialmente entre as novas gerações, já não apresenta a mesma intensidade observada nas décadas anteriores.
Brasil 247