‘Temos que aprender a rir com os outros’, diz autor de peça teatral com ‘ofensas carinhosas’

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Fonte da notícia: Valor Valor

O escritor, dramaturgo e diretor Flávio Marinho nem olha para o cardápio do Margutta, tradicional restaurante italiano na divisa entre os bairros Ipanema e Leblon, na zona sul carioca. Pede o risoto primavera, um clássico regado a azeite com trufas brancas.

Marinho, que aos 71 anos completa 40 anos de carreira, é uma pessoa de hábitos pouco mutáveis. Morou no Posto 6, em Copacabana, por praticamente toda a vida - mudou-se há 11 meses para Ipanema; vai aos mesmos restaurantes e bares; e tem amigos de toda a vida.

As amizades de longa data inspiraram o mais recente trabalho do autor. No palco do Teatro Vannucci, na Gávea, três velhos amigos e um jovem dublê de personal trainer e garçom conversam em um bar e trocam pequenos insultos, como velhos amigos sempre fazem, desde que sejam bem-humorados e carinhosos em suas ofensas.

“Víboras - A arte do insulto”, em cartaz até fevereiro, surgiu de conversas de bar entre Marinho e alguns amigos próximos, entre eles, três dos que agora estão no palco: Aloísio de Abreu, Alice Borges e Marcos Breda. Guilherme Dellorto, o personal/garçom, é o novato da turma.

As ofensas carinhosas trocadas no palco nos dão até vontade de memorizar algumas para usar em momentos adequados. Frases como “adoro seu senso de humor ralo e banal”, “você tem tanto talento para errar que devia cobrar ingresso; ficaria milionário” ou “inteligência vem de berço e você, nitidamente, dormia no chão” são alguns exemplos.

Marinho começou a vida profissional nas redações de jornais cariocas, nos anos 70. Passou pela Tribuna da Imprensa, Última Hora e O Globo, onde escrevia críticas teatrais quando o titular, Gilberto Braga, precisava se ausentar.

Dos tempos de crítico, que duraram até meados dos anos 80, Marinho tem saudades da efervescência cultural e do alto nível de seus “concorrentes”. No mesmo Globo, além de Gilberto Braga, Bárbara Heliodora; no Jornal do Brasil, Yan Michalski e Macksen Luís; em São Paulo, Sábato Magaldi e Décio de Almeida Prado.

“Sou de um tempo tão louco, que, às vezes, quando era um espetáculo de peso, fazíamos críticas divididas em parte 1 e 2; em outras, voltávamos um tempo depois para fazer uma revisão crítica.” Nesses tempos, ele relembra, as sessões começavam por volta das 21h, 21h30.

Chegava ao jornal à meia-noite, na balbúrdia da redação, e escrevia. Mas, por causa da dinâmica de produção dos jornais, onde os cadernos culturais são concluídos mais cedo para irem para a gráfica, as críticas de estreias teatrais ou de concertos eram publicadas no primeiro caderno, onde houvesse espaço, entre reportagens sobre o aumento da gasolina ou um acidente de trânsito.

“Os leitores viam as críticas no meio dos assuntos importantes e percebiam que o teatro também tinha importância”, reflete. A falta de críticos, diz o autor, levou a um empobrecimento muito grande de reflexão.

“Você pergunta a uma pessoa o que achou de uma peça e ela responde: ‘legal’. Mas legal por quê? Diz uma frasezinha.

E o máximo que você consegue é um ‘eu ri muito’.” Flávio Marinho é um típico exemplar da classe média carioca dos anos 50.

Pai militar, mãe dona de casa, mas com veleidades artísticas (tocava piano e pintava), jamais foi levado ao teatro infantil pelo casal. “Eles não gostavam, não estimulavam”, conta.

Um pouco maior, ele ia com o tio Rozendo, irmão do pai, e com a avó de uma amiga, uma alemã que as crianças chamavam de tia Oma (Oma é avó em alemão). Mas não para peças infantis.

“Essas duas entidades me carregavam para ver teatro adulto. Foi assim que eu vi Fernanda Montenegro fazendo ‘Homem do princípio ao fim’ [em 1966] e Bibi Ferreira.”

Menorzinho, a responsável pela formação cultural era a babá. “Eu me entendia mais com ela, que me levava ao cinema.

Os musicais fazem parte da minha vida graças a ela.” No colo da babá, em um cinema lotado, assistiu a “La violetera”, um dramalhão espanhol estrelado por Sarita Montiel. “Eu fiquei doidinha.

Um filme tristíssimo, e eu lá, no colo da babá.” O cinema foi a primeira paixão, antes mesmo do teatro. Aos 17 anos, “aquela péssima idade em que as pessoas insistem em saber o que você quer fazer o resto da vida”, disse aos pais que queria ser crítico de cinema.

“Eles me olharam como se eu fosse louco. Meu pai perguntou se eu queria morrer de fome.

Não, mas queria ser crítico.” Ele era fluente em inglês, francês e espanhol.

Pensou então em ser diplomata, mas descobriu que precisava fazer faculdade de direito. Para a felicidade dos pais, entrou no curso.

Estava no segundo ano quando foi chamado pela colunista social Gilka Serzedelo Machado para dividir com ela a página que escrevia diariamente na Tribuna da Imprensa. “Gilka não aguentava mais preencher sozinha aquela página.” Na sua metade de página, Marinho escrevia o que lhe vinha na telha sobre cinema, teatro, música, tudo.

E começou a receber convites para escrever para títulos como Vogue e Manchete. Decidiu que ia largar a faculdade de direito.

“O coronel teve um ataque. Não deixou, e eu fiz a faculdade até o fim”

A vida, naquele início dos anos 70, era “esquizofrênica”, diz. Antes do convite para a Tribuna da Imprensa, acordava às 6 da manhã, vestia terno e gravata, pegava o fusquinha 69 e ia para a UEG (Universidade Estadual da Guanabara, hoje Uerj), no Catete.

Ao meio-dia, comia um pastel na esquina, voltava ao fusquinha e ia trabalhar no Tribunal de Contas do Estado, no centro da cidade, onde tinham lhe arrumado um emprego. Quando saía do Tribunal, ia para o curso de literatura que fazia na Aliança Francesa.

“O curso era muito puxado. Estudávamos Corneille, Racine E eu adorava porque era o momento em que eu podia tirar a gravata.”

Uma senhorinha, colega de turma, perguntou se ele gostava do curso e o que fazia. Ele contou o que estudava e onde trabalhava.

A resposta: “Meu filho, então tem alguma coisa muito errada na sua vida”. Marinho viu que ela tinha razão: sofria o dia inteiro e só era feliz durante as aulas.

Tentou escapulir mais uma vez da faculdade. Mais uma vez, os pais não deixaram.

Terminou o direito, uma licenciatura em inglês e, então, fez comunicação. A função de jornalista e crítico durou até 1986.

Marinho andava inquieto, com vontade de fazer outras coisas quando recebeu um convite para escrever o roteiro de um show de Evinha - do Trio Esperança, de músicas como “Cantiga para Luciana”, “Teletema” e “Casaco marrom”. Pensou: “Vou fazer e ninguém vai saber”.

Enganou-se. O show na boate People, famosa nos anos 80, foi um sucesso.

“Fomos parar até no ‘Fantástico’.” O capítulo jornalista se encerrou. A partir daí, veio uma enxurrada de textos, shows, traduções, produções...

Wolf Maia o chamou para traduzir um sucesso off-Broadway, o musical “Noviças rebeldes”, que ficou 12 anos em cartaz. No ano seguinte Maia encomendou um texto original para ser encenado por Claudia Raia: “Splish, splash”, outro sucesso.

“Comecei a achar que tinha jeito para esse negócio”, diz. Na sequência vieram, entre outros trabalhos, “Abalou Bangu”, “Além do arco-íris”, “Judy: O arco-íris é aqui”, “Não me entrego, não!” (o monólogo escrito para Othon Bastos) e “2 ou 3 coisas que eu sei delas”, onde o escritor estreou como ator.

“Muito do sucesso de ‘Não me entrego, não!’ devo à Fernanda Montenegro. Ela foi assistir, abraçou o Othon e disse: ‘Juntos temos quase 200 anos’.

Aquilo viralizou num grau! Fomos parar no ‘Fantástico’ de novo!” A Fernanda, diz Marinho, deve também sua estreia como ator.

A atriz assistiu a uma entrevista que ele dera ao Canal Curta e ligou para ele (“de madrugada, ela só me liga de madrugada”) dizendo que ele tinha que subir ao palco para contar suas histórias. A ligação rendeu “2 ou 3 coisas que eu sei delas”, onde conta um pouco de sua história de vida.

Rendeu também maior compreensão com o trabalho dos atores. “Cabeça de ator é muito difícil, e eu passei a entender melhor os mecanismos.

É um nível de exposição muito grande, as pessoas estão olhando de sapato ao fio do cabelo e estão te escaneando o tempo todo. Não adianta você tentar fingir que não está preocupado.”

O que ocupa o escritor é encontrar formas de humor que não sejam fáceis, com piadinhas preconceituosas, um humor fácil de rir do outro. “Temos que aprender a rir com os outros.” A saída que encontrou, diz, foi rir de si mesmo e fazer o mesmo com seus personagens.

Em determinado momento de “Não me entrego, não!”, Othon Bastos conta que chegou a Salvador achando que ia fazer grandes papéis. Aí a memória fala: “Mas foi pro coro, né?”.

“É interessante a pessoa ter coragem de se expor e saber rir de si mesmo. Acho que isso é a saída para o humor nos nossos tempos.

Sem esquecer que o humor é uma ciência matemática. Uma palavrinha a mais, e a piada não acontece.”

Na TV, escreveu para programas como “Malu mulher”, “Escolinha do Professor Raimundo”, “Sai de baixo”, “Pé na cova”, “Brasil a bordo”, “Som Brasil”, “Viver do riso” e “Além da ilusão”. Nunca fez cinema, sua primeira paixão.

Até tentou, mas... “Cinema é uma panelinha, uma turma muito fechadinha.

O pessoal do cinema não vai ao teatro; o pessoal do teatro vai ao cinema”, diz. Tentar, ele tentou.

Há alguns anos surgiu a ideia de transformar uma de suas peças, “Cauby! Cauby!”, com interpretação notável de Diogo Vilela, em filme. Marinho foi chamado para fazer o roteiro.

A direção seria de Carlinhos Diegues, sobrinho de Cacá, que faria a supervisão do projeto. “Fomos para uma reunião com a Renata Almeida Magalhães [produtora, casada com Cacá], eu topei, escrevi, e em outra reunião, para leitura, o Cacá adorou e queria começar logo a produção.”

O único roteiro cinematográfico escrito por Flávio Marinho, no entanto, continua inédito. “Por falta de grana, não saiu”, lamenta-se, ao mesmo tempo que diz que talvez não se adaptasse à realização de um filme.

“Acho que o processo criativo de realização de um filme ia me irritar, me incomodar. Eu venho do jornalismo.

Estou acostumado a escrever uma coisa num dia, sair no jornal no dia seguinte e todo mundo comentar. No teatro, você escreve uma peça, passa alguns meses ensaiando e vai pro palco.

No cinema demora muito. E sabe o que mais? Eu fico muito feliz no teatro, dirigindo peças, shows.”

Cita um documentário sobre Othon Bastos, que está sendo preparado a partir de “Não me entrego, não!”. “Tem dois anos que estão fazendo a produção, captando imagens, estudando...

Eu não tenho essa paciência, minha ansiedade não ia segurar esse tempo todo de espera.” Mas voltemos às maldades, algumas vezes nem tão carinhosas, de Flávio Marinho.

O escritor é só elogios para a amiga Luciana Braga, a quem convidou para escrever a orelha do livro com o texto de “Víboras”, lançado pela editora Cobogó. Mas o elogio vem com comentários ferinos para a categoria das atrizes.

“Luciana é muito inteligente. São poucas as atrizes que são inteligentes e talentosas.

Geralmente são só talentosas, não muito inteligentes, ou então só inteligentes, não muito talentosas. A Luciana consegue ser as duas coisas.”

Aloísio de Abreu, outro amigo querido, não escapou de uma pequena (e bem-humorada) maldade. Em “Víboras” ele interpreta um ator/cantor que relembra um tempo de fama que nunca teve.

A intenção não era fazer da peça um musical, mas com um elenco que também canta muito bem “Aloísio disse que queria cantar, na peça, ‘Love Is All’ [de Malcolm Roberts, sucesso estrondoso no Festival Internacional da Canção de 1969 e que ficou em terceiro lugar].

‘Você é doido?’, eu perguntei. Ele falou tanto, que eu disse que ia dar um jeito na história.”

Marinho cedeu, mas incluiu na mesma cena “Cantiga para Luciana”, vencedora do festival daquele ano e interpretada por Evinha. Foi também uma forma de homenagear a cantora e o fato de que, ao fazer o roteiro do show dela na People, há 40 anos, sua carreira mudou.

O público adora a cena e canta junto. E continua cantando no final porque, provocador dos amigos, Marinho incluiu outras duas músicas de Evinha para acompanhar o público na saída do teatro: “Casaco marrom” e “Teletema”.

Escore final: Evinha 3 x Malcolm Roberts 1. Outro elogio ao estilo Marinho é dedicado à atriz Louise Cardoso.

O autor conta que, no início da temporada de suas peças, vai todos os dias para tomar conta da turma. “Ator é que nem criança, se você não está lá para colocar ordem, eles acham que estão no recreio e começam a criar coisas.” A não ser que, no elenco, tenha alguém que faça o papel de inspetor da escola.

“A Louise Cardoso é assim. Ela é germânica.

Com ela ninguém mija fora do penico. Se alguém inclui algum caco, ela olha atravessado.

Ela é quase uma babá eletrônica.” Apesar da enorme experiência em teatro e TV, Marinho nunca fez uma novela como autor principal - foi colaborador em algumas.

Diz nunca ter pensado em nisso. “É um trabalho miserável, você não consegue fazer mais nada na vida.” Mas sobra uma fisgadinha para Gilberto Braga, morto em 2021 e amigo de adolescência no Posto 6.

“Ele nunca me convidou para trabalhar com ele.” Miguel Falabella é outro grande amigo, com quem conversa todos os dias - Falabella mora atualmente em Lisboa.

Há quase um ano os dois trabalham em um novo projeto: uma adaptação do romance “Washington Square”, de Henry James, que rendeu um Oscar de melhor atriz para Olivia de Havilland em 1950, no filme “A herdeira”. Quando Falabella o convidou, Marinho relutou em aceitar.

“Disse para o Falabella que ele estava louco, o texto já foi adaptado para a Broadway, mas tem dez personagens, não dá para fazer aqui.” O amigo sugeriu então uma adaptação com cenário único e quatro personagens. “Como assim? Jesus Cristinho, como eu vou fazer isso?”

Um insistia em não fazer, o outro não desistia de convencer. Até que, conta Marinho, o amigo deu a última cartada: “Ele jogou a banana para o macaco.

Disse que queria que o papel da herdeira fosse da Luciana Braga. Eu comecei a imaginar outra pessoa escrevendo para ela e veio um ciúme, uma inveja...

Topei escrever. E ele me convenceu também a dirigir”.

Falabella fará a produção. “Avisei a ele que é uma produção cara.

Quero escadaria, lustre de cristal, baixelas de prata, porque eles são muito ricos!” Três dos quatro atores já estão escalados.

Luciana para o papel da herdeira; Falabella, o pai que tenta impedir que os caçadores se aproximem da filha; e Ângela Rabelo, como a tia. Falta um, o pretendente que balança as estruturas da família.

O grupo tem feito leituras mensais do texto, ainda não concluído. Marinho já tem 42 das 60 páginas que prevê para o texto.

“O Miguel adoraria dizer que o texto está uma m... Mas não tem como.

Ele fala pouco comigo, mas eu sei pela equipe que quando ele chega na portaria, diz para eles: ‘nossa, como o texto está bom!’.”

Publicação Original Valor valor.globo.com
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