Stephen King e o diretor Mike Flanagan falam de nova adaptação de 'Carrie', como série focada na crueldade em tempos de redes sociais

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

Se é para fazer uma peregrinação ligada à cultura pop, uma ótima opção é dar um pulo no Maine para visitar Stephen King. O escritor vive com a mulher, Tabitha, em Lovell, uma cidadezinha charmosa perto da divisa com New Hampshire. Nas proximidades, com vista para colinas suaves e um lago de origem glacial, fica um edifício que abriga tanto seu escritório quanto uma espécie de museu dedicado a ele. Ao percorrer estradas sinuosas e virar à esquerda após a placa que alerta para “Cuidado com a Molly” — uma homenagem à corgi de King —, você logo se vê em um espaço amplo e iluminado, repleto de pôsteres de filmes e itens de colecionador das mais de cem adaptações das histórias de King para as telas. É preciso esticar o pescoço e girar o corpo para assimilar tudo aquilo: a dimensão singular do impacto dele no entretenimento americano. 'Arquivo X': Trama vai voltar em série dirigida por Ryan Coogler, de 'Pantera negra' e 'Pecadores' 'A diplomata' e 'Visionquest': as estreias no streaming na semana de 11/10 a 17/10; veja trailers Dispostos em ordem cronológica, os itens vão de “Carrie” — lá está a coitada da Sissy Spacek, de olhos arregalados sob uma camada de sangue — até... “Carrie”. O primeiro pôster é da adaptação de 1976, dirigida por Brian De Palma, do romance de estreia de King, que conta a história de uma jovem tímida e marginalizada que usa a telecinesia para destruir os colegas que a atormentavam na escola. O segundo pôster é o motivo da visita de hoje: uma nova adaptação de “Carrie” para a TV, já disponível no Amazon Prime Video. Criada pelo cineasta Mike Flanagan, a série de oito episódios traz uma abordagem atual, na qual o bullying sofrido por Carrie ocorre em grande parte nas redes sociais, e os horrores incluem simulações de ataques a tiros na escola. A própria garota, interpretada com entusiasmo e olhar vivo por Summer H. Howell, não é tanto uma rejeitada, mas sim uma figura curiosa mantida escondida do mundo por seus pais, que são adeptos de teorias da conspiração. A trama também se expande para abordar uma subcultura de pessoas com poderes telecinéticos, abrindo caminho para possíveis temporadas futuras. Flanagan, que idolatra King, adaptou vários livros do autor para o cinema (“Jogo perigoso”, “Doutor Sono”). No entanto, essas obras são, em sua maioria, adaptações fiéis, ao passo que “Carrie” se aproxima mais, em espírito, das releituras televisivas inventivas de Flanagan para clássicos do terror literário, como “A maldição da Residência Hill” e “A queda da Casa de Usher”. Cena de 'Carrie, a estranha' Divulgação Aos 79 anos, King ainda escreve quase todos os dias. “Other worlds than these”, o livro final da trilogia “O talismã”, escrita em parceria com Peter Straub, acaba de ser lançado. Ele está finalizando seu último romance sobre a detetive particular Holly Gibney, apresentada pela primeira vez em “Mr. Mercedes” (2014). Deixar para trás os mundos que criou é “muito triste”, disse King, reconhecendo que esse retorno de “Carrie” proporciona uma sensação de fechamento de ciclo. — Eu poderia encerrar a carreira — disse ele, antes de voltar atrás rapidamente. — Não, não, não. Já me meti em encrenca por dizer que talvez me aposentasse. A única coisa que não gostaria de fazer é morrer na minha mesa de trabalho. Só isso. Essa mesa fica em um escritório no andar de cima, repleto de honrarias e bibelôs variados. King e Flanagan sentaram-se entre esses objetos na semana passada para conversar sobre “Carrie”, seus paralelos políticos e suas adaptações favoritas da obra do autor. Estes são trechos editados da nossa conversa. Por que 'Carrie'? Por que agora? Flanagan: Esta foi a primeira pergunta que Steve fez quando começamos a discutir o assunto. Tratava-se de: como pegamos a ideia central desse romance incrível e a trazemos para 2026? O livro fala sobre bullying, bondade, crueldade e as consequências de escolhermos a crueldade. Essa questão só se tornou mais relevante, especialmente para a geração mais jovem. Colocamos nas mãos dos nossos filhos uma tecnologia que incentiva a crueldade, que a celebra. King: “Carrie” trata de bullying, e a série de TV trata de cyberbullying. Há também uma dimensão mais política. O pai de Carrie defende propaganda de direita e a mãe, embora seja fundamentalista religiosa — como no livro —, também é militante fervorosa pelos 'direitos dos pais'. Flanagan: Todos vivemos em bolhas diferentes de verdades selecionadas. Essas tribos, essas distorções, são algo com que os adolescentes, em particular, precisam lidar. O que é real? Que mundo é esse que eles estão herdando? Tudo depende de qual site eles consultam em busca de respostas. Como Carrie cresceu nesse culto formado por três pessoas, seus pais acabaram criando sua própria bolha. Ele ouvia programas de direita radical, mas Margaret tinha opiniões extremas que, em alguns casos, poderiam ser consideradas ultraprogressistas. A questão não era exatamente a política deles. Então você estava tentando manter uma postura apartidária em relação a isso? Flanagan: Sim, porque quero que as pessoas que vão se beneficiar de um programa que nos incentiva a repensar a crueldade se vejam em vários personagens. E, se eu disser que um é claramente bom e o outro é claramente mau, não lhes darei nada em que possam se reconhecer. Quanto às questões partidárias, eu tenho coisas a dizer. Mas não quero excluir as pessoas da conversa num momento em que estamos tão polarizados. Houve várias adaptações de 'Carrie' ao longo dos anos. Steve, você teve alguma ressalva quanto a retomar essa história mais uma vez? King: Não. Já não penso muito em “Carrie”, porque foi um livro de estreia. Mas foi também o que lançou a sua carreira. King: Tive muita sorte. Consegui deixar de dar aulas e passar a escrever em tempo integral, e era isso que eu queria. Começou como um conto. Comecei a escrever, vi que ia ficar mais longo do que um conto e joguei fora. Minha esposa tirou o texto do lixo, alisou as páginas que eu tinha escrito e disse: “Isso é bom. Você deveria continuar.” Eu respondi: “Não sei nada sobre vestiários femininos.” Ela disse: “Eu vou te contar tudo o que você precisa saber.” Enviei o texto para o editor Bill Thompson e ele disse: “Acho que você tem um sucesso nas mãos.” Reescrevi a história atendendo às sugestões dele e vendi o livro. O adiantamento foi de U$ 2.500... Mas aí Bill ligou num domingo e disse: “Vendemos os direitos para a edição de bolso por US$ 400 mil.” Contei para Tabby e ela começou a chorar, porque morávamos num apartamento barato, uma droga, naquela época. Havia gente brigando no andar de cima — usei isso em “O iluminado”. Você gostou do filme do De Palma? King: Adorei. A primeira vez que vi, houve uma sessão em Boston. O filme que estava em cartaz na sala principal — e que serviu de “carona” para a exibição de “Carrie” — era “Norman, is that you?”, com Redd Foxx. O público era totalmente negro; nós éramos como dois grãozinhos de sal num saleiro de pimenta. Havia dois caras, grandes como jogadores de futebol americano, logo atrás de nós. No final do filme, a Sue Snell tem aquele sonho em que uma mão sai da terra e a agarra. E aqueles caras gritaram como garotinhas. E pensei: “Isso vai dar certo.” E agora tantos dos seus livros foram adaptados para o cinema e a TV. Qual é a sensação quando as pessoas transformam suas histórias em algo delas mesmas? King: É como mandar um filho para a faculdade. Você torce para que ele se saia bem e não se envolva com drogas ou qualquer coisa que possa destruí-lo. Quais são alguns dos seus favoritos? King: Gosto de muitos, e não falo sobre os que não gosto. Já me perguntaram inúmeras vezes sobre “O iluminado”. Nunca gostei dele. É sobre esse filme que as pessoas perguntam, porque, de alguma forma, ele ganhou uma reputação crítica que o elevou a outro patamar. Tabby diz que a merda flutua. E você, Mike? Flanagan: Não consigo decidir entre “Um sonho de liberdade” e “Conta comigo”. Ambos são filmes perfeitos. Eu amo terror. Amo levar sustos. Mas o que mais me toca nas obras do Steve é o coração. São histórias sobre esperança, e ambas transbordam esse sentimento. Ao atualizar uma história famosa como 'Carrie', como você faz isso preservando a essência dela? Flanagan: Eu estava nervoso com as mudanças que estávamos fazendo. No processo, você precisa se perguntar: “Quais são os elementos que, se não estiverem na tela, farão com que não estejamos realmente fazendo ‘Carrie’?” Alguns deles são as cenas-chave. É claro que você vai ter o baile de formatura. É claro que a Carrie vai ficar coberta de sangue de porco. É claro que você vai ver aquela cena aterrorizante no vestiário. King: Logo no início da série, você vê os pés dela caminhando pela cidade. Não é nenhuma grande surpresa. Flanagan: A questão são as surpresas que você consegue inserir na forma como chega lá. Em todas as versões que já vimos, Carrie White é uma garota trêmula, aterrorizada e traumatizada desde o início. Ela teve uma vida difícil, mas a nossa versão é meio que o oposto. Ela é curiosa e entusiasmada, alguém que o mundo ainda não corrompeu nem feriu — e é justamente por isso que o mundo a ataca imediatamente. Mas, como fã de longa data de Stephen King e estudioso de cinema, no dia em que começamos a filmar a sequência do baile, eu sabia que precisava parar um pouco, respirar fundo, olhar ao redor e dizer: “Estou no baile com a Carrie White.” E você sentiu o peso disso? Flanagan: Sinto isso intensamente em projetos como este. Também sinto uma enorme responsabilidade sempre que Steve confia a mim os seus brinquedos. Quando ele diz que posso brincar na caixa de areia dele, tomo muito cuidado para não fazer merda nela. E se deixei Steve orgulhoso com o que fizemos da história dele, é isso que importa. King: Estou muito satisfeito com o que você fez. Mas você também se divertiu. Flanagan: Eu me divirto muito. Tenho o melhor emprego do mundo. King: Nós dois temos o melhor emprego do mundo.

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