Mostra SP comemora 50 anos com exposição, livros, novos filmes de James Gray, Kleber Mendonça Filho, Cristian Mungiu e mais

Mostra SP comemora 50 anos com exposição, livros, novos filmes de James Gray, Kleber Mendonça Filho, Cristian Mungiu e mais - Foto
Fonte da notícia: O Globo O Globo

Poucos dias após o Festival do Rio, agora é a vez de o cinéfilo paulistano encarar sua maratona. Comemorando sua 50ª edição, a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo abre hoje sua programação para o público após sessão para convidados ontem do longa “Tigre de papel”, de James Gray, e do curta “Sul de Teerã”, de Kleber Mendonça Filho, com a presença dos realizadores, na Sala São Paulo. Lollapalooza 2027: Confira lineup por dia de festival e saiba como comprar ingressos Prêmio Jabuti: Itamar Vieira Junior tenta tricampeonato e disputa prêmio com Milton Hatoum e Aline Bei; confira todos os finalistas Nos próximos 15 dias, a capital paulista terá a exibição de 392 filmes, em 57 salas de cinema e espaços culturais da cidade. A programação traz destaques como os vencedores da Palma de Ouro, o romeno “Fjord”, de Cristian Mungiu, e do Leão de Ouro, o dinamarquês “Mulher desconhecida”, de May el-Toukhy. Outras atrações de Cannes, como “Minotauro”, de Andrey Zvyagintsev, vencedor do Grande Prêmio do Júri, e “A terra do meu pai”, de Pawel Pawlikowski, premiado com a Palma de melhor direção, e de Veneza, como “Amor possível”, de Lee Chang-dong, agraciado com o Grande Prêmio do Júri, também integram a seleção do evento, que contará ainda com obras exibidas em Berlim, Sundance, Roterdã e Locarno. Sebastian Stan e Renate Reinsve em "Fjord", de Cristian Mungiu Divulgação A programação nacional (que, diferentemente da internacional, não exige exclusividade) traz produções que fizeram sucesso em festivais brasileiros ao longo do ano, como “Feito pipa”, de Allan Deberton, escolhido o representante brasileiro no Oscar 2027, e “A margem do rio”, de Enock Carvalho e Matheus Farias, grande vencedor do Festival do Rio. A Mostra SP contará ainda com a apresentação especial de dois episódios, em fase de finalização, da série “Sócrates brasileiro”, de Walter Salles, produção do Globoplay. Cena da série “Sócrates brasileiro”, de Walter Salles, produção do Globoplay Divulgação No clima de comemorações (e muito trabalho) para celebrar as cinco décadas de evento, a diretora da Mostra SP, Renata de Almeida, lança o livro “Antes que eu me esqueça” (Cosac), em que entrelaça a história do evento com as memórias de quem acompanhou quase tudo de perto. Almeida iniciou sua relação com a Mostra em 1989, na 13ª edição, e por muitos anos esteve na direção ao lado do marido, o jornalista e cineasta Leon Cakoff (1948-2011), que fundou o evento em 1977. Após a morte do companheiro, ela tomou para si a responsabilidade de todos os anos tirar a Mostra SP do papel. Em conversa com O GLOBO, a produtora fala sobre a edição histórica, a presença de mulheres no comando dos principais eventos cinematográficos do país e a realização da Mostra SP em meio ao período eleitoral. Confira a seguir. Destaques da seleção “Os destaques mais óbvios são filmes premiados em grandes festivais internacionais, mas a Mostra tem uma competição para novos realizadores e também apresenta muitas descobertas e trabalhos de diversas partes do mundo, além de uma grande e elaborada seleção de filmes restaurados para valorizar a história do cinema.” O papel da mostra hoje “Todos os anos me pergunto se tem sentido continuar com a Mostra depois de tanto tempo. Mas vejo um público jovem que vem pela primeira vez ao mesmo tempo que um público fiel volta e permanece. Acho que, se quando a Mostra ‘nasceu’, vivíamos num deserto por causa da escassez de informação, da ditadura cívico-militar, censura e pela tecnologia da época; hoje, vivemos num oceano. Mas neste oceano tudo tem o mesmo peso e a mesma importância, então a Mostra virou uma espécie de amiga de confiança que nos propõe filmes, divertimento e desafios. E o público continua a gostar desta amiga e a confiar nela.” 'Não faça isso': Paul McCartney revela que reclamou sobre sua altura para diretor de cinebio dos Beatles O evento nas eleições “Como a Mostra acontece sempre nas mesmas datas, já estamos acostumados, mas é tenso. Isto porque o cinema reflete o estado do mundo e a Mostra sempre faz questão de apresentar filmes que abordam as questões mais urgentes, atitude que não muda durante as eleições. Porém o cinema também tem fantasia, beleza, humor e pode ser um descanso e uma tomada de ar em meio a tensão. Oferecemos estas possibilidades para o público e esperamos que ele aproveite, vamos ver.” A 1ª vez na na Mostra “Eu comecei a trabalhar na 13ª Mostra, em 1989, mas a primeira que eu fiz inteira foi a 14ª, a Mostra do Plano Collor com todos os contratempos que aquele ano teve. Também era uma época de telex, fax, filme em 35mm e seus problemas com a alfândega.” O auditório do Museu de Arte de São Paulo, em outubro de 1977, com o público da 1ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo Divulgação/Mostra de São Paulo

Preparativos nos 50 anos “Essas datas comemorativas geram muitas expectativas, por isto elas são um tanto temerosas já que expectativas são meio caminho andado para decepções. Então esse temor nos impulsionou a preparar várias ações especiais extras que refletem sobre a história da própria Mostra. Trabalhamos em um site do acervo da Mostra, organizamos a exposição ‘Tempo e movimento’. com concepção e expografia de Daniela Thomas e Felipe Tassara, que tenta reproduzir visualmente o que foram esses 50 anos, e lançamos os livros ‘50 anos, 50 cartazes — a história dos cartazes da Mostra Internacional de Cinema’ e ‘Antes que eu me esqueça’”. Confissões e causos em livro “Fiquei quase um ano pensando em como escrever este livro (‘Antes que eu me esqueça’) e cheguei à conclusão que só teria sentido se fosse algo que só eu pudesse fazer, porque se o livro fosse sobre só sobre a Mostra ou os filmes em geral, era melhor deixar para outro autor. Então, o relato é muito pessoal e sincero; com as alegrias, encontros, lutas e tristezas que a vida nos traz. Mas acredito que o livro também contenha humor e seja divertido, já que tem muitas histórias de bastidores, problemas com os quais tivemos que lidar e que o tempo transformaram em causos engraçados.”

Ausência de Leon Cakoff “Quando o Leon faleceu eu já fazia a Mostra havia 22 anos, já era diretora junto com ele, e tínhamos dois filhos. Você pode imaginar a dificuldade e a dor pela qual passamos tendo que equilibrar os tratamentos de saúde, dois filhos pequenos e a Mostra. Esse processo todo também está de alguma maneira no livro porque não é algo de que eu possa falar rapidamente. Leon e eu dividíamos a vida e a Mostra, e tomando as decisões juntos, como foi a decisão do Leon de que a Mostra teria que pedir estreia brasileira dos filmes internacionais (o que significa que as obras estrangeiras não podem ter exibição em outros eventos brasileiros antes da apresentação na Mostra), pois ele acreditava que era uma questão de sobrevivência do evento que criou, e eu concordei. Menciono isto porque, recentemente, vi uma pergunta provocativa e uma resposta mentirosa sobre esta questão usando o nome do Leon, o que acho muito indigno. Usar o nome de uma pessoa que não está mais aqui para contar mentiras é realmente aviltante, ainda mais neste ano em que as lembranças estão muito latentes.” Leon Cakoff com Wim Wenders, na Faap, durante a 32ª Mostra Internacional de Cinema, em outubro de 2008 Divulgação/Eduardo Amorim Momentos inesquecíveis “Tem muitos. Conto de quando Quentin Tarantino veio e encontrou Maria de Medeiros; Manoel de Oliveira com o fotógrafo Gabriel Figueroa no centenário do cinema; Paolo Sorrentino apresentando seu primeiro filme, ‘Um homem a mais’, e escrevendo o roteiro do próximo no bar do hotel; Christiane Kubrick vendo seu quadro ‘Ensaio sob a chuva’ projetado na abertura da 37ª Mostra; Wim Wenders e Teruyo Nogami vendo a exposição dos storyboards originais do Kurosawa; Andrey Tarkovski, filho de Tarkovski, apresentando ‘O sacrifício’; Francis Ford Coppola recebendo o prêmio Leon Cakoff; Abbas Kiarostami e Amos Gitai abrindo suas exposições juntos e muitas outras histórias”. Programação inédita “Para os filmes e o cinema em si acredito que o ineditismo nos festivais é melhor, pois os filmes terão mais chance de ter destaque. Se a programação se repetir em diversos eventos, sempre serão os mesmos filmes que terão destaque na imprensa e com o público. Neste ano apresentaremos 392 filmes e o Rio deve ter um número próximo, imagine se repetíssemos os filmes? A produção do audiovisual está muito maior no mundo todo, tivemos algo como 1.700 inscrições e vários filmes bons tiveram que ficar de fora. Deve ter acontecido algo assim com os outros festivais, não é a toa que a maioria dos festivais relevantes, dentro e fora do Brasil, pede première nacional e até mundial.” Festival do Rio: rival? “Acho que a grande questão são as datas. Eu até já fui ao Festival do Rio quando era no final de agosto e começo de setembro, até compartilhamos alguns filmes nesta época porque cada festival tinha a sua programação no final. Mas eles foram se aproximando cada vez mais até quase grudarem as datas, o que é ruim para a imprensa, empresas do setor, público e até para os próprios festivais que têm as suas divulgações sobrepostas. A Mostra tem as mesmas datas há 50 anos, sempre na segunda metade de outubro porque foi criada em comemoração aos 30 anos do Masp. O público já está acostumado e uma parte dele tira férias e vem de outros locais do Brasil.” O audiovisual brasileiro “Walter Salles e Kleber Mendonça são dois cineastas brilhantes, com muita experiência e cinéfilos como quase todos os grandes cineastas. Por causa da longa carreira que já tiveram, têm apoio internacional tanto para coproduções como para a divulgação. Mas outros cineastas estão trilhando o caminho que eles já trilharam, e para eles chegarem no mesmo lugar precisamos ter políticas de estado e não só de governo. Porém, para políticas de estado existirem, precisamos de estadistas, e não de políticos oportunistas que querem destruir tudo o que já foi construído. Uma política para o audiovisual de sucesso leva tempo, mas estamos caminhando, o cinema no Brasil já está num lugar que só o esporte tinha, de torcida e orgulho. Claro que não podemos só ter o Oscar como régua, temos filmes em outros festivais e vários foram muito bem recebidos; mas já é um começo e uma aproximação do cinema com o seu público. Se o caminho não for soterrado e destruído, mas sim aprimorado, o cinema brasileiro chega lá.

Mulheres no comando “Acho bom ressaltar que tanto a Mostra como qualquer outro festival de grandes proporções é fruto do trabalho de uma equipe. Mas sermos as quatro diretoras (além de Renata, Ilda Santiago, Raquel Hallak, Sandra Bertini e outras mulheres estão à frente dos principais festivais de cinema do país) e sermos bem aceitas talvez mostre algum progresso em relação ao machismo e a misoginia no Brasil. Talvez também tenha a ver com o treino do cuidado e da multitarefa que as mulheres têm que desenvolver desde muito cedo.”

Compartilhar: WhatsApp Facebook Telegram X

Deseja ler a íntegra original na fonte jornalística?

Acessar matéria no site O Globo