Escolhas e renúncias

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

Há mais de 15 anos, batendo perna por Londres, fui parar na porta da Wellcome Collection, um daqueles milhares de lugares interessantes da cidade em que se esbarra sem querer. Na porta, o cartaz: “High Society”, num jogo de palavras esperto. A exposição mostrava, por meio de centenas de objetos, obras de arte, anotações, diários, como o uso de drogas faz parte da experiência humana praticamente desde que o mundo é mundo: do Egito Antigo e das tinturas de papoula aos colírios de cocaína da Era Vitoriana, passando pelos rituais dos indígenas americanos com peiote aos elegantes salões franceses, incrementados com ópio e haxixe. A conclusão era óbvia: droga pode não fazer bem, mas é bom. Caso contrário, não teria sobrevivido geração após geração. Há meio século: 'Escrava Isaura', 'Anjo mau', 'Saramandaia' e mais: por que 1976 mudou as telenovelas no Brasil? Relações abertas, ciúme e regras: Séries, livros e filmes exploram complexa matemática da não monogamia No século XX, o cinema, e depois a televisão, se encarregaram de difundir a ideia de que outras adições, como o cigarro e o álcool, eram aceitáveis. Não há galã do cinema de Hollywood até os anos 1970 que não esteja fumando. Assim como nas nossas novelas e nas séries de época, não há personagem que chegue em casa e não se sirva de um copinho de uísque para “relaxar”. Às vezes, os dois juntos: “Mad Men”, por exemplo, tem o combo em várias cenas, como retrato crítico a uma época em que se fumava e bebia no trabalho. Os millennials podem não acreditar, mas foi até outro dia.

Por tudo isso, fiquei fascinado quando apareceu a oportunidade de fazer a pesquisa dramatúrgica para o livro “Luz, câmera... Compulsão! — Como filmes, séries e novelas explicam as dependências humanas” (Editora Máquina de Livros), das psiquiatras Analice Gigliotti e Elizabeth Carneiro e da psicóloga Sabrina Presman, que acaba de ser lançado. Foi a oportunidade perfeita para mergulhar na própria história da dramaturgia. E que viagem fascinante. Grandes autores brasileiros, como Manoel Carlos, Gilberto Braga e Gloria Perez, sempre deram um jeito de abordar as dependências em suas tramas. À medida que houve mais informação, cigarro e álcool passaram a ser muito mais associados a personagens instáveis, problemáticos. Foi assim com a Heleninha Roitman de Renata Sorrah em “Vale tudo”, com os dependentes químicos de Débora Falabella e Thiago Fragoso em “O clone”, e com o alcoolista de Paulo José em “Por amor”. A esse respeito, Manoel Carlos disse uma vez: “Em todas as minhas novelas eu falo de alcoolismo, a maior chaga social que existe. Ninguém repara nas pessoas que bebem, a não ser no bêbado chato. Para aquele alcoólatra comum, crônico, ninguém liga. Ele é muito bem aceito socialmente, por isso o perigo. É profundamente destruidor, principalmente por ser tolerado.” Renata Sorrah em 1988, quando viveu Heleninha Roitman na novela "Vale Tudo" Adir Meira/Agência O GLOBO Outro dia, um senhor octogenário me contou que começou a fumar antes dos 10 anos. Se Humphrey Bogart fumava, quem não fumaria? Não havia informação sobre os malefícios do fumo. Hoje, há. Portanto, quando um adolescente põe um vape na boca, ele está farto de saber os milhares de componentes químicos que está colocando para dentro. É uma escolha (pelo fumo) que, necessariamente, impõe uma renúncia (à saúde e à qualidade de vida). De alguma forma, vamos para o segundo turno com esse mesmo sentimento. Informação sobre os dois candidatos não falta, nas redes e fora delas. Não tem estelionato eleitoral, não tem eleitor enganado. Ambos estão fartos de dizer e mostrar quem são e o que pretendem fazer — até mesmo a temeridade de mexer na Constituição. Daqui a dez dias, quando abrirem as urnas, não vai dar pra culpar a desinformação. E nem o charme do Humphrey Bogart.

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