Prateleiras repletas de séruns, ácidos, esfoliantes, máscaras e hidratantes já foram associadas à ideia de uma rotina de cuidados completa. Nos últimos anos, porém, uma proposta mais enxuta ganhou espaço nas redes sociais e no universo da beleza: o skinimalism, tendência que prioriza uma seleção menor de cosméticos, de acordo com as necessidades de cada tipo de pele.
A mudança acompanha uma discussão importante na dermatologia: utilizar mais produtos não significa, necessariamente, obter melhores resultados. Saiba por que a 'pele real' está ganhando espaço nas redes sociais e mudando a forma de enxergar a beleza
Adeus, filtro? Movimento da 'pele real' muda a forma como mulheres enxergam a própria aparência A aplicação de diferentes ingredientes ativos sem orientação pode provocar reações como vermelhidão, descamação, irritação e aumento da sensibilidade.
O uso excessivo de ácidos e esfoliantes, por exemplo, pode comprometer a barreira cutânea, estrutura responsável por proteger a pele contra agentes externos e ajudar a manter sua hidratação. O dermatologista Gustavo Saczk, membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) e da Sociedade Brasileira de Cirurgia Dermatológica (SBCD), explica que a escolha dos produtos e procedimentos deve levar em conta as características individuais.
Uma fórmula ou técnica que apresenta bons resultados em determinada pessoa pode não ser indicada para outra, especialmente em casos de acne, rosácea ou sensibilidade. "Não existe um procedimento que seja ideal para todos os pacientes.
Antes de indicar um peeling ou laser, precisamos avaliar a pele, o histórico de manchas, a intensidade do tratamento e a possibilidade de seguir os cuidados posteriores. A exposição solar inadequada durante a recuperação pode comprometer o resultado", afirma o médico.
Menos produtos, escolhas mais adequadas A proposta do skinimalism não consiste em abandonar os tratamentos dermatológicos, mas em evitar etapas que não oferecem benefícios relevantes para cada pessoa.
Uma rotina básica, com limpeza suave, hidratação e proteção solar, pode atender às necessidades de muitos pacientes. Quando existem questões específicas, como manchas, acne ou sinais de envelhecimento, outros ativos podem ser incluídos de maneira direcionada, conforme avaliação profissional.
Outro ponto importante é a composição dos cosméticos. A presença de um mesmo ingrediente em dois rótulos não significa que os produtos tenham eficácia ou comportamento semelhantes.
Concentração, estabilidade e combinação de substâncias influenciam a maneira como cada formulação atua na pele. A dermatologista Bianca Almeida ressalta que a escolha não deve ser baseada apenas em ingredientes destacados nas embalagens ou na popularidade de determinado produto nas redes sociais.
"O ponto principal é entender que não basta um ingrediente conhecido aparecer no rótulo. Precisamos considerar a formulação como um todo, a concentração, a estabilidade daquele ativo e se o produto consegue disponibilizá-lo adequadamente para a pele.
Dois produtos podem destacar o mesmo ingrediente na embalagem e apresentar formulações completamente diferentes", diz. A atenção deve ser redobrada entre pessoas com rosácea, pele sensível ou tendência à acne.
Nesses casos, determinadas substâncias podem intensificar a irritação e dificultar a tolerância aos cuidados diários. Até mesmo o formato e a aplicação do cosmético merecem consideração, já que o atrito repetido pode provocar desconforto em peles mais reativas.
Ao comentar os cuidados com cosméticos em bastão, Bianca destaca a importância de observar a composição e a resposta individual. "Pessoas com rosácea ou pele sensível devem ter atenção redobrada à composição e evitar fórmulas que contenham substâncias potencialmente irritantes para a sua pele.
Além disso, dependendo da sensibilidade, até o atrito provocado pela aplicação direta e repetida pode causar desconforto", alerta. Pele oleosa também precisa de hidratação
Uma dúvida frequente diz respeito à necessidade de hidratar a pele oleosa. A produção de sebo não significa que a barreira cutânea esteja necessariamente equilibrada.
O uso contínuo de produtos adstringentes e fórmulas muito agressivas pode provocar ressecamento e irritação, mesmo quando há excesso de oleosidade. A escolha de um hidratante compatível com as características da pele ajuda a preservar sua proteção natural e pode ser especialmente importante durante tratamentos com ativos que favorecem o ressecamento.
Por isso, eliminar etapas indiscriminadamente não é o objetivo da tendência: o mais importante é identificar quais cuidados são realmente necessários. O skinimalism também propõe uma relação menos impulsiva com o consumo de cosméticos.
Em vez de substituir produtos a cada lançamento ou novidade que viraliza, a orientação é observar a resposta da pele e manter uma rotina consistente. A regularidade e a adequação das fórmulas têm papel mais relevante do que a quantidade de embalagens utilizadas.
Para Bianca, a popularidade de novos formatos e produtos exige atenção aos benefícios efetivamente comprovados. "Mais importante do que o produto ser bonito, portátil ou estar viralizando é saber se aquilo que ele promete é sustentado pela formulação e pelos testes realizados", conclui.
O Globo