'Sérvia ou a Máfia': Fortalecido nas ruas, movimento estudantil ameaça poder de Vučić nas eleições sérvias

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

sNa região de Belgrado que resume como poucas a alma da cidade, a central Praça Slavija, dezenas de milhares de pessoas se amontoavam no último ato de campanha da chapa liderada pelo movimento estudantil antes das eleições gerais de domingo. Há dois anos nas ruas, submetidos à repressão estatal, os estudantes surgem agora como uma ameaça real ao grupo de Aleksandar Vučić, o homem que domina a política sérvia há 12 anos.

Mais do que isso, um eventual sucesso seria uma poderosa mensagem a uma Europa hoje permeada pelas convulsões sociais nas ruas. — O círculo interminável de Slavija e todos nós dentro dele...

É hora de sair dessa rotatória da história. Restam apenas três dias, e esses três dias passarão.

O medo, a chantagem e a injustiça passarão, e os tiranos passarão, como sempre acontece — disse a estudante Natalija Stepanovic, a primeira das oradoras nesta quinta-feira em Belgrado, citada pela rede N1. Ratko Mladić: Funeral de general condenado pelo Massacre de Srbrenica atrai multidão na Sérvia e provoca indignação na UE

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Reunidos em uma coalizão formada por cidadãos de vários campos da sociedade, desde estudantes até um ex-astro do basquete a “Studentska lista–Studenti pobeđuju”, ou “Lista dos Estudantes - Estudantes Vencem” disparou nas pesquisas mais recentes, e tem chances concretas de eleger um número considerável de parlamentares.

Algumas forças de oposição abandonaram suas candidaturas para se unir ao movimento, que é marcado pela descentralização, um contraste com Vučić e sua sigla, o Sérvia Unida (SNS). Mas o caminho até as urnas não foi lírico como os poemas de Desanka Maksimović.

Há dois anos, 16 pessoas morreram no desabamento de uma estação ferroviária em Novi Sad, segunda maior cidade do país, um incidente associado a uma controversa reforma no terminal, realizada por um aliado político de Vučić, à época presidente. Em questão de dias, milhares de pessoas foram às ruas em busca de justiça às vítimas.

Ex-presidente da Sérvia, Aleksandar Vučić, em evento de campanha em Belgrado AFP

As investigações jamais foram concluídas, e ninguém foi punido. Ao mesmo tempo, os estudantes, em um coro engrossado por trabalhadores, professores, profissionais liberais e demais descontentes com os rumos da Sérvia.

A reação do governo veio inicialmente através de militantes do SNS, protagonistas de choques violentos, mas a lista de pautas passou a incluir outras demandas e críticas. O movimento chegou ao seu ápice em março de 2025, quando centenas de milhares de pessoas tomaram as ruas do país, inclusive as largas avenidas que levam à Praça Slavija.

Na repressão, apoiada por alguns autocratas europeus, as forças de segurança usaram as controversas armas sônicas, que emitem ondas sonoras para desestabilizar multidões. Adivinhe quem vem para jantar: Entenda por que a Sérvia é importante para a família Trump

Mais uma vez, não deu certo, e as ruas nunca deixaram de se mobilizar. — Nos reencontramos no mesmo lugar, no mesmo horário.

No ponto onde tudo começou, há quase dois anos. Continuamos de pé, com orgulho, e enviamos uma mensagem clara: a Sérvia não pode ser intimidada; a Sérvia precisa ser libertada — disse na Praça Slavija o estudante de biologia Arsa Stojanovic, citado pelo portal N1, garantindo que a vitória está “ao alcance de vocês”.

Caso também provocou protestos: Pais de adolescente que matou dez pessoas em escola na Sérvia em 2023 são condenados por massacre cometido pelo filho Ao contrário de outros levantes dispersos, o movimento sérvio tem um alvo prioritário, a corrupção do regime de Vučić, que há 12 anos se alterna entre os cargos de primeiro-ministro e presidente.

Nacionalista radical nos anos 1990, foi ministro da Informação e aliado de Slobodan Milošević, levado a Haia por crimes contra a humanidade, e se notabilizou pelo combate à imprensa livre. Nos anos seguintes, ampliou seu poder dentro do Estado sérvio, emulando uma conhecida cartilha nacionalista e chegando ao poder pela primeira vez em 2014, após as eleições gerais.

Em 2017, se candidatou com sucesso à Presidência, e foi acusado pela oposição e organizações como a Anistia Internacional de conduzir um governo marcado pela repressão a vozes dissidentes e por alianças pouco ortodoxas com setores não-estatais. Em setembro, convocou novas eleições gerais e anunciou que iria renunciar ao cargo, sendo apontado como o candidato do SNS a primeiro-ministro.

Apoiadores da Lista Estudantil, chapa que concorre nas eleições gerais na Sérvia, em ato no centro de Belgrado Mitar MITROVIC / AFP

Como ficou evidente nas ruas, ele e seu grupo político não têm mais o poder de outrora. “Aqueles que detêm o poder afirmaram, em diversas ocasiões e de forma falsa, que as demandas haviam sido atendidas, tentando enganar os cidadãos e reprimir a justa indignação da revolta popular”, diz um trecho do manifesto do movimento estudantil.

“Por isso, os estudantes decidiram assumir total responsabilidade pelo futuro deste país.” Os estudantes apresentaram uma lista de 11 propostas, sugerindo que os eleitores escolham entre “a Sérvia e a Máfia”.

Entre as propostas, um Judiciário livre de influências políticas, transparência no setor público, liberdade de imprensa — a Sérvia ocupa a posição 104 no ranking da ONG Repórteres Sem Fronteiras —, além de medidas para ampliar o acesso ao emprego, à educação e à assistência médica.

— Um assento parlamentar é um serviço público. Quem o conquista precisa saber a quem deve prestar contas.

Nós sabemos a quem prestaremos contas! O mandato pertence a todos vocês, ao povo! A Sérvia vence porque os estudantes vencem — disse Ilija Srdanović, principal candidato da Lista dos Estudantes, citado pelo portal N1. Impacto internacional

Na reta final, uma inspiração foi o sucesso da oposição na Hungria, que em abril encerrou os 16 anos de mandato de Viktor Orbán, expoente máximo da direita radical na Europa, e que era próximo ao premier sérvio. Para tal, o foco dos ativistas é no comparecimento às urnas: na eleição húngara, 80% dos eleitores foram votar.

Na última votação para o Parlamento sérvio, em 2023, apenas 58,77% depositaram seus votos nas urnas. — [Vučić] concorre em todas as eleições que a Sérvia teve desde a introdução do sistema eleitoral multipartidário, então, obviamente, derrotá-lo não será fácil, mas desta vez o presidente Vučić também não terá vida fácil — afirmou à rede BBC Helena Ivanov, do centro de estudos Sociedade Henry Jackson.

Uma vitória da Lista dos Estudantes poderia enviar abalos a outros movimentos que estão nas ruas ao redor da Europa. Na França, o presidente Emmanuel Macron está diante de um levante que expôs, mais uma vez, a impopularidade e as fragilidades de seu governo.

Na Espanha, Portugal e Itália, o alvo é o elevado custo de vida, e na Albânia o premier Edi Rama corre o risco de perder o emprego diante da pressão por melhores serviços públicos e por causa de um polêmico empreendimento envolvendo o genro e a filha do presidente dos EUA, Donald Trump.

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