Carlos Nobre: 'O congresso devia inverter a tendência de afrouxar a lei'

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

O cientista brasileiro mais influente do mundo, o climatologista Carlos Nobre, está otimista com o avanços na próxima conferência do clima da ONU, a COP31, em novembro, mas se diz pessimista com a onda de políticos "negacionistas do clima" que ele vê sendo eleitos pelo mundo.

"A grande maioria da população não é negacionista de mudanças climáticas", diz. "Como se explica que países que não são negacionistas, democracias, elege presidentes totalmente negacionistas?"

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Quer ler mais notícias de Mundo? Acompanhe o canal no WhatsApp Dedicando-se recentemente à divulgação de pesquisas sobre clima saúde, o professor da USP concedeu entrevista ao GLOBO na última semana passada, antes de palestra no Congresso Nacional de Hospitais Privados (Conahp), em São Paulo.

Na conversa, Nobre falou também sobre seu temor de agravamento do ataque do Congresso contra a legislação ambiental e sobre o papel do Brasil na agenda global do clima. O que o senhor veio falar hoje para o setor de hospitais?

Eu fui solicitado a falar os impactos das mudanças climáticas na saúde. Um dos maiores é o fato que quando a gente queima combustível fóssil — petróleo, diesel, carvão, etc.

— a gente gera poluentes como micropartículas de sulfato. No mundo inteiro a poluição urbana causa de 6 milhões a 7 milhões de mortes por ano.

Aqui no Brasil, estudos recentes, de 2023 a 2025, estão mostrando de 80 mil a 90 mil mortes devido a poluição do ar, em grande parte urbana, pela queima dos combustíveis fósseis. No Brasil, o maior problema é o diesel de ônibus e caminhões, porque nós não temos muitas usinas termoelétricas aqui, e a maioria delas a gás natural.

Mas a poluição do ar também vem também pelas micropartículas que saem quando se queima vegetação. A agropecuária no Brasil usa demais o fogo, tanto na hora em que desmata e queima a floresta para fazer a pastagem e lavoura, quanto para preparar terreno.

E existe um aspecto paralelo do impacto do impacto da pecuária na saúde, que é que no mundo inteiro está aumentando o consumo de carne. Isso ocorre em todas as categorias de carne, mas especialmente a carne bovina.

Como esse problema impacta nas ondas de calor? A emissão de carbono da pecuária alimenta diretamente a mudança climática.

Agora, realmente, com os extremos climáticos, o que mais leva a mortes são as ondas de calor. Nos últimos três anos, nós batemos todos os recordes de temperatura do aquecimento global.

A temperatura chegou um acréscimo de 1,5°C, um nível para o qual nós, cientistas, há mais de 30 anos, estávamos alertando que quando o aquecimento global chegasse a 1,5°C, todos os eventos extremos — ondas de calor, secas, chuva excessiva, incêndios florestais, vendavais, ressacas nas costas oceânicas — sofreriam um aumento exponencial.

E é exatamente o que vemos nos últimos três anos. E desses eventos extremos, o que mais está levando a mortes são as ondas de calor.

São mais de 500 mil mortes por ano no mundo. No Brasil, de 2013 para cá, são entre 10 mil e 14 mil mortes por ano, que podem ser atribuídas ao aquecimento global.

Aponta análise do Observatório do Clima: Sete em cada dez parlamentares do novo Congresso se posicionam contra a agenda ambiental O El Niño amplia o risco neste ano?

Sim. Nós estamos no ano de El Niño mais forte do registro histórico desde que se começou a medir a temperatura no Oceano Pacifico equatorial, há 70 ou 80 anos.

O El Niño começou por volta de junho, e estudos mostram que de junho até fevereiro se espera mais de 450 mil mortes no mundo inteiro como consequência. O El Niño contribui gerando ondas de calor, o que mais leva a mortes.

Depois vem os eventos de chuvas extremas, lógico, eles geram alagamentos, que tem um número alto de mortes trágicas, mas bem menor que as ondas de calor. Manaus e Porto Velho ficaram debaixo de fumaça neste mês por causa de queimadas e incêndios florestais.

As cidades da Amazônia vão sofrer mais que as grandes metrópoles da América do Sul? No sudeste do Brasil, nas capitais, o principal fator de impacto é a queima de combustíveis fósseis.

Quando você vai na Amazônia, a queima de combustíveis fósseis nas cidades também existe, mas o principal fator gerador dos micropoluentes é a queima da vegetação. Na Amazônia, como o vento leva o ar e leva os poluentes do leste para o centro do oeste, as áreas de maior poluição são já parte do estado Amazonas e depois do oeste do estado Amazonas, Rondônia, Acre, Amazônia peruana, Amazônia boliviana.

Um estudo mostrou que nessas regiões, a expectativa de vida já caiu de 1,5 a 2,5 anos de vida. Com os mega incêndios no segundo semestre de 2023 na Amazônia, Manaus bateu o recorde de poluição.

A queda nos números de desmatamento não ajuda a conter esse problema? Sim, e é verdade que começou a cair muito o desmatamento a partir de 2023.

Este ano será o menor desmatamento na história desde que a ditadura militar começou a desmatar nos anos 1970. Mas houve uma mudança na dinâmica do desmate, por causa do crime organizado da região.

Historicamente, quem faz grilagem de terra criando pastagens e fazendas de pecuária estava sendo muito mais fiscalizado, porque o desmatamento tradicional leva semanas, e o sistema satelitário do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) detecta diariamente os dados. Eles passam os dados para o Ibama, que verifica se aquela área ali sendo desmatada tinha autorização, era legal.

Mas 90% são ilegais, e o Ibama, em parceria com polícias militar, civil, e federal, vai e bloqueia o desmatamento. Série histórica do Inpe: Desmatamento na Amazônia caiu 71,2% em 2026 na comparação com o último ano de Bolsonaro; no Cerrado queda foi de 48,4%

Acontece que o crime organizado, a partir de 2023, mudou as formas tradicionais de desmate e começou a usar mais fogo dentro da floresta — incêndios para desmatar mesmo, diferentes daquele fogo que pula das pastagens para a mata. Estamos aguardando agora dados do Inpe e do MapBiomas pra ver se esse grande número de incêndios no Pará, Amazonas e Rondônia são incêndios que foram provocados dentro da floresta pelo crime organizado.

Nesta eleição, a bancada ruralista, que pressiona por afrouxamento da regulação ambiental, aumentou no Congresso. Isso o preocupa?

Sem dúvida. Hoje no Senado e na Câmara, são 62% os aprovam essa expansão do agronegócio.

Eles passaram, o projeto de lei que foi chamado de PL da Devastação, que permite a um produtor rural fazer uma autodeclaração de que está seguindo a lei para ele seguir direto para o desmatamento. Agora, com essa eleição, essa bancada subiu para 68%.

Então, é muito provável que o Congresso continue com essa linha. O senhor foi o primeiro cientista a falar na Amazônia sobre o 'ponto de não retorno', que é a perda de área vegetada a partir da qual a floresta não se sustenta mais como bioma.

Essa preocupação existe agora também para outros biomas? Sim, depois do meu trabalho, que começou em 1991, outros cientistas mostraram que o Cerrado, o Pantanal e a Caatinga estão também na beira do ponto de não retorno.

Na Amazônia, nós já estamos dizendo isso há muitos e muitos anos. Então, o que o Congresso devia fazer é inverter totalmente essa tendência de afrouxamento da lei e seguir o que o Brasil levou para a COP30: o mapa do caminho para zerar o desmatamento e a degradação de todos os biomas do mundo até 2030, além de começar grandes projetos de restauração e regeneração.

Se a gente continuar com o desmatamento da Amazônia, Cerrado, Pantanal e Caatinga e o aquecimento global continuar, até 2040 a gente passa do ponto de não retorno de todos esses biomas. Mais de 70% da Amazônia vai virar uma savana degradada, mais de 70% do Cerrado vai virar Caatinga, e mais de 50% da Caatinga vai virar semi-deserto.

O Pantanal terá desaparecido totalmente. A COP30, em Belém, tentou aprovar os mapas do caminho em plenário e não conseguiu.

Qual sua expectativa para a COP31 na Turquia em novembro? É preciso avançar nos dois mapas do caminho.

Além de zerar o desmatamento, também é importantíssimo acelerar a redução e zerar o uso de combustíveis fósseis. Na COP30, a presidência pediu a mim e a meu colega Johan Rockström, da Alemanha, para criar um pavimento de ciência planetária.

Nós fizemos isso em Belém, e realizamos 65 apresentações de cientistas lá, sobre todos os aspectos do problema da mudança climática, inclusive a Amazônia. Levamos para todos os negociadores documentos dizendo que era preciso acelerar os mapa do caminho.

Infelizmente, muitos países não concordaram. O embaixador André Corrêa do Largo, presidente da COP30, e a secretária-executiva Ana Toni continuaram trabalhando nisso depois.

Nós, cientistas, colaboramos, e produzimos documentos que eles estão levando para a COP 31. Agora nós podemos estar, digamos assim, mais otimistas.

Por quê? Porque 2026 bateu o recorde no o número de pessoas que morreram com as ondas de calor da Europa e em muitos outros lugares, já com esse calor que o El Niño está causando. Por isso talvez esses dois mapas do caminho serão apoiados por um número maior de países na COP31.

Como o sr. vê o impacto da eleição para presidente do Brasil na agenda de clima?

Isso me preocupa muito, e tem algo que me intriga. Eu perguntei para cientistas que lidam com temas culturais e sociais sobre uma coisa que é difícil para nós, cientistas ambientais e climáticos, entendermos.

No mundo inteiro, a grande maioria da população reconhece o perigo das mudanças climáticas. No Brasil, são 83%, e mesmo nos Estados Unidos, são 73%.

Como se explica então que países que não são negacionistas climáticos, países que são democracias, elegerem presidentes totalmente negacionistas? Isso aconteceu nos EUA, na Argentina e em alguns outros lugares. Aquele presidente brasileiro lá atrás, eleito em 2018 (Jair Bolsonaro), era negacionista.

No momento em que ele foi eleito, imediatamente anunciou o mesmo que o então presidente americano [Donald] Trump já tinha feito: que iria tirar o país do Acordo de Paris contra as mudanças climáticas. Vídeo: Flávio Bolsonaro diz que vai ‘acabar com entraves ambientais’ em carreata no Pará

Mas quando ele anunciou que ia fazer, isso aquela que ele nomeou como ministra da agricultura, Tereza Cristina, disse para ele: "Olha, se você sair do Acordo de Paris, todos os países europeus já me avisaram que não vão importar mais nada do Brasil". Ele então voltou atrás e desistiu de tirar o Brasil do Acordo, mas nós sabemos que ele é super negacionista de mudanças climáticas e o filho dele (Flávio Bolsonaro, atual candidato) também é.

É um mistério para mim o motivo pelo qual uma população que não é negacionista elege um presidente negacionista. É assim no mundo inteiro, e o Brasil é um dos países com o menor índicie de negacionismo da população medido por pesquisas.

Por que vai eleger um político negacionista? O peso das lideranças anti-clima está sendo sentido na negociação global de clima?

Sim. Isso tem consequências.

Os Estados Unidos aumentaram no ano passado 2,5% das emissões dos gases de efeito estufa. Neste ano vão aumentar ainda mais, porque o presidente mandou reativar um monte de minas de carvão que estavam fechadas há muitos anos.

A Argentina aumentou também as emissões. Se as democracias continuarem elegendo esses políticos, a gente chega num momento não muito distante, entre 2040 e 2050, em que a gente passa dos pontos de não retorno.

É o que a gente chama "ecocídio", suicídio ecológico.

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