Muito antes de os trens cruzarem a Zona Norte, povos indígenas e comunidades sambaquieiras já ocupavam as terras que hoje formam a Leopoldina. Séculos depois, a região se tornou parte fundamental da história ferroviária, industrial e cultural do Rio de Janeiro.
Foi também território de criação de manifestações populares que ajudaram a moldar a música brasileira e continuam presentes na vida dos moradores. Neste ano em que a inauguração do primeiro trecho ferroviário completa 140 anos, artistas, instituições e moradores voltam a se mobilizar para reivindicar o reconhecimento dessa história e da contribuição da região para a cidade.
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A programação da Semana da Leopoldina reúne diferentes gerações em torno da cultura local. Entre as atividades está o baile charme gratuito “100% nos trilhos do subúrbio”, realizado nesta sexta-feira, a partir das 17h, no Reduto Pixinguinha, na Praça Ramos Figueira, em Olaria.
Galerias Relacionadas Organizado pelo Instituto Cultural Grupo 100% Suburbano, o evento terá participação do professor Berticelli e da DJ Vanessa.
O instituto também prevê, em novembro, o Viradão Cultural Suburbano, em diálogo com o Mês da Consciência Negra e o Dia Nacional de Zumbi (20 de novembro). Em dezembro, haverá atividades pelo Dia Nacional do Samba.
Como parte da Semana da Leopoldina, mostra de Dança na Arena Dicró reuniu academias da região Divulgação/Semana da Leopoldina
Para Luiz Carlos Nunuka, produtor cultural e presidente do Instituto Cultural Grupo 100% Suburbano, manter o charme em atividade é uma forma de preservar a memória da cultura negra e suburbana e aproximar diferentes gerações. — Manter o charme vivo é preservar uma parte importante da nossa história.
Ele não é apenas música e dança. É identidade, ancestralidade, autoestima e resistência cultural — afirma.
Onde está a Sueli? Arara monitorada reaparece na Floresta da Tijuca após fuga; equipe tenta fazer recaptura O baile será realizado no Reduto Pixinguinha, espaço criado pelo instituto em 2014 e aprovado por lei municipal em 2018.
Desde 2012, o grupo promove na Praça Ramos Figueira a Ocupação Pixinguinha, com atividades mensais no terceiro domingo de cada mês, como lançamentos de livros, feira de artesanato e rodas de choro e samba. Pixinguinha, um dos grandes nomes da música brasileira, morou nas proximidades.
Sem fins lucrativos, o instituto oferece atividades culturais gratuitas nos próprios bairros. Além dos eventos, mantém a Orquestra de Choro Jonas Barros, voltada ao aprendizado musical de jovens, e o Circuito Paulo Barão, direcionado ao lazer de idosos.
A proposta é ampliar o acesso à cultura e criar oportunidades para diferentes públicos. — A cultura é um direito, e não um privilégio — resume Nunuka.
A defesa da cultura suburbana também está na origem da Semana da Leopoldina. A mobilização começou a tomar forma entre 1993 e 1994, quando artistas e instituições se organizaram para enfrentar a imagem negativa associada aos subúrbios.
Os coordenadores Miguel Gustavo da Silva Gomes e Zoraya Fernanda de Almeida relacionam o surgimento do movimento ao contexto do início dos anos 1990, quando a cobertura jornalística dos arrastões nas praias da Zona Sul contribuiu para reforçar estereótipos sobre os jovens da Zona Norte.
Zoraya destaca o papel simbólico da linha de ônibus 484, que ligava Olaria a Copacabana. Na avaliação dela, a associação entre os jovens suburbanos e a criminalidade ajudou a estigmatizar moradores e a questionar a presença deles em espaços tradicionalmente identificados com as camadas mais ricas da cidade.
Foi nesse cenário que surgiu o Arrastão Cultural, no fim de 1992. A iniciativa levou exposições itinerantes a bairros da Leopoldina, com dança, música, artes plásticas, teatro e outras manifestações.
O movimento culminou em uma grande mostra coletiva no Palácio Gustavo Capanema, com apresentações de capoeira, ópera, dança, poesia e teatro. Fundação Oswaldo Cruz, nas terras da antiga Fazenda Manguinhos, em registro de 1933
Arquivo Nacional Entre 1993 e 1994, as atividades deram origem à Semana da Leopoldina, realizada em outubro, por volta do dia 23, data da inauguração do primeiro trecho ferroviário.
Desde então, artistas, instituições, agremiações e organizações da sociedade civil se mobilizam em torno de saraus, exposições, espetáculos, debates, rodas de conversa, ações sociais e mostras de cinema. Clubes da região, como Olaria e Social Ramos, também cederam espaços para as atividades.
Tragédia: Idoso morre após ser atropelado no Aterro do Flamengo; adolescente que conduzia bicicleta elétrica foi levado para delegacia Para Miguel Gustavo da Silva Gomes, mostrar o que é produzido nos bairros pode mudar a maneira como os próprios moradores se relacionam com o lugar onde vivem.
— A gente começou a mostrar, através da Semana da Leopoldina, que aqui existem muitos valores, muita cultura e muita coisa boa também. Se a pessoa gosta de onde mora, ela luta pelo local — diz Gomes.
A desigualdade no acesso aos espaços culturais continua sendo uma preocupação. Gomes cita como exemplo a mostra de dança realizada esta semana na Arena Dicró, que reuniu academias da região.
Enquanto escolas com mais recursos conseguem alugar teatros para as apresentações de fim de ano, grupos com menos condições financeiras nem sempre têm a mesma oportunidade. — E as mais pobres? E o sonho das meninas, onde fica? — questiona Gomes.
A programação deste ano inclui a participação na segunda Feira Literária da Unisuam, uma palestra com café da manhã no Mercado São Sebastião e o lançamento da primeira antologia de poetas da Leopoldina, em parceria com a Academia Leopoldinense de Letras e Artes (Alla). Criada recentemente, a academia tem Miguel Gomes como presidente e Zoraya Almeida à frente do departamento jurídico.
Zoraya também destaca o crescimento de grupos de poesia e música e de coletivos culturais e ambientais, como o Olaria Verde. A Zona da Leopoldina
Editoria de Arte A semana entrou no calendário oficial da cidade e mantém reuniões abertas à participação dos moradores.
Segundo Zoraya, jovens têm se aproximado da organização e apresentado propostas para as atividades. A história da Leopoldina é muito anterior à chegada dos trilhos.
O historiador Rafael Mattoso lembra que vestígios de ocupação humana encontrados na região incluem sambaquis com cerca de 4.500 anos e estruturas formadas por comunidades que viviam da pesca e da coleta de moluscos. Achados desse período vieram à tona durante obras de ampliação do aeroporto, na Ilha do Governador.
A presença indígena também marcou a formação do território. Nomes como Irajá e Inhaúma preservam referências a essa história.
Antes da expansão ferroviária, a Baía de Guanabara e os cursos d’água tinham papel importante na circulação de pessoas, enquanto manguezais, áreas alagadas e comunidades de pescadores compunham a paisagem. — A relação com a Baía de Guanabara foi decisiva para a ocupação da região.
Antes da ferrovia, embarcações eram uma das principais formas de circulação. Rios, manguezais, áreas alagadas e comunidades de pescadores faziam parte da paisagem, posteriormente modificada por construções, aterros e obras de infraestrutura — frisa Mattoso.
A inauguração do primeiro trecho da Estrada de Ferro do Norte, em 23 de outubro de 1886, marcou uma nova etapa dessa transformação. Mais tarde incorporada à Estrada de Ferro Leopoldina, a linha contribuiu para integrar os subúrbios e impulsionar a expansão urbana e industrial.
Quatro décadas depois, em 6 de novembro de 1926, foi inaugurado o prédio da Estação Barão de Mauá, construído para centralizar as operações ferroviárias da antiga Leopoldina. Teatro histórico: Fechado há 35 anos, Leopoldo Fróes, em Niterói, será desapropriado e reaberto
A delimitação da Zona da Leopoldina varia conforme o recorte histórico ou administrativo adotado. Segundo o historiador Rafael Mattoso, inicialmente, a região era identificada a partir de 11 áreas.
Em outro recorte, relacionado às regiões administrativas, a lista passou a reunir 13 bairros: Manguinhos, Bonsucesso, Ramos, Olaria, Penha, Penha Circular, Brás de Pina, Vila da Penha, Vila Kosmos, Cordovil, Parada de Lucas, Vigário Geral e Jardim América. Com a ampliação dessa delimitação, que passou a considerar outros territórios, a região chegou a 18 bairros.
Além dos 13 já citados, essa definição inclui São Cristóvão, Caju, Benfica, Triagem e Maré. A construção da Avenida Brasil, cujo primeiro grande trecho começou em 1946, também alterou a paisagem e as formas de deslocamento.
Em 2026, completam-se 80 anos desde o início dessas obras. As mudanças na infraestrutura, porém, não garantiram a preservação de todo o patrimônio que ajuda a contar a história local.
Mattoso chama a atenção para o abandono de espaços ligados à memória ferroviária: — O Museu do Trem está fechado há anos, e a Estação Barão de Mauá, também conhecida como Estação Leopoldina, passou longo período abandonada.
As obras no prédio foram retomadas após uma ação do Ministério Público, mas ainda não há informações sobre o prazo de entrega e a função que o espaço terá para a população. Descarte irregular de lixo na Praça da Bandeira: homem flagrado despejando material responde com 'joinha' ao ser repreendido: vídeo
Para o historiador, aproximar essa história dos moradores depende também de torná-la mais visível no cotidiano. Ele defende a instalação de placas informativas, totens interativos e códigos QR nas estações, para que os passageiros possam conhecer a história dos lugares por onde passam diariamente.
— A preservação desses espaços é uma das formas de manter viva a memória da Leopoldina, mas a história da região também está nos lugares de encontro, nas manifestações populares e nas expressões artísticas que atravessaram gerações — diz. A produção cultural é parte fundamental dessa memória.
Com forte presença negra, a Leopoldina ajudou a formar tradições que influenciaram a música brasileira. A Festa da Penha, realizada no entorno da Igreja de Nossa Senhora da Penha de França, tornou-se um importante ponto de encontro de músicos e de circulação de repertórios populares.
Segundo Mattoso, a celebração reuniu nomes fundamentais para a história do samba, como Pixinguinha, Donga, Ismael Silva e Tia Ciata. A apresentação de “Pelo telefone”, de Donga e Mauro de Almeida, é um dos episódios associados à importância da festa para a música brasileira.
Em diferentes épocas, outros espaços também marcaram a cena musical da região. O bar Sovaco de Cobra fez sucesso nos anos 1970, enquanto o Cacique de Ramos contribuiu para renovar o samba a partir dos anos 1980.
O choro, a capoeira, o jongo e os bailes black e charme ampliaram esse repertório e mantiveram vivas variadas formas de expressão popular. De identidade trocada a segredo de 15 anos: livro revela histórias curiosas de mulheres da Mangueira
Apesar dessa contribuição, a produção cultural suburbana nem sempre recebeu o devido reconhecimento. Para Mattoso, a desvalorização dessas manifestações está relacionada à segregação urbana e racial, que dificulta o reconhecimento das expressões criadas em territórios majoritariamente negros.
A história da Leopoldina não se limita à ferrovia e à música. Ela também aparece nos espaços de moradia, nas referências religiosas e nas paisagens transformadas pela urbanização.
Mattoso cita o conjunto habitacional Iapi da Penha, inaugurado em 1949, como referência para a trajetória da moradia popular no Brasil. Lembra ainda o padre Ricardo, ligado à Igreja da Penha e à luta abolicionista, e a antiga Praia de Inhaúma, cuja paisagem foi profundamente modificada ao longo do processo de ocupação urbana.
Na Penha, a Basílica do Santuário de Nossa Senhora ocupa um lugar importante na memória religiosa da região. O reitor, padre Thiago Sardinha de Jesus, conta que a devoção se espalhou a partir de uma narrativa popular sobre o capitão Baltazar, que teria invocado Nossa Senhora ao se deparar com uma cobra.
Galerias Relacionadas A história da devoção também se confunde com a dos deslocamentos pela Leopoldina.
Segundo o padre, os romeiros chegavam à região por diferentes caminhos: embarcações atracavam no antigo Porto de Maria Angu, enquanto trens e bondes também transportavam fiéis. Mais tarde, ônibus e outros meios de transporte passaram a fazer parte desse fluxo.
A Rua dos Romeiros conserva no próprio nome uma referência a essa tradição. Em 15 de setembro de 1966, a igreja foi elevada à categoria de santuário pelo então arcebispo Dom Jaime de Barros Câmara.
Em 2026, o reconhecimento completa 60 anos. A basílica mantém um museu e uma Sala de Milagres, com fotografias, livros, objetos e testemunhos ligados à devoção popular.
De acordo com o padre, os espaços podem ser visitados aos domingos, das 8h ao meio-dia, e também recebem visitas guiadas durante a semana, mediante agendamento. — Preservar essa história também é uma forma de aproximar as novas gerações da memória do território e valorizar a relação entre a basílica e os diferentes bairros da Leopoldina — reflete o reitor.
A discussão sobre o futuro da Leopoldina passa pelas condições de vida de quem mora na região. Além da preservação do patrimônio e do reconhecimento da produção cultural, Mattoso chama a atenção para problemas que afetam diretamente o cotidiano dos bairros, como enchentes, poluição e pouca cobertura vegetal.
O historiador defende a recuperação dos rios que deságuam na Baía de Guanabara, um planejamento urbano mais cuidadoso, critérios para a autorização de novas construções e a requalificação de antigas áreas industriais. Na avaliação dele, instituições como a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), na Ilha do Fundão, e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) podem contribuir para pensar soluções para esses desafios.
— Os desafios ambientais e urbanos acrescentam outra dimensão à discussão sobre o reconhecimento da Leopoldina. Preservar a memória não significa apenas recuperar edifícios históricos ou valorizar manifestações culturais, mas também considerar o território onde essa história continua sendo construída.
As enchentes, a poluição e a falta de áreas verdes afetam o cotidiano dos moradores, enquanto a conservação do patrimônio e o acesso à cultura ajudam a definir a relação da população com os bairros. A Semana da Leopoldina reúne parte dessa história em uma programação que valoriza a produção de artistas, instituições e moradores.
A mobilização também reivindica reconhecimento para quem construiu e mantém viva a identidade da região — uma contribuição que, para Mattoso, precisa ser lembrada a partir do trabalho de quem faz a cultura acontecer. — É importantíssimo lembrar que essas manifestações são feitas pela mão, pelos braços, pelos corpos e pela força dos suburbanos — afirma o historiador.
O Globo