Kassio Nunes Marques: “O que estamos vendo em 2026 é inédito. O aumento na quantidade de processos já chega a 100%, em comparação a 2022”
Leobark Rodrigues/Secom/TSE - 20/10/2026 Se durante o primeiro turno o Supremo Tribunal Federal (STF) foi um protagonista inesperado das eleições, na reta final da disputa o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) chamou mais atenção e passou a figurar como um dos centros da disputa.
Nas últimas semanas, a corte eleitoral se viu às voltas de um forte debate sobre a interferência das big techs no pleito e de uma judicialização recorde por parte das campanhas dos candidatos à Presidência Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). Segundo ministros, o TSE foi obrigado a se posicionar diante da alta no número de processos.
Eles afirmam que houve uma demora inicial e um certo “represamento” na análise de representações por parte do presidente da corte, Kassio Nunes Marques, mas que as ações começaram a andar durante o segundo turno. Apontam, ainda, que o TSE ganhou protagonismo porque o Supremo, fortemente atuante no primeiro turno, fez um recuo estratégico diante do avanço da bancada conservadora no Senado em 2027 e da expectativa de uma possível vitória de Flávio, que tem como bandeira o impeachment de ministros da Corte, como Alexandre de Moraes.
Antes poderoso por ser o relator da trama golpista, Moraes ficou fragilizado após vir à tona o seu suposto envolvimento no escândalo do Banco Master. A avaliação de integrantes da corte eleitoral, especialmente da ala mais crítica a Nunes Marques, é que o Supremo mais contido abriu espaço para que o TSE ficasse mais em evidência.
Para eles, no entanto, o protagonismo jogou luz a uma gestão “atabalhoada” da cúpula do tribunal e não trouxe medidas concretas para garantir o equilíbrio ao pleito presidencial. Parte da relevância do TSE no segundo turno se deve a decisões controversas tomadas por Nunes Marques e seu vice, André Mendonça.
Uma delas foi a que suspendeu o funcionamento do canal “Exército do Lula”, criado pelo deputado André Janones (Rede-MG) e um dos maiores trunfos de Lula no segundo turno. Apesar de o caso ter um relator, o presidente do TSE gerou impasses ao dar uma decisão administrativa - que não pode ser levada ao plenário - barrando a lista de transmissão.
Nunes Marques voltou atrás após protestos de colegas e reclamações de que não tratou canais de apoiadores de Flávio da mesma forma. Ele, então, pautou para o plenário o julgamento de regras para definir quando canais de WhatsApp e outros sítios de terceiros devem ou não estar vinculados às campanhas.
Mesmo assim, o “Exército de Lula” chegou a ficar fora do ar por quase um dia. Em outro movimento, Nunes Marques e Mendonça tentaram emplacar uma nova regra para bloquear todos os canais de WhatsApp com mais de 200 mil pessoas inscritas nas 48 horas anteriores à eleição.
Após a repercussão, no entanto, a articulação subiu no telhado e o tema deve ser discutido depois do pleito. Ministros do Supremo afirmam que a Corte atuou menos simplesmente porque não foi tão provocada nesta reta final.
Há, no entanto, quem admita que decisões dadas antes do primeiro turno prejudicaram ainda mais a imagem da Corte. Entre os exemplos citados está a ordem de Gilmar Mendes determinando que Renan Santos (Missão) participasse do debate dos presidenciáveis na TV Globo, que acabou cancelado.
Ao Valor, Nunes Marques defendeu-se das críticas. Ele nega que tenha ocorrido demora no julgamento de ações importantes e aponta a alta da casos como desafio.
Mendonça não se manifestou. “Na reta final, o vislumbre do resultado pelos competidores também é um elemento para a multiplicação das demandas.
Entretanto, o que estamos vendo em 2026 é inédito. O aumento na quantidade de processos já chega a 100%, em comparação a 2022.
Em razão disso, foram convocadas dezenas de sessões extraordinárias presenciais e virtuais, para dar vazão aos casos”, aponta Nunes Marques. Fizemos todos os esforços para enfrentar os desafios de um pleito judicializado”
Segundo dados atualizados do TSE, os presidenciáveis ajuizaram 804 ações em 2026, mais que o dobro das 388 de 2018 e das 325 de 2022. A maior parte delas questiona suposta propaganda irregular de Lula e Flávio, além de pedidos de investigação e de direito de resposta.
“O que podemos garantir é que todos os esforços necessários foram e serão feitos para enfrentar os desafios de um pleito hiperjudicializado. Correr contra o tempo também é uma tradição da Justiça Eleitoral”, prossegue o ministro.
Outra movimentação recente do presidente do TSE e que gerou críticas foi um ofício enviado às plataformas de internet em 9 de outubro liberando a recomendação, via algoritmos, de perfis e posts de candidatos que foram eleitos no primeiro turno. Antes, nenhuma rede podia fazer recomendações de candidatos no período eleitoral, regra que deveria ser mantida no segundo turno.
A avaliação interna é que a decisão beneficiou perfis que apoiam o candidato do PL, que costumam ser mais atuantes nas redes sociais. A possível disparidade também alavancou a discussão sobre se big techs estariam beneficiando conteúdos pró-Flávio nas redes.
Nunes Marques fez reuniões com representantes de plataformas para pedir tratamento igual às campanhas. Coube ao ministro Marco Aurélio Bellizze, no entanto, proibir que a Meta restringisse o alcance de publicações de um campo político em detrimento do outro.
Ao TSE, a Meta negou tratamento desigual entre as candidaturas presidenciais. No início da semana, no entanto, o Comitê de Supervisão de Conteúdo da Meta, formado por profissionais independentes, disse que a empresa falhou em manter padrões de transparência capazes de afastar suspeitas de interferência na disputa no Brasil.
Além disso, ministros afirmam que em diversas ocasiões Nunes Marques e Mendonça atuaram como se tivessem superpoderes, especialmente para driblar o plenário do TSE, onde provavelmente sairiam derrotados. O episódio do “Exército de Lula” foi só um dos casos mais evidentes.
Em um caso recente, por exemplo, Mendonça suspendeu o julgamento sobre a retirada de um vídeo publicado por Lula que associava Flávio a um “tesouraço” em programas sociais. Já havia maioria para derrubar a ordem do ministro, mas a análise não foi concluída, o que fez prevalecer a decisão favorável ao candidato do PL.
Além disso, a falta de uma informação precisa sobre quantos locais de votação foram alterados no segundo turno gerou dúvidas entre os eleitores. Na semana passada, a Justiça Eleitoral divulgou que mais de 4,3 mil seções teriam mudanças em todo o país.
Esse número, no entanto, foi alterado diversas vezes nos últimos dias e caiu para menos de 400. Nesta reta final, o TSE foi palco ainda de um embate, mais político do que jurídico, após Lula desafiar Flávio a quebrar seus sigilos bancário, fiscal e telefônico.
Um acordo foi assinado na quinta-feira (22) e o acerto também envolveu parentes de ambos os candidatos. Por enquanto, porém, nada concreto foi revelado por nenhuma das candidaturas.
Especialistas ouvidos pelo Valor avaliam que houve pontos de atenção neste segundo turno. Em relação ao “represamento” das ações, o advogado Jonatas Moreth, que atua na área do direito eleitoral, aponta que isso ocorreu mais em caráter “qualitativo” do que “quantitativo”.
Para ele, em alguns casos, a cúpula do TSE segurou a conclusão de julgamentos que poderiam causar impactos no pleito. Quanto ao recuo da atuação do Supremo, ele sustenta que as campanhas deixaram de provocar tanto a Corte, e optaram por ações no TSE.
Ele também vê uma diminuição da legitimidade do STF, em meio à crise interna. “Havia menor capital político para gastar.”
O advogado Fernando Neisser aponta um outro fator que contribuiu para diminuir a atuação do STF. Em 2 de outubro, o presidente da Corte, Edson Fachin, elaborou regras para impedir que pedidos fossem encaminhados diretamente a relatores específicos.
No primeiro turno, políticos e partidos abusaram de solicitações feitas em ações que já existiam, para escolher relatores mais amigáveis, em burla à livre-distribuição de processos. “Kassio foi pedir para bloquear reclamações direcionadas a ministros do STF.
Com isso, houve uma liberdade maior de o TSE atuar”, avalia.
Valor