A cientista política Camila Rocha: “Lula vai ter que navegar por demandas por soberania e questões populares e por demandas para agradar ao Centrão” Gabriel Reis/Valor
A cientista política Camila Rocha, pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), tradicional centro de pesquisas em São Paulo, diz que a vitória, de virada, do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no domingo (25) foi puxada, em parte, pelas dúvidas e pelo medo que seu oponente, Flávio Bolsonaro (PL), passou a inspirar nos eleitores.
Foi, disse ela, um medo motivado pela perspectiva de uma guinada nas políticas públicas voltadas para famílias de mais baixa renda, caso a oposição vencesse. Além do medo, houve o tremendo impulso nas redes sociais e as grandes mobilizações nas ruas de várias cidades do país, que embalaram a campanha no segundo turno, como não havia ocorrido no primeiro.
A queda na abstenção também ajudou a mudar jogo a favor do petista. Lula começará seu quarto mandato em janeiro com o bônus político que todo eleito dispõe: a força para levar adiante suas medidas.
Mas neste quarto mandato ele terá de se haver com uma dificuldade significativa: um Congresso marcadamente de oposição. “Lula terá de fazer um pacto com o Centrão, que tem mais ou menos em torno de 200 deputados”, diz Camila Rocha, que é diretora científica do Centro para a Imaginação Crítica do Cebrap.
Da qualidade da costura com o Centrão dependerá sua capacidade de governar, avalia ela. Mais do que isso: se essa costura não for bem feita, no extremo, Lula conviverá com o risco de sua estabilidade no cargo.
Rocha diz que o presidente poderá ter uma militância reavivada à sua disposição para, em alguma medida, fazer um contra-ponto ruidoso e entusiasmado ao Congresso de oposição. De qualquer forma, apesar da festa da vitória do PT e do lulismo, o cenário para a governabilidade exigirá do presidente um apetite maior para compor.
“O PT realmente vai ter que distribuir poder, não vai poder governar sozinho. Neste terceiro mandato de Lula, ainda teve a distribuição de cargos e ministérios-chave para petistas.
Não sei se o Lula vai conseguir fazer isso agora, pensando no tipo de governabilidade que ele vai precisar construir”, diz Camila Rocha, que nesta campanha conduziu diversas entrevistas com grupos focais que no primeiro turno não votaram nem em Lula nem em Flávio. A seguir, alguns dos principais trechos da entrevista da cientista política ao Valor:
Valor: O que foi decisivo para a virada de Lula? Camila Rocha: Uma combinação de mobilização digital, que eu colocaria em primeiro lugar, e as manifestações de rua.
Aumentou o número de pessoas nos atos de campanha. Também pesou o aumento de rejeição a Flávio Bolsonaro.
A campanha de Lula foi bem sucedida em causar esse aumento de rejeição, sobretudo pelo medo. O medo de perda de direitos, o medo de concentração de poder.
A campanha do Lula trabalhou com isso também de forma muito forte. A virada também se deveu ao eleitorado contra o bolsonarismo, pessoas que não foi tinham ido votar no 1º turno ou que tinham votado em branco, nulo ou outros candidatos e que agora votaram contra o Flávio.
E, por fim, também teve efeito para a virada de Lula o pacote de bondades de aprovado pelo governo nas últimas semanas. Valor: Lula teve ao longo de toda a campanha uma alta rejeição.
O que mudou, no último momento, para que isso não impedisse sua vitória? Rocha: Existem níveis de rejeição e existem níveis de medo.
Para mim era muito claro na percepção de uma parte dos eleitores o medo de Flávio Bolsonaro. Eu entrevisto eleitores há muitos anos e foi a primeira vez que eu vi eleitores manifestarem tanto medo.
Medo de perder políticas que elas consideram essenciais para a vida delas. Os eleitores do Flávio, ou mesmo os eleitores que vão votar no Flávio porque rejeitam o Lula, não vinham manifestando esse terror.
Sim, diziam que estão cansados do Lula. Não queriam um novo governo.
Mas era mais um cansaço do que um medo. E entre os eleitores que foram de alguma forma percebendo quem era o Flávio foi se criando uma sensação de pânico.
As pessoas falavam que tinham medo de que não teriam mais o SUS ou que o SUS iria piorar muito, que as condições de trabalho iriam piorar muito, que polícia seria mais violentas com pessoas negras. Valor: Olhando para o futuro: com um Congresso marcadamente de direita, como Lula conseguirá governar?
Rocha: Lula vai começar com força e poderá aproveitar esse momento no começo do governo. Mas neste atual governo de Lula, a governabilidade já foi muito difícil.
Isso dá para ver na taxa de conversão de medidas provisórias em legislação. É uma curva que desde o primeiro governo Lula vem declinando.
A próxima legislatura no Congresso será ainda mais marcada pela presença de parlamentares bolsonaristas, mais à direita. Lula terá de fazer um pacto com o Centrão, que tem mais ou menos em torno de 200 deputados.
Tem um aspecto importante: o papel da sociedade civil e da população na governabilidade. Na questão do fim da escala 6 por 1, por exemplo.
Chega uma hora que, se as pessoas constroem um consenso muito grande a respeito de determinada coisa, acaba que muitos deputados se sentem constrangidos a votar contra. Isso pode acontecer em outras pautas na próxima gestão.
Valor: Ou seja, talvez as ruas, talvez o apoio da militância reavivada possa compensem a falta de apoio que ele terá no Congresso? Rocha: É uma possibilidade.
Lula poderá mobilizar apoiadores se o Congresso for muito contra o governo, se for muito pouco anti-pautas populares. E diante de momentos de forte mobilização, parlamentares costumam evitar se colocar contrários às ruas.
Lula vai começar com força e poderá aproveitar esse momento no começo do governo” Valor: Outro caminho também será a receita tradicional de emendas, ministérios, cargos? Essas moedas de troca continuarão à disposição?
Rocha: Certamente continuarão à disposição. Mas tem uma questão que é o Senado, que terá uma maioria bolsonarista.
E qual é o problema disso? Se ele não conseguir um acordo com o Centrão, ele poderá estar sob constante ameaça de impeachment. E mais do que isso: se a gente for pensar que ele vai ter que nomear vários ministros do Supremo Tribunal Federal, quais as probabilidades de que os nomes passem por esse novo Senado? O atual Senado já barrou o Jorge Messias [indicado por Lula a uma das vagas do STF].
Como é que o Senado bolsonarista vai se comportar? A tendência é que eles possam sistematicamente barrar todas as indicações do Lula. E o que isso significará? Um STF com sete pessoas?
Valor: No extremo, num cenário de forte dificuldade de governabilidade no quarto mandato, uma moeda de troca poderia vir a ser uma anistia a Bolsonaro? Rocha: Isso não está em nenhum cardápio porque toda essa mobilização, tanto digital quanto nas ruas, não foi uma mobilização só em favor do Lula.
Foi uma mobilização contra o bolsonarismo. É muito importante isso ser dito.
Ainda que as pessoas tenha saído às ruas de vermelho, tenham colado adesivo do Lula na roupa, parte dessa mobilização foi mais por esse medo de perder direitos. Por isso, mesmo num eventual momento de governo emparedado, será impensável cogitar uma eventual anistia.
Valor: Embora fortalecido por uma inédita quarta eleição, Lula, ainda nesse contexto de governabilidade, abdicará de algumas pautas? Rocha: O PT vai ter de distribuir poder.
Não vai poder governar sozinho. Neste atual terceiro mandato, ainda houve distribuição de cargos e ministérios-chave para petistas.
Não sei se Lula vai conseguir fazer isso agora, pensando no tipo de governabilidade que vai precisar construir. E talvez o que poderá acontecer é que o que ele aprovou agora, fim da escala 6 por 1 e as outras medidas, talvez sejam o máximo que ele vá conseguir passar no Congresso.
Sem nada muito mais de novo. Valor: Sobre a reação da oposição, o que se pode esperar? A decisão imprevista no domingo de votação de prorrogar por mais duas horas o horário de voto dará asa para queixas?
Rocha: Os oposicionistas talvez queiram contestar os resultados por conta da decisão do ministro Cristiano Zanin [STF]. Valor: Mas não a ponto de esboçarem uma reação parecida com a de 2023? Ou seja, o Brasil está 100% imunizado contra qualquer situação como a do 8 de janeiro?
Rocha: Minha avaliação é que por um lado, como houve essa grande mobilização digital em favor da reeleição e como houve essas grandes manifestações nas ruas, isso garantirá uma energia pelo menos para o começo do novo governo. Talvez nos primeiros seis meses.
Mas isso não impede que haja reações do lado de Bolsonaro. E entre muitos bolsonaristas existe um sentimento que ficou preso na garganta com o pós-8 de janeiro.
Mas é claro que os discursos mais radicalizados são só de um segmento da oposição que, em parte, reverbera em eleitores comuns. Valor: Dado o resultado das eleições e dado esse cenário político no Congresso, qual deverá ser a tônica do novo mandato?
Rocha: Ele vai ter que navegar por demandas relacionadas à soberania e questões populares e navegar também por demandas para agradar ao Centrão. Terá de ser um governo muito mais dividido, muito mais de uma frente ampla do que o governo atual.
Não vai poder descuidar das demandas da população, porque ele depende desse apoio muito mais do que dependeu nos outros governos. Valor: Muito da desconstrução que tanto Lula quanto Flávio fizeram ao longo da campanha teve a ver com corrupção.
O que acontecerá com as investigações que envolvem Roberta Luchsinger, Lulinha? Rocha: Acho que não necessariamente serão travadas.
Inclusive porque vai ter muita pressão da oposição. Lula falou muitas vezes que não vai interferir.
E no histórico dos governos do PT, de fato, Lula não fez um grandes movimentos para impedir investigações. Valor: As investigações contra Flávio tendem a ganhar tração?
Rocha: É provável que a investigação continue. Tanto que o Eduardo Bolsonaro deu aquela declaração de que se Flávio perder seria melhor que saísse do Brasil, prevendo a possibilidade de que seria preso.
E tem também a questão de Daniel Vorcaro, do Alexandre de Moraes, essas que são batatas quentes que vão continuar. O que vão fazer com o Alexandre de Moraes? Terá uma delação premiada? Mas quanto às investigações contra o Flávio, talvez seja meio que uma coisa que aconteça por conta das circunstâncias mesmo.
Não por uma questão política. Valor: Lula vai para o seu último ato na vida política.
O que o PT precisará fazer ao longo dos próximos anos para que continue relevante a partir de 2030, sem Lula? Rocha: Parece-me que tem alguns caminhos de renovação.
Eu acho que o primeiro passa, certamente, por construir novas lideranças. Tem lideranças importantes do PT, mas que ainda são muito regionais.
Um caminho será o partido tomar essas lideranças transformá-las em nomes com apelo nacional. Pode ser um caminho.
Outro caminho: olhar para os outros partidos de esquerda. Também seria saudável pensar na possibilidade de formação de uma frente de esquerda.
Ou seja, talvez apostar em nomes de outros partidos.
Valor