Prometida como ‘bombástica’, entrevista de Flávio Bolsonaro ao ‘NYT’ expõe fuga e teorias conspiratórias

Prometida como ‘bombástica’, entrevista de Flávio Bolsonaro ao ‘NYT’ expõe fuga e teorias conspiratórias - Foto
Fonte da notícia: Carta Capital Carta Capital

Bolsonaristas prometeram uma entrevista ‘red pill’, mas o jornal norte-americano mostrou as contradições do candidato derrotado e os detalhes de sua fuga do Brasil A entrevista de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) publicada na quinta-feira 5 pelo jornal The New York Times foi anunciada por seus aliados como uma oportunidade para apresentar ao mundo a versão do senador sobre a suposta perseguição política no Brasil.

A publicação produziu, no entanto, um resultado bem diferente do prometido. Em vez de um relato convincente de que teria sido vítima de injustiça, houve a exposição de contradições em sua história, de acusações sem provas contra o sistema eleitoral e de miudezas de sua fuga do País.

A reação dos bolsonaristas ao texto revelou a dificuldade em lidar com o resultado. Depois da publicação, aliados mudaram o discurso e disseram que não são “cabaços”, que o jornal seria enviesado e que a entrevista teria sido concedida justamente para colocar o senador no debate internacional.

Na última quarta-feira 4, o influenciador Paulo Figueiredo, um dos principais aliados da família Bolsonaro, antecipou o conteúdo da conversa com o jornal norte-americano. “Amanhã, a entrevista que a TV Globo teve medo de fazer com o Flávio Bolsonaro vai sair no The New York Times.

Spoiler: totalmente red pill. E é só o começo”, escreveu em sua conta no X.

O termo “red pill” está ligado a um movimento misógino contra mulheres e o feminismo. A reportagem foi publicada no dia seguinte.

Em vez de simplesmente reproduzir as mentiras do senador, o NYT contextualizou suas declarações e apresentou informações que colocam em xeque a versão de que ele teria organizado sozinho uma saída espontânea do Brasil. Um dos principais exemplos está na própria explicação de Flávio sobre a viagem.

Ao jornal, ele afirmou que fez tudo por conta própria e que não recebeu ajuda de nenhum governo. “Fui eu que fiz tudo”, declarou.

Questionado sobre como chegou aos Estados Unidos, acrescentou: “Vou levar comigo para o túmulo”. A reportagem, entretanto, relatou que o jatinho que o transportou até Miami foi providenciado por um funcionário da Casa Branca e que sua entrada nos Estados Unidos foi autorizada diretamente pelo presidente Donald Trump, segundo autoridades norte-americanas.

O jornal também recuperou a passagem de Flávio pelo Equador e pela Argentina, onde um dos principais assessores do presidente Javier Milei o encontrou no aeroporto. O NYT também confrontou as acusações de fraude eleitoral feitas por Flávio.

Embora seu próprio partido tenha reconhecido o resultado, o senador afirmou que sua derrota para Lula (PT) seria “matematicamente impossível” e reproduziu teorias conspiratórias sobre as urnas eletrônicas e uma suposta violação de segurança na “sala-cofre” de contabilização dos votos.

Quando questionado sobre as provas de suas suspeitas, admitiu comicamente: “Ninguém pode dizer com 100% de certeza que estou certo, nem com 100% de certeza que estou errado”. A reportagem lembrou que a mudança no horário de votação para as 19h havia sido solicitada pelos dois candidatos, diante de dificuldades provocadas por chuvas e atrasos no transporte de eleitores.

A alteração atingiu 34 mil votos, enquanto Lula venceu por uma diferença de 4,4 milhões.  O jornal lembrou ainda que Jair Bolsonaro (PL) foi condenado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado após perder as eleições de 2022 e que, em 8 de janeiro de 2023, milhares de manifestantes invadiram as sedes dos Três Poderes em Brasília, exigindo que os militares revertessem o resultado eleitoral.

Também recordou que Eduardo Bolsonaro (PL) está nos Estados Unidos depois de defender a interferência do governo Trump no julgamento do pai. Título da reportagem do ‘The New York Times’, em inglês: ‘Como Flávio Bolsonaro fugiu do Brasil? “Levarei isso para o túmulo”, diz’.

A versão impressa do periódico não destacou a entrevista em sua edição desta sexta-feira 6. Foto: Reprodução/NYT

Diante do conteúdo publicado, Paulo Figueiredo passou a apresentar outra explicação para a entrevista. Na noite de quinta-feira, afirmou que os bolsonaristas já sabiam que o jornal apresentaria uma cobertura enviesada e que a participação de Flávio teria sido uma estratégia para recolocá-lo no debate internacional.

“Gente, ninguém aqui é cabaço. Quando o Flávio Bolsonaro concedeu a entrevista ao esquerdista The New York Times, sabíamos que a notícia viria enviesada.

Apenas usamos o Times para o nosso propósito: pautar o Flávio internacionalmente de novo após as midterms”, escreveu no X. Figueiredo também afirmou que o grupo havia solicitado a publicação da entrevista na íntegra, mas que o jornal teria recusado.

Na mesma publicação, anunciou outras entrevistas, com o Washington Post e a Folha de S.Paulo – esta última com o jornalista Glenn Greenwald – e criticou o que chamou de “fetiche de editar a realidade”. Na madrugada de 6 de novembro, Eduardo Bolsonaro também entrou na discussão.

Em vídeo publicado nas redes sociais, afirmou que a conversa publicada pelo NYT tinha “muito mais conteúdo” e anunciou que o grupo divulgaria a gravação completa nesta sexta-feira 6. Segundo ele, a entrevista teria mais de uma hora e permitiria ao público conhecer tudo o que se passa na cabeça do irmão.

Vinícius Nunes Repórter de CartaCapital baseado em Brasília. Cobre os Três Poderes.

Já trabalhou em Jovem Pan, Poder360, UOL, Blog do Noblat, JOTA e SBT News. Muita gente esqueceu o que escreveu, disse ou defendeu.

Nós não. O compromisso de CartaCapital com os princípios do bom jornalismo permanece o mesmo.

O combate à desigualdade nos importa. A denúncia das injustiças importa.

Importa uma democracia digna do nome. Importa o apego à verdade factual e a honestidade.

Estamos aqui, há mais de 30 anos, porque nos importamos. Como nossos fiéis leitores, CartaCapital segue atenta.

Se o bom jornalismo também importa para você, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal de CartaCapital ou contribua com o quanto puder.

Publicação Original Carta Capital cartacapital.com.br
Acessar no site oficial
Compartilhar: WhatsApp Facebook Telegram X
Curadoria e Apuração Editorial QTU Conteúdo jornalístico publicado em conformidade com os nossos Princípios Editoriais e política de transparência.
Conhecer a Redação →