Promessas de expulsão e troca de farpas expõem guerra interna na corrente de Lula no PT

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

Passada a eleição, o PT expôs uma crise interna que vinha sendo represada durante a campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O comandante nacional do partido, Edinho Silva, colocou em curso um movimento para tentar expulsar quadros acusados de omissão no processo eleitoral.

O principal alvo é o prefeito de Maricá, no Rio, Washington Quaquá, que é vice-presidente da legenda. Um mês após 1ºturno: Ruas e Paes vão à Justiça e trocam denúncias de crimes e irregularidades eleitorais

Entrevista: ‘Sucessor de Lula não precisa necessariamente ser do PT’, diz governador reeleito da Bahia A lavação de roupa suja foi evidenciada por Edinho em reunião da Executiva Nacional, e ele disse que tem o aval de Lula para promover esse tipo de movimento.

Além das insatisfações causadas na eleição recente, em que criticou abertamente o chefe do partido pela condução da campanha, Quaquá foi alvo de diversas ações na comissão de ética da sigla nos últimos anos. ‘Mentiroso’

Na reunião da Executiva após a vitória de Lula, Edinho chegou a apontar a possibilidade de uma saída negociada de Quaquá do partido. O dirigente fluminense, no entanto, refuta a possibilidade.

— Não tem saída. Que saiam os incomodados.

Se ele está incomodado com a divergência, ele que saia. O PT é um partido democrático — afirma o prefeito.

O prefeito de Maricá diz que vai pedir uma conversa com Lula para tratar da crise e que Edinho “tem mania” de usar o nome do presidente da República para referendar suas próprias atitudes no partido. Segundo ele, o chefe da legenda é “mentiroso”, “intrigueiro” e “fofoqueiro”.

— Não devo nada. Não existe crime de opinião no PT.

Então os hipócritas que apresentem o que têm, porque opinião divergente no PT não é crime. Não somos nós os fascistas — alega.

Segundo conhecedores das duas alas da direção nacional que estão em crise, também teriam chegado a Lula críticas de Quaquá à primeira-dama Rosângela da Silva, a Janja, o que contribuiu para o presidente avalizar a costura do grupo de Edinho. Ambos integram a Construindo um Novo Brasil (CNB), corrente majoritária da qual o próprio Lula faz parte.

Mesmo dentro da tendência, no entanto, há divisões. Durante a última disputa interna pela presidência do partido, no ano passado, a fissura na CNB ficou cristalina e precisou da intervenção de Lula para ser pacificada.

Quaquá chegou a dizer em entrevista que não via Edinho, com “aquele cabelo engomado, aquele sapato engraxado, subindo a Mangueira comigo ou indo a um assentamento do MST”. Pouco depois, apareceram juntos em evento na quadra da Mangueira que marcou o apoio de Quaquá ao paulista que seria eleito para dirigir o partido.

Uma das reclamações que a cúpula do partido pode transformar em processo — com potencial de resultar em expulsão — envolve a defesa da família Brazão, acusada de mandar matar Marielle Franco. Irmã da vereadora e hoje deputada federal eleita pela sigla, a ex-ministra da Igualdade Racial Anielle Franco foi autora da ação contra o prefeito.

Há também a afirmação de que a operação mais letal da história do país, tocada pelas polícias do ex-governador Cláudio Castro (PL) nos complexos do Alemão e da Penha, só matou “otário, vagabundo, bandido”; e a publicação de uma foto sorrindo ao lado de Eduardo Pazuello, que foi ministro da Saúde do governo Jair Bolsonaro no momento mais crítico da pandemia.

Reduto conflagrado Embora Maricá seja um reduto petista desde 2009, a família Bolsonaro venceu na cidade em 2022 e 2026 nos dois turnos de cada eleição.

O grupo de Quaquá também vem apresentando rachas que, na visão nacional, são resultado do predomínio de interesses pessoais em detrimento do projeto macro do partido. Tanto o ex-prefeito Fabiano Horta, eleito deputado federal, quanto o atual vice-prefeito e integrante da Executiva Nacional, João Mauricio de Freitas, estão rompidos com Quaquá.

Na eleição para a Câmara, Horta foi mais votado em Maricá. Ele já teve como vice na prefeitura o filho de Quaquá, Diego Zeidan, hoje presidente do PT estadual.

Ao jornal O Estado de S. Paulo, Edinho afirmou que Lula quer que o PT “interprete a mobilização das ruas” vista no segundo turno eleitoral, o que passaria por incorporar a juventude.

Disse ainda, no que foi lido como indireta a Quaquá, que o partido “não pode apenas reproduzir as relações de poder nem ser um amontoado de projetos pessoais, utilizado para promover enriquecimento e crescimento patrimonial”. O dirigente do partido no Rio, contudo, não é o único na mira.

Segundo um integrante da sigla, há registros de figuras que fizeram campanha para si sem incluir o nome e a foto de Lula nos materiais produzidos, o que corrobora o discurso de “amontoado de projetos pessoais” martelado por Edinho. Outra reação de Quaquá às declarações do presidente do partido foi jogar luz sobre as doações de empresários ao diretório municipal do PT em Araraquara, cidade no interior paulista que foi governada pelo dirigente.

Como mostrou o colunista Lauro Jardim, do GLOBO, foram arrecadados R$ 5,7 milhões em doações de pessoas físicas entre 2025 e 2026, segundo a prestação de contas. Entre eles, aparecem nomes como José Seripieri Filho, da Amil, e Rubens Ometto, da Cosan.

Edinho Silva concorreu a deputado federal este ano e foi eleito com 115 mil votos.

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
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