Preso por suspeita de receber propina, ex-CEO do BRB diz à PF que banco não perdeu dinheiro em operações com Master

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Fonte da notícia: Valor Valor

O ex-CEO do Banco de Brasília (BRB) Paulo Henrique Costa disse em depoimento à Polícia Federal (PF) que as operações com o Banco Master, de Daniel Vorcaro, deram lucro de aproximadamente R$ 8 bilhões e que a instituição do DF não perdeu dinheiro nesse caso. Preso na quarta fase da Operação Compliance Zero, sob suspeita de ter recebido seis imóveis como propina, ele prestou um depoimento de mais de 4h30 à delegada da PF Janaína Palazzo, no último dia 15.

Ao longo de sua fala, Costa repetiu diversas vezes que todas as operações com o Master seguiram os ritos apropriados de governança e foram aprovadas por órgãos colegiados do BRB. Ele alega que o banco não tinha como saber das fraudes no Master e argumenta que o próprio Banco Central estava ciente das cessões de carteira e nunca avisou o BRB de nenhum risco.

“Em outubro [de 2025] a gente não acredita... a gente não imagina que é fraude.

Não é típico um negócio desse. Quando a gente lê o relatório circunstanciado, do Banco Central, aqueles indícios e tal, [hoje] fica mais claro, mas a gente não teve acesso àqueles documentos.

Nunca teve acesso antes da investigação e nunca teve aquele acesso ao documento”, diz Costa no depoimento, ao qual o Valor teve acesso. Mesmo citando a possibilidade de fraude em alguns momentos, em outros o ex-CEO dá a entender que as carteiras problemáticas — adquiridas pelo Master da Tirreno e depois repassadas ao BRB — na realidade existem, mas podem ter sido “clonadas”.

“É muito diferente uma coisa da outra, porque como clonado, se de verdade foi isso, de novo, eu não tenho essa informação... [...] Os elementos que a gente tinha de checar, boa parte dos elementos não seriam suficientes para identificar uma clonagem.”

Assim, ele argumenta que essas carteiras — mesmo que possivelmente clonadas — deram lucro ao BRB. “Até junho [de 2025, data do último balanço publicado pelo BRB], a gente já teve R$ 6 bilhões de receitas com estratégia de cessão”, afirma em um trecho.

“O pacote de operações de cessão, e aí eu estou falando de NPL [carteiras vencidas que foram vendidas ao Master], estou falando de tudo isso, ele deve ter gerado uma receita para o BRB superior a R$ 8 bilhões. Somente as compras geraram R$ 6,6 bilhões de receitas [...].

Tem um relatório, uma apresentação que mostra que tinha de ‘rolling forecast’, ou seja, de projeção, essas carteiras estavam com mais R$ 500 milhões. Ou seja, daí que eu chego: R$ 6,6 bilhões, mais R$ 1,5 bilhão, mais os efeitos de NPL...”

Segundo ele, o BRB tem dito recentemente que seria preciso fazer um ajuste, em função de provisões nos ativos adquiridos do Master, de cerca de R$ 8,8 bilhões. Assim, com os mais de R$ 8 bilhões de receita gerada para o banco com as cessões com o Master, Costa diz que “o BRB não perdeu dinheiro”.

“A gente precisa olhar essas carteiras como um filme, não como uma foto. [...] Muitas vezes a própria imprensa, quando olha, fala em ‘rombo’ e coisas desse tipo, que não são palavras adequadas, não refletem a realidade, e o próprio relatório do Banco Central de 15 de dezembro demonstra isso.”

Nesse momento, a delegada Palazzo lembra que, após a identificação do problema nas carteiras oriundas da Tirreno e a troca de ativos com o Master, o BRB ainda ficou com R$ 2,2 bilhões em créditos que não conseguiu trocar. “Isso teve de ser registrado como prejuízo no Banco Central.” Ela ainda aponta que Costa estaria colocando na sua conta dos R$ 8 bilhões em ganhos de capital que o BRB teve ao vender carteiras vencidas, ou seja, um efeito contábil, o que é diferente, já que o prejuízo gerado pelos ativos do Master foi um resultado financeiro.

Costa, então, diz que mesmo se for considerado somente o resultado financeiro até o balanço de junho de 2025, ainda assim a operação é positiva para o BRB. “Até junho, em balanço publicado e auditado, é R$ 6,6 bilhões.

Ou seja, esses R$ 2,2 bilhões, na melhor das hipóteses, reduzem o ganho que o BRB tinha.” Em depoimento separado, para a mesma delegada, Vorcaro também disse que os negócios com o BRB deram lucro.

“Não sou responsável pelos problemas do BRB; faça-se uma perícia de todos os negócios que o Master fez com BRB, eu tenho convicção que eles deram lucro, e muito lucro”, afirmou. Em seu depoimento, Costa ainda diz ter preocupação com as ações adotadas pela nova administração do BRB após sua saída.

Segundo ele, o banco tinha planos para manter, vender e/ou rentabilizar ativos recebidos do Master. “Estamos agora com 11 meses da deflagração da primeira fase da operação Compliance Zero e não temos esses números.

Não é só uma preocupação de transparência. Naquilo que me afeta diretamente, essa demora pode interferir em uma venda de ativos que lá na frente a gente possa ser atribuído responsabilidade por algo que, na nossa visão, se tivesse sido cumprido o planejado, não teria acontecido.”

Costa diz que, em 18 de novembro de 2025, quando foi decretada a liquidação do Master, o BRB tinha bastante dinheiro em caixa e inadimplência de 2,35%, sendo que análises internas indicariam a necessidade de um aumento de capital de somente R$ 109 milhões. “O BRB ali era um banco sadio.” Ele afirma que o único problema era a provisão que teria de ser feita nos ativos adquiridos do Master, mas que, ao mesmo tempo, o então governador do DF, Ibaneis Rocha, tinha prometido um aumento de capital de R$ 1 bilhão no banco.

“Então, mais ou menos, a situação estava na mão.” Procurada, a defesa do ex-presidente do BRB diz que não se deve olhar apenas uma carteira, cuja substituição por outro ativos Costa só não conseguiu zerar porque foi removido do banco.

“Globalmente, porém, as operações foram lucrativas”, afirma a defesa. Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB

Silvia Zamboni/Valor

Publicação Original Valor valor.globo.com
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