Mil oligossacarídeos, 1.500 proteínas e 4 mil peptídeos. Esses são alguns dos componentes que a equipe do cientista holandês Bernd Stahl, já detectou no leite materno. Com mais de 25 anos de pesquisas bioquímicas na área, Stahl é atualmente diretor de Pesquisa em Leite Humano e Ciência Analítica na Danone Nutricia Research, além de professor associado na Universidade de Utrecht.
Para ele, as tabelas que circulam na internet comparando o leite materno às fórmulas infantis que buscam reproduzir sua composição subestimam a diferença. “Uma fórmula infantil pode chegar perto do leite materno, mas não pode copiá-lo. Não é possível copiar o leite materno com essa complexidade e essa dinâmica”, afirmou Stahl, durante apresentação a jornalistas e criadores de conteúdo em Ciência no Centro de Pesquisa e Inovação da empresa, na cidade holandesa. A Danone é uma das maiores fabricantes de fórmulas infantis do mundo, com os produtos da linha Aptamil, e pesquisa, há mais de 50 anos, as funcionalidades e composições do leite materno. Com a compra em 2007 da Nutricia, empresa centenária de origem holandesa, fundada em 1896 e especializada em nutrição médica e infantil, o grupo se consolidou como referência global na área.
Segundo Stahl, a empresa já fez cerca de 16 pesquisas científicas de longa duração (chamadas de coortes) de amamentação com hospitais na Europa, na Ásia e na África. São estudos que analisam a composição do leite e seus efeitos nos bebês sem uso de produtos. Os focos são intestino, imunidade, desenvolvimento cerebral e desenvolvimento do paladar. Atualmente, a empresa conduz um estudo observacional em seis centros na China. A dificuldade em copiar o produto vem da sua engenharia biológica. Segundo Stahl, o leite materno muda todos os dias e até dentro do período de uma mesma mamada. No início, por exemplo, tem pouca gordura; no fim, “vem toda a gordura”. A explicação, diz o cientista, é que o bebê precisa adaptar as enzimas do intestino para digerir a gordura a cada mamada. A dieta da mãe também aparece no leite. Mães que comem muito peixe têm mais DHA, um ácido graxo importante para o cérebro. Numa coorte que acompanhou mil pares de mãe e bebê numa cidade da Alemanha, o perfil de gorduras do leite vem mudando nos últimos anos. “Em dez anos, a genética não mudou. O que mudou foi a dieta”, disse Stahl, atribuindo a mudança, positiva segundo ele, às recomendações para evitar gordura trans e consumir azeite e peixe. O leite também tem bactérias próprias, como bifidobactérias e lactobacilos, e cada mãe transmite um perfil diferente ao filho. “É muito personalizado”, disse o pesquisador. Com proteômica, a equipe chegou a detectar no leite de uma mãe uma infecção ou inflamação que ela teve na sexta semana de amamentação. Do laboratório para a lata Parte desse conhecimento chega aos produtos. O caso mais citado pelos cientistas da empresa é o dos oligossacarídeos do leite humano, os HMOs. São açúcares que o bebê não digere e que servem de alimento para bactérias benéficas do intestino. Segundo Stahl, há mais de 30 anos a Danone identificou que esses compostos têm até 50 blocos de construção diferentes. Como os milhares de oligossacarídeos do leite humano não estão disponíveis para compra, a empresa criou, em laboratório, uma mistura de fibras prebióticas (GOS e FOS) para imitar sua função. “Ou esperávamos mais 20, 30 ou 40 anos, ou fazíamos alguma coisa agora”, disse Stahl. Segundo ele, foram 40 estudos clínicos e mais de 90 publicações sobre a mistura. Jan Knol, diretor sênior de Intestino, Imunidade e Microbiologia da Danone, explica que as bactérias que mais se beneficiam dos HMOs são as bifidobactérias, que evoluíram para viver no intestino do bebê e protegem a criança contra infecções, treinando o sistema imunológico. “É realmente um exemplo de coevolução”, afirmou. O leite de vaca não tem esses substratos, e a mistura prebiótica, disse Knol, busca compensar essa diferença. Outro exemplo é a gordura. No leite materno, ela não vem “como uma gota boiando na sopa”, mas em glóbulos, com os triglicerídeos no centro, cobertos por lipídios polares. “É um sistema de entrega com o endereço certo”, disse Stahl.
Segundo Stahl, 9 de 12 inovações em fórmula infantil nas últimas duas ou três décadas foram desenvolvidas pelas equipes da Danone. Michael Koopmans, diretor do Centro Global de Pesquisa e Inovação da Danone em Utrecht, explica que reproduzir essa estrutura na fórmula levou muitos anos. Além de revestir a gordura, era preciso que ela se dissolvesse em água fria, sem muita agitação e sem espuma. “Nunca vamos ser iguais ao leite materno, mas muito, muito próximos”, disse ele. O Aptamil é o principal produto da empresa para esta finalidade (crianças de até 1 ano) e disputa as prateleiras especialmente com a Nestogeno da Nestlé. Ambas as marcas também aumentam a aposta na alimentação de crianças de 1 a 3 anos.
Arthur Lorenzetti, vice-presidente de Nutrição Especializada da Danone Brasil, afirma que o consumo de fórmulas nutricionais no Brasil, na comparação internacional, ainda é baixo, uma vez que o aleitamento materno exclusivo é alto e o consumo deste tipo de produto não pode ser incentivado pela indústria por conta de regulamentação, boas práticas e compliance. “Basicamente, a gente cresce junto com o crescimento da população”, afirmou. Segundo Lorenzetti, a estratégia é ser a opção mais próxima do leite materno para quando a fórmula for necessária. A empresa, contudo, precisa constantemente investir em inovação. A partir de relatos de constipações nos bebês, por exemplo, reformulou o produto para incluir prebióticos. Uma novidade recém-anunciada é a chegada no Brasil do Aptanutri Profutura Gold, para crianças a partir de um ano. Segundo a empresa, o produto tem o maior teor de prebióticos da categoria, além de HMO e DHA. Questionado sobre o uso de cultura de células para produzir leite, Stahl explica que há tentativas, em geral de startups, que conseguiram reproduzir parte da complexidade de lipídios, proteínas ou oligossacarídeos. Mas ainda não produziram o leite completo e esbarram na escala, ou seja, a produção de volumes maiores. “Ainda há um caminho muito longo”, afirmou. Para o pesquisador, contudo, as décadas de avanço até agora são apenas o começo. “Ainda conhecemos só a ponta do iceberg do leite humano”. *A repórter viajou a convite da Danone Mais Lidas
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