Seis fragmentos ósseos de um neandertal que viveu há cerca de 46 mil anos foram identificados na caverna de Abauntz, na região de Navarra, no norte da Espanha. As imagens foram divulgadas nesta segunda-feira. Os restos pertenciam a um homem adulto e incluem partes da mão direita. A descoberta representa a primeira evidência fóssil direta da presença de neandertais na região dos Pireneus ocidentais e pode ajudar cientistas a compreender melhor as populações que viveram nos últimos milênios da existência da espécie. No arquipélago português da Madeira, cientistas têm ações de monitoramento e conservação Qual a diferença entre ano e segundo bissexto? Entenda mudanças previstas para 2027 Os fragmentos foram identificados por uma equipe internacional de pesquisadores. O material estava preservado em condições que permitiram recuperar DNA antigo, algo incomum em restos humanos com dezenas de milhares de anos. O conjunto é formado por três ossos metacarpais, localizados na palma da mão, e uma falange intermediária de um dedo. Outros dois fragmentos foram identificados como humanos por meio de análises de proteínas. Os exames genéticos confirmaram que os restos pertenciam a um indivíduo do sexo masculino. A datação direta dos fósseis situou o homem entre 44 mil e 49 mil anos atrás, com estimativa aproximada de 46 mil anos. O período corresponde a uma fase próxima do desaparecimento dos neandertais, que deixaram de existir há cerca de 40 mil anos, em um contexto de expansão dos humanos modernos, da espécie Homo sapiens, pela Europa. Marcas nos ossos e vestígios de ocupação Os fragmentos foram encontrados em um contexto arqueológico que também inclui ferramentas de pedra e restos de animais. Alguns desses ossos apresentam marcas compatíveis com o processamento das carcaças e o consumo de carne por grupos humanos. Arqueólogos escavando uma área onde os restos mortais de Neandertal foram descobertos Divulgação | Equipe de Pesquisa Abauntz Parte dos fósseis do neandertal também apresenta marcas de mordidas de animais carnívoros. Os pesquisadores investigam como esses vestígios podem ajudar a esclarecer o que aconteceu com o corpo após a morte e como os ossos foram parar no interior da caverna. A localização do sítio arqueológico aumenta a importância do achado. A caverna de Abauntz fica em uma passagem natural entre a Península Ibérica e o restante da Europa, através dos Pireneus. A região pode oferecer pistas sobre a mobilidade dos neandertais e as possíveis conexões entre diferentes grupos humanos pré-históricos. Um raspador feito de uma lasca de sílex, descoberto junto aos restos mortais de Neandertais Divulgação | Equipe de Pesquisa Abauntz Até a identificação dos fósseis, não havia restos humanos que comprovassem diretamente a presença da espécie em Navarra. O achado preenche uma lacuna no registro arqueológico conhecido da região e amplia as possibilidades de investigação sobre a distribuição dos neandertais no continente europeu. DNA pode revelar mais sobre os últimos neandertais A recuperação de material genético dos fragmentos abre caminho para novos estudos sobre a história evolutiva e as características demográficas dessas populações. Como o DNA se degrada ao longo do tempo, sua preservação em fósseis tão antigos é considerada um resultado relevante para a pesquisa.
O trabalho é codirigido pelos pesquisadores Mikel Arlegi e Andion Arteaga e reúne mais de 25 especialistas de diferentes instituições europeias. Entre os colaboradores estão pesquisadores da Universidade de Viena e do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva, na Alemanha. As análises genéticas continuam em andamento. A expectativa é que os resultados ajudem a esclarecer como as populações neandertais se transformaram nos milênios anteriores ao desaparecimento da espécie e contribuam para o entendimento de sua história evolutiva. As escavações na caverna também continuam, e os pesquisadores esperam encontrar novos vestígios que permitam reconstruir aspectos da vida dos grupos que ocuparam o local há dezenas de milhares de anos.
O Globo