O número de baleias e filhotes que aparecem mortos nas costas de Puerto Madryn, região da Patagônia Argentina, continua aumentando. Diante desse problema, a Secretaria local de Ecologia estabeleceu um protocolo para definir como intervir em cada caso, dependendo do local onde o corpo está localizado, sua condição e o risco que representa para a saúde da população. Resistência: No arquipélago português da Madeira, cientistas têm ações de monitoramento e conservação Veja vídeos: Avalanche em estação de esqui no Chile deixa quatro mortos e quatro feridos, segundo autoridades Embora o surgimento de filhotes de baleia mortos durante a temporada não seja, em si, motivo de alarme, em geral as mortes são menores. Os números deste ano posicionam-se acima do esperado. Desde junho, os casos vêm ocorrendo semana após semana em Puerto Madryn e na Península Valdés, sem a pausa habitual entre os meses. O pico mais agudo chegou há apenas alguns dias: cinco baleias-francas-austrais apareceram mortas em um intervalo de menos de 48 horas, várias delas na orla central da cidade. Foi esse salto que acabou de instalar a discussão sobre o que fazer com cada corpo. O protocolo, elaborado pela Secretaria de Ecologia e Proteção Ambiental local, não permite o sepultamento automático. Primeiro é preciso identificar a espécie, registrar a localização, estimar o tamanho do animal e documentar seu estado. Só então o local é escolhido: longe do alcance das marés mais altas, longe da erosão costeira e em um solo que não comprometa lençóis freáticos nem poços de água. Retroescavadora remove uma baleia-franca-austral (Eubalaena australis) morta da praia de Puerto Madryn, Chubut, Argentina Maxi Jonas / AFP Assim que um espécime aparece, um perímetro de segurança de 100 metros é traçado. É proibido perfurar o corpo para liberar gases por conta própria. E nas praias turísticas, a sinalização não menciona o animal: apenas alerta sobre o risco, para não atrair curiosidades. A fronteira que decide onde cada baleia fica O bacharel em Gestão Ambiental Víctor Fratto, que integra o Programa de Monitoramento Sanitário da Baleia Franca Austral, explicou ao ADNSUR como se decide, na prática, se um corpo será trasladado ou enterrado onde ficou. O critério é mais prático do que protocolar: depende de quanto tempo o animal aguenta. Quando o transporte por terra ou por água não é viável — devido ao peso, ao terreno ou ao estado do corpo —, aplica-se o chamado "sepultamento nas proximidades", o mesmo método que já havia sido aplicado na província durante a gripe aviária para descartar leões-marinhos e elefantes-marinhos mortos. As máquinas puxam o animal da praia até um ponto acima da linha da maré mais alta. — Se a cauda se rompe, já não há como manipular esse animal; então, o que é feito é enterrá-lo no mesmo lugar — descreveu Fratto. Uma vez coberto, o monte é sinalizado, embora o próprio especialista admita que a sinalização tem um custo: “Não vai faltar quem vá enfiar o pauzinho para ver se consegue tirar alguma coisa”. Há duas covas ativas na Praia Paraná, uma em Cerro Avanzado e outra em uma fazenda vizinha, que cedeu terreno diante da quantidade de casos. Vista aérea de uma baleia-franca-austral (Eubalaena australis) morta na costa de Puerto Madryn, Chubut, Argentina Maxi Jonas / AFP O pedido mais concreto de Fratto tem a ver com o que acontece depois do enterro: se em algum momento aparecer líquido ou gás na superfície, a recomendação não é fotografá-lo para as redes.
— Para que sejam tomadas medidas corretivas ambientais que favoreçam a saúde pública, é muito mais efetivo ligar para o 103 do que colocar uma foto no Facebook — disse. Uma situação incomum? A discussão sobre o que fazer com os corpos corre paralela a outra questão, ainda sem resposta: por que os animais estão morrendo? Os pesquisadores trabalham em duas linhas separadas, dependendo da faixa etária. Nos filhotes, as primeiras amostras detectaram uma bactéria associada à erisipela, uma infecção capaz de comprometer vários órgãos — embora os resultados, esclarecem, ainda sejam preliminares. Nos exemplares juvenis e adultos investiga-se outra coisa: uma possível intoxicação por biotoxinas, vinculada à maré vermelha. Há amostras enviadas a um laboratório da Universidade Nacional da Patagônia San Juan Bosco, em Trelew, e ao Instituto Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento Pesqueiro, em Mar del Plata. Nenhuma das duas análises foi concluída ainda. É aí que os dados começam a entrar em conflito. Semanas atrás, o próprio Programa de Monitoramento havia apontado que a quantidade de encalhes se mantinha dentro dos padrões históricos da temporada. Mas o Greenpeace Argentina alertou em seguida que a mortalidade registrada desde junho nos golfos norte-patagônicos pode se tornar um recorde histórico e pediu que se avance na proteção efetiva da espécie, declarada Monumento Natural. As duas leituras não são necessariamente incompatíveis — uma temporada pode começar dentro dos valores esperados e terminar superando-os —, mas indicam que ainda não há um número consolidado nem uma explicação definitiva. Os laboratórios de Trelew e Mar del Plata investigam atualmente a situação.
O Globo