Enquanto o tempo acelera e pede pressa, Licia Manzo almeja um pouco mais de alma e de calma, como canta Lenine em “Paciência”. Depois das longas e árduas travessias nas três novelas que assinou na função de autora titular na TV Globo (“A vida da gente”, “Sete vidas” e “Um lugar ao sol”), ela afrouxou o passo e voltou a escrever série, encerrando um hiato de 17 anos desde “Tudo novo de novo”. Agora, está dando sua “resposta ao tempo”. Este é o título da história que chegará em 2027 ao Globoplay reunindo Debora Bloch, Giulia Gam, Edvana Carvalho e Drica Moraes nos papéis principais. Elenco: Tuca Andrada fará "Resposta ao tempo", série de Licia Manzo no Globoplay E mais: saiba o papel de Fabio Assunção em "Resposta ao tempo" — Em 2024, eu tive uma novela cancelada, “O país de Alice”. A direção me pediu outra sinopse. Falei abertamente do meu desejo de não fazer mais novelas. Amo todas, mas vou completar 62 primaveras. O ritmo começou a ficar custoso. Pretendia me experimentar em formatos menores, mais lentos. Saiu na imprensa que fui demitida, mas a TV Globo não teve culpa disso. Eles queriam que eu continuasse como novelista, eu que não quis. Então, propus apresentar uma sinopse de série e desenvolvi no período que restava de contrato. Quando me desliguei, em outubro daquele ano, deixei lá. No começo de 2025, me ligaram falando que tinha sido aprovada. A etapa novela, para mim, está encerrada. Não posso ouvir o número cem (em referência aos capítulos). Tenho um infarto do miocárdio (risos). Fiz com muito vagar cada um dos dez episódios. Uma experiência que veio ao encontro do ritmo e da capacidade de aprofundamento que eu ansiava — relembra. As gravações estão em curso, sob a direção artística de Luisa Lima. A produção mostrará o passado e o presente de quatro nadadoras que foram campeãs na década de 1990. Depois de 30 anos, elas se reencontram e decidem voltar ao esporte. No dia marcado para o retorno, uma das personagens é assassinada. Quem matou? Quem morreu? Os mistérios seguirão até o fim: — O tempo é personagem da série. Desde cedo, as quatro duelavam com ele na piscina. Mais velhas, precisam vencê-lo em outro sentido. O etarismo é um dos temas nucleares da história. Se vítima e criminoso não são revelados prontamente, a motivação fica límpida já no início: feminicídio. — Eu diria, sem tanto método, que oito em dez séries no streaming são sobre agentes do FBI, crime, assassinato... As pessoas parecem ter uma sede quase infantil, uma pulsão de violência. Não é meu gênero preferido, mas parece que o ritmo das coisas aponta para isso. Pensei: “Uma forma orgânica de falar disso no Brasil é falar de feminicídio.” A gente tem seis mulheres mortas por dia. É assombroso. Daí achei meu nicho. Não queria falar de crimes espetaculares, mas de situações reconhecíveis na vida. Não foi difícil pensar em quatro mulheres comuns, cidadãs, trabalhadoras, mas a graça da série é que cada uma delas, por diferentes motivos, tem a vida ameaçada. O público vai oscilar pensando: “Será essa nadadora assassinada? Ou aquela?” Será um recorte dramático orgânico. Não estou fazendo isso para causar ou lançar um anzol de audiência. Minha intenção profundamente é refletir a respeito de uma sociedade que parece naturalizar a violência de gênero — explica. A obra também tratará de abuso sexual infantil, desemprego, doença terminal e estelionato sentimental. A autora abordará ainda a Síndrome de Down por meio do filho da personagem de Drica: — É uma mulher sobrecarregada, vivendo uma maternidade solo e atípica. Eu sou mãe de uma menina especial (Clara, de 27 anos), o sol da minha vida. Sempre procuro trazer algo que dê visibilidade à causa. É um tema caro para mim. Em “Um lugar ao sol” tinha uma personagem com Down. Em “A vida da gente” falei disso. É um tesão retratar um assunto que você conhece. Com essa digital tão facilmente detectável na tela, Licia fidelizou seu público. Nas redes sociais, é possível perceber a alta expectativa em torno da série. Ela diz que não teme frustrar fãs: — Saber disso só me deixa feliz. A melhor arma que se tem contra esse negócio de decepcionar é mergulhar no trabalho e dar tudo o que você pode. Não economizar e ser verdadeiro. Tenho certeza de que fiz o que tinha que fazer. A recepção não é mais comigo. Em tempo (olha ele aí de novo!) de dramaturgias curtas voltadas para celulares, Licia se manteve leal ao estilo que a consagrou e não fez concessões no atual projeto: — Minha escrita é dialogada. As pessoas falam e procuram entender o que estão vivendo. Acho que há busca por esse tipo de dramaturgia. Pode haver o público da novela vertical, mas acho que ainda há aquele que quer um trabalho em ritmo reflexivo, mais aprofundado. Se não houver mais demanda, vou fazer outra coisa. Não me vejo escrevendo para TikTok. Ele encontrará os seus pares, e eu vou encontrar os meus. Não fico fazendo conta de quando chegar enquanto escrevo, pensando que tem que ser rápido senão a pessoa não vai aguentar. Eu falo: “Isso aqui me interessa, isso é relevante humanamente.” Tenho fé que vai comunicar. Antes da mudança profissional que vem se concretizando, Licia enfrentou turbulências em sua despedida das novelas. “Um lugar ao Sol”, muito afetada pela pandemia, terminou em 2022 com a pecha de pior audiência da história da faixa das 21h em São Paulo (22,3 pontos). A marca acabou superada por “Mania de você” (2024-2025), que registrou 21,1 na média geral. — O balanço que posso fazer é como autora. O resto tem que ser avaliado por outras pessoas. Programação, produção, divulgação e lançamento não me competem. É uma obra que eu amo. Tenho um orgulho imenso. Foi uma escrita na maturidade, com uma equipe madura. Aprendi muito no processo — avalia. Licia afirma desconhecer todas as razões por trás do cancelamento de “O país de Alice”, que entraria no horário das 18h em 2024, mas diz que estava satisfeita com o resultado (“Como autor titular, se você não gostar, não tem condição”). Ela surpreende ao contar que sua novela preferida é justamente outra que não foi exibida: “Jogo da memória”, engavetada em 2017. A ideia era mostrar que traumas familiares atravessam gerações e tentar responder a uma pergunta: o quanto cada pessoa é determinada pela trajetória de um antepassado? O enredo, em três cronologias, iria ao ar às 23h: — Acho que minha equipe concordaria que eu cheguei ao resultado mais original e eficiente. É a que tenho mais orgulho de ter escrito. Você vê como as coisas são paradoxais. Ela não foi produzida. Mas aí são outras coisas. Tem a ver com o momento da empresa, de querer produzir ou não. Eu luto para que as novelas sejam fiéis a mim e às minhas crenças. Faz parte do jogo. Se eu achar que tudo o que fizer vai estrear e ser um grande sucesso, estou na profissão errada. Aconteceu com Gilberto Braga, por que não aconteceria comigo? Mas nada se perde. Aprendi um monte. Fui para outro lugar artisticamente. No hard feelings. Tanto que continuei lá. Licia realizou o primeiro trabalho na Globo em 1993, como roteirista de “Os Trapalhões”, após ter abandonado a carreira de atriz aos 30 anos. Entre os integrantes da equipe estava, veja só, Lenine, que abriu o texto desta entrevista. Além dele, Claudia Souto, Emanuel Jacobina e Mauro Wilson. O processo durou um ano. Ela saiu e voltou pouco tempo depois a fim de participar do time do “Sai de baixo”. Então, permaneceu na emissora por três décadas. TV e famosos: se inscreva no canal da coluna Play no WhatsApp Assim que encerrou seu contrato, Licia voltou as atenções para o cinema e assinou o roteiro do filme “Um longo caminho de volta”. A trama acompanha uma mulher que foge da Irlanda para o Brasil ao descobrir que o marido abusou da própria filha deles, mas sua ação acaba enquadrada como sequestro internacional pela Convenção de Haia. Por ora, não há data exata para rodar. Enquanto a autora desenvolvia o longa, veio o sinal verde para a série. Ela evita definir uma próxima empreitada: — Estou aprendendo a respeitar o meu tempo. Sempre que termino um fluxo criativo intenso, tenho uma descida de ladeira. Vou para o meu cantinho ficar quietinha e respeitar meu silêncio. Fiz dois trabalhos importantes. Dá um esvaziamento. Preciso encher de novo de conteúdo, viajar, assistir a coisas... Formada em Letras, Licia tem o desejo de publicar um romance. Se isso se tornará realidade, só o tal tempo dirá. A autora, que estudou Clarice Lispector em sua pesquisa de mestrado, recorre a ela para falar de futuro: — Minha musa maior disse em uma entrevista: “Sou amadora. Faço questão de continuar a ser amadora. Só escrevo quando quero.” Foi a coisa mais bonita e alinhada comigo que já ouvi. Claro que sou uma pessoa precavida financeiramente para tomar uma decisão dessa. Não virei milionária, mas vivo com dignidade. Principalmente a dignidade de escolher o que escrever e quando. Replico a fala dela. Faço questão de me manter amadora. As séries preferidas de licia manzo "The White Lotus": disponível na HBO Max, a série tem três temporadas. Cada uma é ambientada num hotel de luxo diferente. As histórias sempre apresentam um mistério envolvendo alguma morte. “Fiquei rendida com essa. Já assisti várias vezes. É um prato cheio, pois tem muitas camadas. Que beleza de estrutura orgânica! Que diálogos e personagens bem construídos! Adoro ver entrevistas do Mike White (criador) e dos atores.” "Big little lies": outra obra da HBO, a série acompanha mães que guardam segredos sobre um assassinato. “Eu adoro. Dentro daquele arcabouço de crime, tem um monte de assuntos, de relações da contemporaneidade, que estão sendo escoados ali. Como ‘The white lotus’, é uma série de crime, entre aspas, mas profundamente humanista.” "Enlightened": “Do Mike White, eu já tinha assistido a essa e pirado. É uma série pouco citada com a Laura Dern.” Nesta comédia da HBO, uma executiva decide passar meses num centro de terapia após uma crise nervosa e retorna ao trabalho transformada. "My so-called life": o enredo trata de temas da adolescência. “É a série da minha vida. Uma história dos anos 1990 com a Claire Danes. Lindíssima.” "The affair": a produção mostra os impactos de um relacionamento extraconjugal entre Noah (Dominic West) e Alison (Ruth Wilson). “Se tem drama humano, pode ter certeza de que passei por ali. Sou muito drama queen.” "I know this much is true": a trama da HBO é sobre a vida dos irmãos gêmeos Dominick e Thomas Birdsey (Mark Ruffalo). Um deles sofre de esquizofrenia. “Dessa eu sou devota. Vou assistir 800 vezes e jamais me cansarei.” "Hal & Harper": também traz Ruffalo no elenco, interpretando um homem com dois filhos cuja mulher morreu quando eles eram crianças. A série, no ar no Mubi, navega pelos conflitos desses dois jovens de 20 e poucos anos, marcados por traumas da infância e muito dependentes um do outro. "Adolescência": série-sensação da Netflix em 2025, ela conta a história de um adolescente acusado de cometer um crime. “Fiquei humilhada. Como o cara (Stephen Graham, criador) faz isso? Espetáculo!” "Pela metade": lançada este ano pela HBO, destrincha a relação tóxica entre dois rapazes que crescem juntos. Na vida adulta, eles se reencontram, e uma tragédia acontece. “Richard Gadd (autor e ator) é maravilhoso. Também adorei ‘Bebê rena’ (na Netflix).”
Autora Licia Manzo fala da nova série 'Resposta ao tempo', faz balanço da carreira e anuncia decisão: 'A etapa novela, para mim, está encerrada'
Fonte da notícia:
O Globo
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